Todos os turfistas sabem que o jóquei Antônio Bolino foi o preferencial dos meus cavalos durante cerca de 35 anos. Nesse período, cedi prazerosamente os serviços preferenciais dele para, em épocas diferentes, montar para duas coudelarias de grande respeito, o Haras Rosa do Sul e o Haras Malurica. Foi com o BOLINO que eles conseguiram seus mais brilhantes resultados clássicos (GP Brasil, GP São Paulo, e por aí vai). Era um jóquei de primeira linha, e uma pessoa incapaz de fazer quaisquer restrições pessoais a quem quer que fosse. Hoje, com 66 anos de idade, continua igual, quieto, simpático e admirado por todos. Em nossos muitos anos de convívio, naturalmente muita coisa curiosa aconteceu.
Vou lembrar algumas:
A) Eu tinha meia dúzia de bons cavalos no Cristal, aos cuidados do excelente treinador Roberto Oliveira Filho, o “Tajarim”. No dia de um GP Bento Gonçalves, eu ia correr o LAZIO na milha, e como o BOLINO estava suspenso, entendi que era melhor ele não ir até Porto Alegre só para montar um cavalo. Ele queria ir, mas eu ponderei que era mais simples pedir ao Tajarim que escolhesse um jóquei de lá mesmo, um daqueles que habitualmente ganhavam com KARATÊ, KING SCOTCH, KING SUN e outros. Para minha surpresa, o Nelson de Almeida Prado, um dos dois titulares dos Haras Jahú e Rio das Pedras, inscreveu o NAFTOL e contratou o BOLINO para montá–lo. LAZIO correu colocado, e como sempre acontecia, entrava aberto na reta de chegada para atropelar pelo centro da raia. NAFTOL, que corria sempre atrás do LAZIO, virou mais aberto ainda, por fora do LAZIO. Na chegada, 1° NAFTOL, 2° LAZIO. Quando eu me encontrei em São Paulo com o BOLINO, poucos dias depois, perguntei por que ele tinha ido tão para fora na reta. Ele riu, disse que antes de ir para o Rio Grande do Sul, o LAZIO havia ganho com ele 3 ou 4 corridas, e ele sabia que o cavalo se amesquinhava, não lutava, não progredia com um competidor ao seu lado direito. Foi só esperar que o LAZIO se alinhasse na reta e colocar o NAFTOL por fora dele. E foi rindo que ele me disse que, se tivesse montado o LAZIO, ele não iria permitir que um outro entrasse mais aberto do que ele. Quer dizer, eu não quis levar o meu jóquei de confiança, ele montou um adversário, e me ganhou por conhecer detalhe que eu mesmo não sabia.
B) FAUSTINA, muito geniosa, era uma tordilha escura, uma das melhores fêmeas nascidas no HARAS IPIRANGA. Primeira líder feminina de sua turma, perdeu o Grande Criterium por cabeça e em tempo record, após uma reta em que sofreu prejuízos que a impediram de ganhar. Ela havia vencido todos os páreos iniciais para a sua turma, e foi inscrita para correr, como favorita, o Criterium (seleção) de Potrancas. Na segunda–feira à tarde, o BOLINO foi hospitalizado com fortes dores, eram pedras nos rins. Não seria de maior importância, se as pedras só viessem a ser expelidas no sábado de manhã, véspera da corrida. Eu quis colocar outro jóquei, preferencialmente o J. PORTILHO, mas o BOLINO disse que já não tinha mais nada, e os dias no hospital sem trabalhar não iriam prejudicar. Para não correr maiores riscos, e dada à superioridade da FAUSTINA, pedi para ele correr entre as três primeiras, e logo na entrada da reta tomar a ponta. Na verdade, em função do problema pelo qual passara o jóquei, eu pretendia não complicar. FAUSTINA largou em último, e, sem o BOLINO se mexer, lá ficou até os últimos 400 metros, e sempre com o jóquei quieto, arrancou pelo centro da pista para vencer lindamente. Eu não gostei, um risco desnecessário e muito grande, e ainda mais sem maiores exigências. O BOLINO riu, ele me disse que, como era sabido, o gênio da FAUSTINA era tão grande quanto a sua qualidade, e ela, de difícil trato, simplesmente se retraía a cada movimento dele para se aproximar dos da frente, e ela só resolveu correr o que sabia, quando entendeu que o chicote não ia ser usado, como não foi. O BOLINO disse que ele nada pudera fazer, a não ser ficar quieto e deixar a corrida por conta da FAUSTINA. Grandes, a égua e o jóquei.
C) O BOLINO ganhou o GP Brasil com BIG LARK, e o meu cavalo EXÓTICO, chegou em 4°, com J. FAGUNDES. Fui cumprimentar o "negro" FAGUNDES, como era chamado pelos outros profissionais, e ele me disse que o cavalo tinha corrido muito bem, mas que o 4° lugar era devido ao BOLINO, que na reta oposta, montado no BIG LARK, gritara para ele esperar mais, não ir antes da hora (que seria na entrada da reta). EXÓTICO, montado por J. FAGUNDES, foi 4° graças ao BOLINO.
D) Eu já havia vencido por duas vezes consecutivas o GP Paraná, com NEGRONI e RUFFUS, e no então terceiro ano tinha um cavalo inscrito, a pedido da diretoria do JCP (fiz isso várias vezes, para colaborar). O meu cavalo tinha chances de figurar, de conseguir uma colocação, mas o próprio treinador ELÍDIO PIERRE GUSSO, o do NEGRONI e do RUFFUS, tinha no páreo um cavalo entendido como força, e a montaria foi oferecida ao BOLINO. Não tendo o meu cavalo chance maior, e alvitrando uma terceira vitória consecutiva no GP Paraná para o BOLINO, avisei ao treinador para arrumar um outro jóquei para o meu cavalo a fim de liberar o BOLINO. E foi com surpresa, para mim, que o tal cavalo força ganhou o Paraná com outro jóquei (J. FERRO, se não me engano), e o meu chegou, se não me falha a memória, descolocado e montado pelo BOLINO. A isso se chama fidelidade.
Voltarei com outras do BOLINO.
por Milton Lodi