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Janeiro | 2007

Paulo, Luciano, Hélio, por Milton Lodi
02/01/2007 - 13h02min

Paulo: PAULO SOLEDADE era um exímio aviador. Para que se tenha uma pequena idéia da sua arte de pilotar, basta lembrar que, quando da 2ª Grande Guerra Mundial, foi levado pela força aérea norte–americana como instrutor dos pilotos de lá. Depois dessa época, um grave problema obrigou a retirada de um dos seus pulmões. Grande parte de sua prolongada fase de recuperação foi passada no Haras Valente, no Paraná (ele era sobrinho do Luiz Gurgel do Amaral Valente). Tomou conta do haras com resultados acima da expectativa. Entendendo que o padrão do plantel do haras era de regular para bom, dentro da alta faixa, resolveu especializar a potrada em precocidade. Para isso, preparou uma pista onde os potros desde cedo eram colocados a galopar em liberdade, terminando a pista num lago. Isso que dizer que diariamente, sem carregar peso, fortaleciam a musculatura e trabalhavam as vias respiratórias. Proprietários cariocas iam ao haras comprar diretamente os potros, já prontos para a doma e iniciação, já com um trabalho metódico e saudável. O Haras Valente passou a ser, anualmente, o líder das estatísticas da nova geração. Paulo Soledade, o "centelha", como era por alguns íntimos chamado, tirou um haras médio da mesmice, e o levou para a liderança das estatísticas da nova geração, na Gávea.

Luciano: LUCIANO POMAR era um uruguaio muito simpático e bem educado, que conheceu José Paulino Nogueira quando este estudava as ciências e as artes do turfe com o "Tesio sul–americano", Don JUAN AMOROSO, do Haras Casupá. Ficaram amigos. Os anos se passaram, José Paulino já despontava como especialíssimo criador, e estava em seu Haras Bela Esperança, em Campinas, SP, quando foi procurado por Luciano, que havia resolvido morar no Brasil e fazendo o que gostava, criar cavalos de corrida. Ficou no haras como gerente geral, era a principal figura após o proprietário. Luciano era homem solitário, sossegado, e vivia em tempo integral como administrador, chefe dos empregados, responsável pela cuida e alimentação dos animais, fazia os partos, era o homem–chave e altamente competente. Um dia, Luciano procurou o José Paulino com um assunto inusitado. Ele era completamente surdo de um lado, e na noite anterior, o vigia noturno havia batido insistentemente em sua janela à noite, e não tinha conseguido acordá–lo pelo simples fato dele estar dormindo com o ouvido bom para baixo, no travesseiro. A égua teve um parto normal, tranqüilo, mas ele entendia da responsabilidade e do risco. Disse que a solução seria casar, pois a mulher o acordaria sempre que necessário, além de fazer companhia. Com o conhecimento do patrão e amigo, Luciano procurou no próprio haras, moça que lhe conviesse, já acostumada a morar naquele lugar. Havia um tratorista, de padrão melhor que a média dos empregados, que tinha uma filha jeitosa. Luciano foi ao pai dela, disse que o seu intuito era casar, e pediu licença para namorar a moça. Tudo deu certo, a moça era o que convinha, resolveu o problema e ainda deu uma linda filha ao Luciano. Os anos se passaram, o Luciano se aposentou, e passou a viver sempre em função da profissão do marido da filha, que de quando em quando era mandado de uma cidade para outra em função de sua ocupação. Todas as vezes que a filha e o genro mudavam, mudavam também Luciano e a mulher. Luciano Pomar já morreu, foi uma das melhores e mais competentes pessoas que conheci em minhas andanças pelo mundo do turfe.

Hélio: O Stud Almeida Prado e Assumpção era constituído pelos irmãos Nelson e João Adhemar de Almeida Prado, e ainda de Luiz Nazareno de Assumpção, no stud mera figura decorativa, não tinha nenhuma participação e era uma homenagem a uma importante figura do Jockey Club de São Paulo, do qual foi presidente e conselheiro, e que, se não me engano, havia sido cunhado dos irmãos, marido de uma irmã anteriormente falecida. O stud cresceu muito, resolveram criar, fundaram o Haras Jahú, em Cotia, SP, de um tremendo sucesso (dentre muitos grandes ganhadores clássicos, lá nasceu e foi criado FARWELL). A propriedade não era plana em sua totalidade, não havia sede residencial. João Adhemar nunca ia lá, Nelson ia um dia por semana para conversar com o administrador, via uma ou outra coisa, e ia embora. Quem na verdade era a alma do haras, era o veterinário Fernando Pereira Lima, que não só esquematizava compras, vendas, cruzas, etc. Com o aumento do número de animais, e com a vontade de João Adhemar de ter um lugar aprazível para ele e os cavalos, os irmãos, sócios meio a meio em todos os negócios e também nos cavalos, resolveram que Nelson continuaria com o JAHÚ em seu ritmo e sistema tradicional, e João Adhemar montaria um outro haras. Foi comprada uma bonita área na município de Paulínia, bem perto de Campinas, SP, e lá foi construída uma linda casa em estilo colonial, com uma pista para pouso e decolagem de aviões pequenos, cocheiras modernas, lagos, ajardinamento orientado por gente especializada. O Haras foi chamado de RIO DAS PEDRAS, como referência de uma escada de pedras que foi feita no jardim em frente à varanda da sede, por onde descia um riacho artificial. À noite, com iluminação multicolor e adequada, o espetáculo do "Rio das Pedras" era muito bonito. Ficou na verdade uma beleza. Mas os animais continuavam dos dois irmãos. O responsável pelo JAHÚ lá continuou, e Fernando Pereira Lima teve que arranjar outro para o Rio das Pedras. Um homem de cavalos, do interior do Estado, afeito a "pencas", muito simpático, contador de histórias, bom de papo, além de competente, essas eram as características do Hélio Machado. Entendia e negociava com passarinhos, e era figura freqüente em festas e churrascos, como cantador, como cantor de improvisos. Um dia, eu fui à Sociedade Hípica de Campinas para conhecer o que diziam ser talvez a sede mais bonita do Brasil. Era na verdade uma antiga fazenda colonial, muito bem aproveitada, sede ampla, linda. Fui às cocheiras, e logo no início de um corredor eu vi um cavalo com a cabeça para fora da janela que era o GABARÍ outra vez (GABARÍ foi um dos bons criados pelos Haras Jahú e Rio das Pedras). Conversei com um, conversei com outro, e acabei entendendo de que, na época que não das coberturas dos PSI (julho a dezembro), o Hélio cedia coberturas a amigos. Tenho certeza que o Dr. João Adhemar não sabia, quanto ao Fernando Pereira Lima tenho quase certeza de que também não, mas a verdade é que haviam mestiços especiais dos amigos do Hélio. Na verdade, nunca houve nenhum problema, o Hélio era cuidadoso, competente, certamente não arriscaria a sanidade dos reprodutores do haras. Certo ou errado, a verdade é que o Hélio estava sempre feliz, os amigos dele também, e nunca houve nada que perturbasse o sucesso do Rio das Pedras. Cabeça fresca, Hélio Machado costumava dizer que "é melhor andar à toa, do que ficar à toa".

por Milton Lodi



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