A história da maioria dos profissionais do turfe, normalmente, começa na tradição de família ou na busca de sustento através da atividade.
Diversos deles vêm de cidades pequenas e tentam a sorte no mundo das corridas. Porém, a história de Maylan Lamhut Studart, de 17 anos, é muito diferente.
Típica garota de Ipanema, bonita, firme em suas decisões, trocou a praia e as baladas de adolescente pela dura rotina submetida aos aprendizes da Escola de Profissionais de Turfe do Jockey Club Brasileiro.
Por quê? "Porque sou apaixonada por cavalos", responde rápido.
E assim, as pistas da Gávea, a partir da próxima sexta–feira, ganham uma nova musa (confira o ensaio fotográfico ao final da matéria). Mas, que não se iludam turfistas e colegas. Na raia, a bela sabe que precisa virar fera.
Na semana de sua estréia, Maylan conversou com o Raia Leve.
O primeiro contato
Sempre adorei cavalos. Não lembro do primeiro contato, pois era pequena, mas meu pai conta que foi com um puro–sangue inglês.
Temporada nos Estados Unidos
Morei com minha família durante quatro anos em Los Angeles. Tinha sete anos quando cheguei lá. Nos últimos oito meses, fomos para Malibu, onde passei a cuidar dos cavalos da vizinhança. Dava banho, comida e, em troca, caminhava e galopava os animais.
Conhecendo o Hipódromo da Gávea
Meu pai me levou ao Hipódromo da Gávea quando eu tinha 14 anos. Vimos alguns páreos e decidimos apostar. Fiz uma trifeta e acertei. Não lembro o valor, mas foi uma "fortuna" para quem tinha jogado apenas seis reais. Mesmo assim, estava longe dos cavalos, pois fiquei no restaurante da social e assisti o páreo pelo telão. Pedi para ficar na parte de fora da tribuna. Queria observar os cavalos de perto. Eles eram lindos e terminei encantada com aquilo tudo! Fui com meu pai saber o que era preciso para ser joqueta e informaram a idade mínima: 16 anos. Ou seja, precisava esperar dois anos.
Antes do Jockey Club Brasileiro
Não tirei mais o Jockey da cabeça, porém, fui cuidar da vida. Estava estudando e praticando hipismo, em Vargem Grande. Participei de campeonatos e cheguei a saltar entre 1,20m e 1,30m. Ganhei algumas competições, mas, como não tinha cavalo próprio, fiquei sem oportunidade de melhorar minha marca.
Vontade de ser joqueta
A maior motivação para me tornar uma profissional surgiu quando assisti ao GP Brasil de 2005. A vitória de Velodrome atacando Pestanita, o público vibrando, o prado cheio. Enfim, aquele momento foi mágico e definiu de vez o que eu queria. Estava com 16 anos, não me faltava mais nada! Entrei na escola de aprendizes. Pura adrenalina.
Apoio dos pais
Sempre fui muito independente e de decisões sérias. Meus pais apoiaram minha vontade, inclusive, acompanhando–me à Escola de Aprendizes.
Desligamento da Escola
Três meses depois de ingressar na escola, fui desligada porque estava faltando muito. O motivo das faltas foi familiar. Minha avó teve câncer e houve um mal–entendido com a direção. O Mileno chamou meus pais para conversar, mas o diretor era muito rígido e não quis diálogo. Sei que era para eu ter participado de uma reunião, mas minha mãe disse que não precisava. Enfim, houve uma grande confusão e acabei mesmo desligada. Fiquei triste, pois não queria terminar ali. Havia passado três meses montando cavalos de corrida e estava certa de que era mesmo o que queria como profissão, e não como hobby. Acordei cedo, estive atenta aos treinos e ensinamentos, não sai à noite, até faltei ao colégio. Eu queria ser joqueta e não ia desistir fácil assim.
O amigo Luiz Duarte
O Duarte morava em Ipanema e ficamos amigos. Ele, sabendo do meu interesse, tratou de ajudar. Levou–me a Pedro do Rio, no Centro de Treinamento Vale das Estrelas, da Fazenda Mondesir. Conheci o treinador Mário Campos, que também passou a me apoiar.
A vida no Centro de Treinamento
De dezembro (de 2005) a junho, trabalhei no Mondesir. Ralei muito para pegar o máximo de experiência possível. Ficava lá de segunda a sexta–feira, treinando direto, inclusive, animais encilhados. Preparava e trabalhava os cavalos. Parei de estudar para me dedicar exclusivamente aos cavalos. Tinha um quartinho só para mim. E recebi muito apoio da galera de lá. Sou muito grata a todos, ao "seu" Mário Campos, ao Duarte, aos cavalariços, aos redeadores. O Dr. Macedo (Luiz Macedo, conselheiro do JCB e titular do Stud Brincadeira) também me incentivou muito.
JCSP? Por enquanto, não!
Mesmo já fazendo o que eu mais gostava (montar cavalos), no centro de treinamento, sabia que precisava entrar novamente na escola do Jockey para me tornar profissional. Antes de procurar a direção da escola carioca, muitos me orientaram a ir para São Paulo. Mas, como boa carioca, morar lá seria complicado. É frio e, além disso, não tinha a pretensão de deixar a companhia de minha família.
O retorno à Escola do JCB
Contei, mais uma vez, com o apoio do Dr. Macedo. O Mileno (administrador da Escola) também me ajudou bastante e consegui chegar ao diretor, Dr. Aluizio, uma pessoa muito boa e que me recebeu com todo o carinho.
Carioca de Ipanema na raia da Gávea
Surfo, faço wakeboarding e gosto de esportes radicais. Sou uma novidade na Escolinha justamente por isso. Alguns comentam: "Olha lá, o que ela faz? Como ela monta? Carioca e de Ipanema? Fala sério!" Mas, nada vai me fazer desistir do objetivo de ser joqueta.
Preconceitos dentro e fora da pista
Vejo com graça o preconceito. Fiquei chateada quando me disseram que eu havia caído de pára–quedas no JCB. Sei que dizem diversas coisas pelo fato de ser mulher, para me colocar para baixo. Não ligo! Também chamavam Leonardo da Vinci de maluco. Sou persistente, quero e vou conseguir sucesso profissional.
Os estudos continuam...
Começo Administração de Empresas, em 2007, na Cândido Mendes. Pensei em ser veterinária, mas o mercado de trabalho não ajuda. Sou pé no chão.
O dia–a–dia
Acordo às 4 e meia, saio de casa às 4 e 50. Pego o ônibus e salto na Gávea às pouco depois das cinco. Chego no prado às 5 e 15. Trabalho até as 8 e meia, 9 horas. Volto para casa, tomo café e descanso até meio–dia. À tarde, malho, priorizando exercícios que contribuam como complemento para montar.
A expectativa de entrar em ação
Tenho trabalhado muito. Estou concentrada e esperando a hora. Quero corresponder e vou comprovar isso na raia!
[ Veja ensaio fotográfico ]
por Karol Loureiro