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Dezembro | 2006

Divagações – dezembro de 2006, por Milton Lodi
12/12/2006 - 16h38min

Notícias de Buenos Aires dão conta do empenho das autoridades do Hipódromo de San Isidro em conseguir autorização para o funcionamento das "maquininhas". Já de algum tempo, Palermo melhora dia a dia, amparado por quatro mil maquininhas, que funcionam no hipódromo, 24 horas, direto, todos os dias. Com isso, Palermo tem prêmios quase o dobro de San Isidro, e as dotações não são maiores para proteger San Isidro, que certamente quebraria ou ficaria perto disso.

Em Montevidéu, Maroñas renasceu das cinzas e melhora dia a dia também com o auxílio das maquininhas. O Brasil, sem elas, vai manquitolando. Já há anos, o Rio de Janeiro vem se equilibrando, São Paulo mal e com um turfe sem perspectivas. É um crime o abandono com que as autoridades brasileiras, principalmente o Ministério da Agricultura, encaram o turfe. Criadores brasileiros levando éguas para serem cobertas na Argentina, haras sendo montados na Argentina e Uruguai, proprietários brasileiros levando seus cavalos para correrem em Palermo, San Isidro e La Plata. Jóqueis e treinadores brasileiros já estão na Argentina e no Uruguai, sediados em caráter definitivo. E enquanto lá fora o turfe floresce, aqui em nosso país ele está simplesmente ignorado, pelo menos ao que parece. A mão de obra especializada dos haras paulistas está quase toda perdida, pois os profissionais da criação continuam a ser despedidos, e não encontrando lugar adequado aos seus conhecimentos, vão ganhar a vida como ajudantes de pedreiros, faxineiros, porteiros etc.

Com o crescimento das cidades, esparramando–se pelas áreas vizinhas, é criado um problema. O preço da terra sobe, cresce o número de empregos na indústria e no comércio, tirando os empregados do campo. Com o aumento da poluição, o ambiente criacional vai se deteriorando.

Há muitos anos, eu fiquei muitas horas preso no aeroporto Santos Dumont, no Rio, em função de uma violenta tempestade que paralisou o funcionamento do aeroporto. Durante cerca de quatro horas, fiquei de conversa com um desconhecido, que disse ser técnico do Instituto Brasileiro do Café, agrônomo, com avião à disposição para visitar as áreas cafeeiras de todo o Brasil. Ele me disse que conhecia o país todo, e que para a criação de cavalos havia duas áreas melhores, quais seriam, no Paraná, as mais perto de Curitiba, e no Rio Grande do Sul, as mais afastadas de Porto Alegre. Ele me disse, também, que quando se aposentasse, iria comprar um sítio perto de Curitiba. Embora julgasse as terras do Rio Grande do Sul melhores, os picos do calor e do frio eram muito intensos, demasiados. Só por isso ele iria para perto de Curitiba.

Tenho pensado muito nisso. As cidades crescendo, e com isso diminuindo as áreas rurais. No Estado do Rio de Janeiro, de mais de quarenta haras, hoje só restam uns quatro (total de cerca de 20 éguas reprodutoras no Estado). Em São Paulo, que já foi o melhor celeiro da criação brasileira, a poluição das fábricas e o altíssimo custo de manutenção das terras dizimaram grande parte da excelência da criação, empregados saindo da área rural para as cidades, as fazendas e haras sofrendo as ações de ladrões, de saqueadores, o custo do necessário preparo da terra subindo a níveis insuportáveis, muitas áreas passando a valer por metro quadrado. Em números percentuais, eu não sei, mas os números e a força da criação paulista despencaram.

Curitiba segue crescendo, e tomando aos poucos conta das terras mais adequadas à criação. Alguns haras das redondezas já foram alvo de assaltantes. Mas o Paraná ainda é uma grande força.

Dentro desse enfoque, as vantagens ficam para o Rio Grande do Sul, não só pela excelência da natureza, mas também pela técnica criacional. Só para se dar um exemplo, os melhores criadores de Bagé, além de terem as melhores terras do Brasil para a criação dos cavalos de corrida, não satisfeitos com isso, adubam anualmente todas as suas pastagens, mantendo dentro do possível, o melhor padrão.

Enquanto isso, alguns grandes proprietários já começaram a se preparar para ir embora. No momento, alguns grandes criadores brasileiros já investiram e continuam investindo fora do Brasil, proprietários projetando a transformação de haras, no momento de propriedade de argentinos, em Centros de Treinamento (as Vilas Hípicas de Palermo, San Isidro e La Plata estão lotadas).

Enquanto criadores e proprietários lutam sozinhos pela sobrevivência, aqueles que poderiam fazer alguma coisa dormem.

Um caso típico do mau momento atual, é o de um proprietário carioca, um dos de melhores resultados, que iniciou a temporada hípica 2005/2006, com nove animais, um mês depois (julho/agosto) ficou com oito, obteve 18 vitórias no ano hípico. Pagou 97 tratos, as vitórias eram na maioria de animais de 2, 3 e 4 anos. O resultado financeiro mostrou que os prêmios não foram suficientes para pagar sequer o custeio, as 18 vitórias e as outras colocações não chegaram a saldar 80% dos custos de trato. Os animais são bem cuidados, em centros de treinamento (na grande maioria), são sempre bem apresentados, e por isso respeitados pelos apostadores.

Esse especial exemplo, pode dar uma idéia do panorama geral.

Hoje, dezembro de 2006, o Jockey Club Brasileiro conta com aproximadamente 1.000 cavalos alojados no hipódromo, 1.550 em centros de treinamento, 50 em Magé e 100 em Campos. Nas 52 semanas do ano, são realizados em torno de 10 páreos por programa, 4 reuniões por semana, num total aproximado de 2.020 páreos/ano. Sem maiores cálculos, é fácil ver–se que se são cerca de 2.700 animais para 2.020 páreos, não há um páreo por cavalo. Se os cavalos que ganham duas corridas por ano, como no real exemplo citado, não conseguem nem pagar o custeio, imagine–se o que ocorre no plano geral.

Hoje, sem exageros, os prêmios deveriam ser dobrados para que houvesse um equilíbrio real. Essa consideração refere–se como base as dotações do Jockey Club Brasileiro. Imagine–se o que ocorre nos Jockeys Clubs de São Paulo, do Rio Grande do Sul e do Paraná.

Esperamos por melhores dias.

por Milton Lodi



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