É uma fixação, para muitos treinadores e também para outros tantos proprietários, dar remédios para os cavalos. Não se trata de medicar adequadamente em decorrência de exames e de necessidades, mas é parte da cultura turfística, é preciso medicar, dar vitaminas, de preferência, remédios importados.
Muitas vezes de nada adianta a verdade, há aqueles que são obsessivos. Foi em função disso que eu acabei tendo por muitos anos (até a morte dele), uma das melhores figuras do turfe brasileiro. Essa história remonta há cerca de 45 anos.
Naquela época, com um serviço de controle antidoping muito incipiente, com pesquisa circunscrita a poucas substâncias, remédios importados eram dados indiscriminadamente, vinham da Argentina e principalmente da Europa. Hoje em dia, aparelhagens sensíveis e sofisticadas, e com intenso trânsito de informações técnicas pelos mais modernos e rápidos meios de comunicações, a coisa é diferente.
Havia uma tordilha muito corredora, de nome GARÇA, milheira por excelência, tão bonita quanto boa. O seu proprietário era um criador paulista de muitos amigos, de família tradicional paulista, que freqüentava a sede e o prado do Jockey Club de São Paulo. A sua farda lilás era vitoriosa, grande ganhadora de clássicos, na verdade um dos pontos altos da criação e das corridas paulistas daquela época.
O treinador da GARÇA era um mineiro que tinha começado nas cocheiras da Gávea como escovador, depois fora para São Paulo, subira para a categoria de segundo–gerente e, adiante, para treinador. Homem bom, trabalhador, de confiança, cuidava dos animais como se dele fossem. GARÇA estava em grande forma, ia correr no final da semana, e o proprietário entregou ao treinador uma ampola, era um remédio para ser dado na GARÇA na manhã da corrida. O treinador pediu para que o remédio não fosse dado, a égua estava ótima e não precisava daquilo. Mas o proprietário exigiu. GARÇA correu e ganhou. O exame antidoping nada acusou. Na corrida seguinte tudo se repetiu, o proprietário levou outra ampola para ser dada na GARÇA na manhã do páreo. GARÇA correu e ganhou. Seguiu ganhando páreos importantes, enfrentava os machos e as boas performances se repetiam.
Num domingo de manhã, já com a cocheira fechada, o proprietário foi à cocheira com a tal ampola. O treinador não estava, tinha ido almoçar mais cedo, pois precisava atender à tarde no prado a GARÇA e outros. O proprietário entregou a ampola ao segundo–gerente, e disse que queria ver a aplicação da injeção, e o empregado disse inocentemente que a GARÇA não costumava correr com o remédio, o treinador simplesmente guardava as ampolas em uma gaveta na mesa da farmácia. Incrédulo, o proprietário quis ver, e viu as anteriores ampolas que ele havia levado. Deu ordem ao empregado, e a injeção foi dada. À tarde, GARÇA venceu mais uma vez.
Mas dessa vez, o serviço antidoping encontrou no exame substâncias proibidas, a égua correra dopada, foi desclassificada para último sem direito a qualquer prêmio e o treinador recebeu pesada suspensão. O proprietário, agindo corretamente, foi à Comissão de Corridas, foi até o presidente do Clube, contou em detalhes o que havia acontecido, e disse que assumia total responsabilidade pelo ocorrido, o treinador não podia sofrer qualquer punição, e se havia alguma coisa a ser feita era com ele. De nada adiantou, o Código Nacional de Corridas dá como responsável o treinador, o proprietário não tinha como ser punido.
O caso ficou do conhecimento de todos, o treinador cumpriu a suspensão e o proprietário sempre assumindo publicamente a responsabilidade.
A partir daí, sempre que um treinador era suspenso ele chamava o treinador para substituí–lo, pela confiança e competência. Não era um ou outro, todos os treinadores suspensos entregavam os cavalos, aos cuidados dele (àquela época, o substituto substituía mesmo, não era apenas um "laranja").
O tempo se passou e um dia eu precisei de um treinador competente e de confiança para cuidar dos cerca de 25 cavalos que eu tinha em Cidade Jardim. Pedi ao meu amigo e veterinário Fernando Pereira Lima que me desse uma indicação, e ele me contou essa história, para as minhas muitas exigências, o nome deveria ser José Silvestre de Souza, o "Zé Pinto". À época ele estava cuidando na Chácara do Ferreira de seis animais de um amigo meu, que não colocou qualquer obstáculo, até gostou que o bom homem e bom profissional aproveitasse a boa chance.
O "Zé Pinto" cuidou dos meus animais, com muita dedicação e sucesso, durante 30 anos, e só parou quando morreu.
por Milton Lodi