Era um homem rico e poderoso, graças à sua inteligência, seu esforço, sua perseverança, era entendido, com toda a razão, como um homem vitorioso na vida. Em um fim de tarde, com um inesperado tempo livre, resolveu ir ao hipódromo ver o seu cavalo, que estava ótimo, conforme palavras de seu treinador pelo telefone.
Estacionou o carro e foi andando pela vila hípica. Chamou a atenção dele um escovador, com barba por fazer, sem camisa, de calças arregaçadas e descalço, puxando um cavalo magro, de pêlo fosco, que visivelmente mancava de um anterior.
Quando chegou mais perto, reconheceu o cavalariço, de apelido Pinguço, e mais surpreso ainda ficou quando reconheceu no manco o seu cavalo. Foi ao treinador e delicadamente disse de sua má impressão, e pediu explicações. O treinador riu, não era nada daquilo, o cavalo estava bem, aquele andar era o normal dele, o cavalo não estava magro mas enxuto pois ia correr no domingo, e o pêlo fosco era devido ao fato de, por falta de tempo naquele dia, o cavalo ainda não tinha sido escovado. Quando à apresentação do cavalariço, o Pinguço estava com calor e tinha relaxado um pouco.
E o homem inteligente, próspero, um vencedor, acreditou.
É a magia do turfe, pessoas semi–analfabetas mentem para manter o proprietário pagante, vale qualquer coisa para o cavalo continuar na cocheira pagando o trato.
No domingo, o cavalo naturalmente chegou em último, longe, mal, mas o treinador disse que o problema era só com o jóquei, que não tinha cumprido as suas ordens, mas na próxima corrida, tudo ia dar certo.
E aquele homem respeitado pelos seus conhecimentos e inteligência, acreditou.
Um mês depois o cavalo voltou a correr, e naturalmente chegou outra vez em último, longe. O treinador disse ao proprietário que tinha havido um problema com as ferraduras, simples azar. Mas na próxima ia ser diferente.
E o proprietário inteligente, acostumado a tratar com gente de todas as espécies, acreditou.
Mais um mês e uma nova corrida, só não mudou o resultado. Disse o treinador que provavelmente o cavalo estava com nutaliose, estava doente, mesmo não sendo essa a opinião do veterinário. Mais uns dias e o treinador telefonou, mandara fazer exames e sua suspeita estava confirmada, era nutaliose.
E o proprietário acreditou. Após várias contas de remédios de tratos, de ferraduras especiais, de tudo, três meses depois o proprietário voltou à cocheira. O cavalo estava inscrito, e depois de tudo que se passara, com os tratamentos, um novo jóquei, enfim uma nova fase, estava chegando a hora da alegria.
O proprietário não notou nenhuma diferença no aspecto do seu cavalo, mas o treinador discordou, era simples para um profissional como ele, dedicado dia e noite, notar a enorme melhora que o cavalo mostrava. Bastava esperar a corrida.
E o proprietário acreditou, e seguiu acreditando sempre, deixando o seu qualitativo entendimento ser suplantado pela conversa do ignorante e inescrupuloso.
A cada corrida, mais desculpas. O jóquei perdera o chicote (como se o chicote fizesse o cavalo correr mais), houvera mudança de raia, aparecera depois do páreo com uma inesperada febre, e assim sempre havia uma desculpa.
E o proprietário sempre acreditando naquele profissional, que sabia tudo sobre cavalos.
Uma parada de dois meses foi sugerida pelo treinador, já que o cavalo pisara numa pedra na raia no último trabalho antes da inscrição. Casco ferido, muito sensível, curativos diários na palma do casco. E depois mais umas tantas semanas para o necessário preparo. Naturalmente o tempo da parada foi aproveitado para vermífugos, exames de sangue, etc. Parada cara.
Foi aí que o proprietário, homem de negócios, informou ao treinador que teria que viajar, ausência prevista para muitos meses, quase um ano, pois ele iria pessoalmente tratar da instalação de uma sucursal de sua firma do outro lado do mundo, investimento muito alto e que demandava extremo cuidado. O escritório daqui já estava incumbido do pagamento mensal do trato, bastava o treinador telefonar para a secretária que o dinheiro seria de pronto depositado.
Três meses depois, o proprietário telefonou. Não havia notícia boa, pelo contrário, preparando–se para correr depois de algum tempo, o cavalo fora levado para um exercício no partidor, e em largada violenta batera com o boleto de um anterior violentamente num ferro. Não era nada demais, mas pelo menos um adiamento do retorno por mais cerca de um mês e meio.
Novo telefonema dois meses depois, deu conta de que, para surpresa geral, inclusive dos veterinários do Hospital Veterinário do Clube, a razão do cavalo não estar se mexendo bem eram fortes dores nas duas canelas, imagine só, isso depois de muitas corridas de um cavalo velho.
Mais dois meses se passaram, e pelo telefone o proprietário foi informado que as canelas tinham sarado, mas o cavalo tinha sofrido um acidente. Acorrentado pelo cabresto na argola do box, brincando com a corrente, um dente se enfiara em um elo, e na aflição para se soltar, em um arranco, o cavalo quebrara um dente, e o veterinário tivera que tirar o caco do dente e costurar a gengiva.
O tempo ia se passando, as coisas iam acontecendo, e o cavalo não corria. De repente, inesperadamente, o proprietário teve que voltar sem avisar, por uma semana.
Do aeroporto foi direto para o hipódromo. Havia quase um ano que ele não via o seu cavalo. O treinador estava dormindo, mas lá estava o Pinguço. Pediu para ver o cavalo, e a surpresa do cavalariço só não foi maior que a do proprietário, quando o Pinguço disse que mais ou menos um mês após a viagem, o cavalo havia morrido de cólicas.
O proprietário a princípio não acreditou, devia ser coisa de bêbado, pois todos os muitos meses o treinador telefonara para a secretária e recebia o trato.
Foi aí que o proprietário percebeu que ele não era o proprietário, mas o próprio–otário.
Essa "Grande Caricatura", naturalmente não se aplica à maioria dos treinadores e proprietários, mas é uma história jocosa, decorrente do hábito que têm alguns treinadores em manter, propositadamente, um clima que favorece a permanência de cavalos descartáveis em função unicamente de ganhar no trato, e por outro lado, proprietários que, se em seus negócios demonstram descortino e inteligência, entram no mundo do turfe de antolhos. No meu caso pessoal, tenho o privilégio de ter tido, através os muitos anos, treinadores corretos, que muitas vezes me aconselhavam a mandar embora um cavalo ou égua sem perspectivas, prejuízo certo sem alegrias.
Claudemiro Pereira, Expedito Coutinho, Gladston Figueiredo Santos, José Silvestre de Souza, Antônio Bolino, Anísio Andretta, Elídio Pierre Gusso, Roberto Oliveira Filho (Tajarin), e nos últimos tempos e já há muitos anos, o mestre Alcides Morales.
Desde a morte de meu pai, há mais de 50 anos, e correndo cavalos em muitos hipódromos, naturalmente encontrei uns poucos que não se mostraram confiáveis, mas deles me livrei bem depressa. Pessoalmente, nada tenho a reclamar, mas a "Grande Caricatura", não tem só invenção.
por Milton Lodi