Manolo Epelbaum, argentino, jornalista, 74 anos, radicado no Brasil há mais de 50, é membro do conselho deliberativo da Associação Brasileira de Imprensa e foi correspondente, durante décadas, dos jornais La Nación, Clarín e El Gráfico. Hoje, comenta o campeonato argentino de futebol pelo SporTV, emissora a cabo exclusivamente voltada a esportes.
O respeitado profissional tem duas grandes paixões: futebol e turfe. Torcedor fervoroso do River Plate, cobriu várias Copas do Mundo, assim como testemunhou grandes momentos do turfe argentino. Viu de perto craques como Filón e Yatasto.
Considerando–se tão brasileiro quanto argentino, Manolo conversa com o Raia Leve sobre a paixão dos seus conterrâneos pelo turfe e, claro, ressaltando episódios do GP Carlos Pellegrini, que será disputado no próximo sábado, em San Isidro.
Manolo, qual foi seu primeiro contato com o turfe?
Foi aos sete anos, no colégio, quando fazia parte do currículo escolar (como até hoje) a leitura de jornais. Ao ver a foto de um cavalo na página de turfe, fiquei encantado. E, mesmo sem entender nada, acompanhava diariamente as notícias do turfe. Também lia sobre futebol e outros esportes. Cresci, como quase todo argentino, com o hábito da leitura e isso ajudou a despertar em mim o fascínio sobre o jornalismo.
E quando, efetivamente, começou a acompanhar as corridas?
Naquele tempo só os maiores de 18 anos podiam entrar nos hipódromos, mas, como tinha altura, desde os 16 passei a freqüentar as tribunas de Palermo e San Isidro. Aos 18, consegui meu primeiro emprego, num jornal que não existe mais, chamado Notícias Gráficas, no setor de esportes.
E já na cobertura de turfe?
Não, pois fui contratado como “foca”, como dizem no Brasil. Para onde me mandavam eu ia e lembro, como se fosse hoje, da primeira matéria que fiz, participando de uma coletiva com Fangio, o maior piloto da história do automobilismo do meu país. Recordo de uma frase marcante da entrevista, quando Fangio disse que até os 80 quilômetros por hora você dirige o carro e, dali por diante, você é dirigido por ele.
Mas, então, quando o turfe passou a ser encarado por você, profissionalmente?
Claro que minha paixão particular pelas corridas me levou a cobrir turfe e tive oportunidade de viver momentos de grande emoção. Assisti a alguns Pellegrinis espetaculares e vi correr cavalos que viraram lenda no turfe sul–americano.
Quais cavalos você destacaria e qual foi o melhor deles?
Ainda menino, li nos jornais sobre o “doblete” de Filón (ou seja, o bicampeonato) nos Pellegrinis de 1944/45. Era um corredor fantástico e pertencia a um brasileiro, José Buarque de Macedo. Mas, sem dúvida alguma, o melhor cavalo argentino de todos os tempos, em minha opinião, foi Yatasto. No Pellegrini de 1951, Juan Contreras, que o dirigiu, chegou às lágrimas após a vitória. Depois, pelo fato deste piloto se dedicar mais ao vinho do que à profissão, a montaria passou para Leguisamo.
Você acaba de tocar no nome de uma lenda do turfe argentino, Irineo Leguisamo. Como foi conviver com ele?
Foi um gênio das rédeas, um extra–série, que encheu de orgulho o povo argentino. Mas quero contar uma pequena história que presenciei, ainda jovem, que me ficou na lembrança. Após perder um páreo sem nome, Leguí, como era chamado, entrou para o cânter do páreo seguinte. Os animais subiam até as últimas tribunas e um apostador, que havia perdido no cavalo dele, no páreo anterior, gritava, sem parar: “Leguí, Leguí”. O piloto deu uma olhada para o sujeito. Ao perceber que havia sido notado, o homem gritou: “Te amo, Leguí, não quero que morras nunca, apenas que engordes um quilo por semana”.
Manolo, como você explica esta paixão dos argentinos pelo turfe?
Na Argentina, desde os primeiros tempos, a imprensa manteve uma grande atenção ao turfe. Carlos Pellegrini, que foi presidente da Argentina, fundou o Jockey Club e construiu o Hipódromo de Palermo. Os principais jornais do país sempre promoveram o turfe de forma intensa. O argentino, desde pequeno, aprende a gostar das corridas e os “burreros” são encontrados em qualquer canto do país.
E sua vinda para o Brasil, quando aconteceu?
Após o Pellegrini de 1955, quando venceu Mangangá, tinha 23 anos, e os jornais argentinos precisavam de uma cobertura mais eficiente no Brasil, uma vez que os cavalos argentinos vinham correr aqui e estavam conseguindo bons resultados. Em 56, fui mandado para cá e assisti, ao vivo, a vitória de Tatan, que, após o êxito no GP Brasil, ganhou o Pellegrini, no mesmo ano. Mandei as matérias e gostei tanto do país, que convenci os editores a manterem um correspondente fixo no país. E estou até hoje, muito feliz.
Você também é um especialista sobre futebol e esteve presente a várias Copas do Mundo, certo?
Sim, durante anos mandei matérias esportivas para os diários La Nación e Clarín e fui a inúmeros campeonatos mundiais. São as duas grandes paixões de minha vida, o turfe e o futebol.
Pouco antes da ida de Ricardo para a Argentina, você enviou matérias sobre ele para os dois jornais. Como o público argentino está recebendo o campeão brasileiro?
Fui o primeiro a mandar para a Argentina a notícia da contratação de Ricardinho pelo Stud Rubio B. e entrevistas com ele para os dois principais diários de lá. O termômetro para se constatar a aprovação de um jóquei, na Argentina, são as pules que dão os cavalos que ele monta. Como acontecia por aqui, dificilmente um corredor montado pelo Ricardo proporciona um rateio elevado. Ele já foi aprovado, faz tempo, pelos “burreros”.
Depois que se transferiu para o Brasil, você assistiu ao vivo alguns Pellegrinis?
Na verdade, minhas férias por aqui não acontecem em dezembro, mas tive oportunidade de assistir alguns. Em 1993, por exemplo, estava com meu amigo Carlos Huart, editor do jornal Diário Popular, assistindo a partida entre Vélez e San Lorenzo e o convenci a sair no intervalo, com destino a San Isidro, para apostarmos numa barbada brasileira. Ele reclamou muito, mas fomos voando ao hipódromo e chegamos a tempo de jogar vencedor e placê de Much Better. Numa chegada espetacular, o craque do Stud TNT acabou derrotado pelo peruano Laredo. Carlos, chateado, afirmava que o turfe argentino estava falido, que os cavalos argentinos não valiam mais nada, pois um peruano e um brasileiro dominaram a maior prova. Não parava de reclamar, quando viu a pule do placê de Much Better: 19,80. Os lamentos acabaram na hora e fomos a uma churrascaria para comemorar a noite toda.
Manolo, quais são os melhores jóqueis da atualidade na Argentina?
Ricardinho e Falero, em todos os sentidos.
E quem vai ganhar o Pellegrini deste sábado?
O grande favorito é Storm Mayor, mas vou torcer por De Pizarra!
por Marco Aurélio Ribeiro