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Outubro | 2006

Sonhar é de graça, por Milton Lodi
11/10/2006 - 09h50min

As conseqüências do prolongado momento político–social–econômico–financeiro que passa o nosso país, em muito afetaram o nosso turfe.

No setor criacional, diminui os números de criadores, de garanhões, de reprodutoras, de potros (em conseqüência). A criação do PSI exige mão–de–obra especializada, que já de algum tempo está sendo dispensada, e que acabam em empregos e em funções menores, pois sua especialização não encontra lugar adequado. Bons empregados de haras viram faxineiros, vigias, varredores, etc, tendo que aceitar remunerações menores do que estão acostumados. Mão–de–obra especializada perdida para sempre, além do aspecto social pior, salários mais baixos. Isso para aqueles que não têm idade maior, para esses a situação é bem pior.

Os criadores reduzem ou liquidam os seus plantéis, vendem, dão, ante as dificuldades cada vez maiores na colocação de seus produtos. Os criadores pequenos muitas vezes recebem menos do que investiram na criação, é comum terem que receber como parte do pagamento éguas recém–saídas das pistas como parte do preço da transação. Criadores não conseguem liquidar, pois é corriqueiro éguas cheias não receberem qualquer lance em leilões. O jeito é tentar fazer qualquer negócio com criadores de cavalos de outras raças, ou dar a um sitiante, a um amigo (?). Ou então, continuar na atividade, sabendo das dificuldades quando chegar a época da colocação dos potros que estão para nascer. Os criadores maiores, mais fortes, defendem–se com investimentos que lhes permitam a produção de potros e potrancas, pelo menos teoricamente, altamente qualificados, que na verdade hoje já tem muito bons reflexos no estrangeiro. É claro que é um ponto positivo, mas na contramão do interesse geral da melhorria do plantel nacional, já que os exportados são sempre de boa ou ótima qualidade, e que em lugar de contribuir para um melhor turfe brasileiro, vão melhorar os plantéis de outros países.

Um percentual altíssimo dos proprietários perde dinheiro, pela malvada relação custo–benefício, isto é, prêmios insuficientes para a manutenção dos corredores. Poucos proprietários empatam, e uma insignificante minoria ganha. Esses que ganham, são os sortudos, a grosso modo aqueles que conseguem vender para o exterior, não conseguem resistir a propostas em dólares, natural e justamente por aqueles que poderiam ajudar na necessária e permanente, melhoria de nossos plantéis.

Mas, como resistir? Temos hoje dois extremos, entre os quais se processa a vida do turfe. De um lado, cavalos e éguas sendo dados, de graça, a fim de que seus proprietários possam sair da obrigação de sustentá–los, realizando o prejuízo, interrompendo a seqüência mensal negativa. Do extremo oposto, com o inegável sucesso das muitas vitórias no exterior, corredores sendo vendidos por preços internacionais para os Estados Unidos e uns tantos para Dubai, ou sendo levados por seus próprios proprietários na lícita e arrojada tentativa de uma "tacada", isto é, a venda do seu cavalo por um preço impossível de ser atingido dentro do nosso país.

Em meio a esses dois extremos, a luta para se criar um potro de exceção e um esmerado preparo para uma boa vitória. Nessa situação complicada, de quando em quando, surge uma proposta muito grande, fora da realidade do turfe brasileiro. É irresistível, especialmente quando se dá conta de que, além dos pequenos prêmios oferecidos pelo JCB, e os ainda menores pelo JCSP, dos outros clubes promotores de corridas pelo menos por enquanto, pouco se pode esperar.

É isso aí, todo proprietário sempre aguarda uma proposta especial por um seu cavalo que tenha efetivamente qualidade acima da média.

Mas uma proposta por alta soma, pode ter conseqüências diversas. O amor ao turfe, a natural vaidade de ser dono de um bom cavalo, o prazer de competir em provas clássicas, muitas vezes levam a raciocínios não completamente lúcidos, racionais. São alguns os caminhos, as hipóteses, quando chega a tal proposta.

Um é não aceitar, qualquer que seja o número, e manter o stud com o mesmo número de cavalos. O dinheiro grande não entra, os prêmios levantados pelo cavalo bom são utilizado para as despesas dos outros. Enquanto o cavalo bom estiver faturando, tudo bem, depois, fica o prazer de um período de satisfações.

Outro caminho é não vender o objeto da boa proposta, vender todos os outros cavalos do stud, para que não seja gasto o dinheiro dos prêmios do bom, com o sustento dos outros, consumindo a vantagem.

O terceiro caminho é vender, e com o bom dinheiro, aumentar o contingente de animais, e aproveitar de modo mais intenso os prazeres do turfe, participando de muitos páreos, vivendo o incrível mundo do turfe.

Mas o caminho melhor, talvez fosse vender o bom, logo depois,vender todos os outros (talvez menos um ou dois mais pretensiosos) para não "enterrar" o dinheiro em tratos e ainda manter–se "vivo" no turfe. Aplicar o dinheiro, reservando uma parte para o lazer. Ir para Punta del Este, balneário sofisticado no Uruguai, com o seu encanto, comércio e restaurantes, assistir shows nos cassinos, e encontrar uma uruguaia bonita que certamente estaria disponível, e levá–la para o Hipódromo de Maroñas, ver de perto o sucesso e as melhorias do turfe uruguaio, alavancadas pelas "maquininhas", ir para a linda cidade de Buenos Aires ver o Ricardinho correr e ganhar em Palermo, em San Isidro e em La Plata, passar uns dias em Bariloche, sobrevoar as neves eternas dos Andes a caminho de Santiago, lá rever a pista gramada do Club Hípico e a de areia do Hipódromo Chile, ir conhecer o Valparaiso Sporting Club, em Viña del Mar. De lá, despachar a uruguaia de volta para Punta del Este e ir para Bagé, rever os amigos, os lindos haras e seus campos, ver os potros que certamente estarão entre os melhores de suas gerações no país (e dos quais vários serão certamente exportados por bons preços), comer muito churrasco, e na volta para o Rio passar por Porto Alegre onde, quem sabe, poder–se–ia encontrar a gaúcha dos sonhos de todos nós. E voltar, satisfeito, renovado, bem acompanhado, e feliz. Encontrar os seus dois cavalos pretensiosos em progressos, quem sabe aí, comprar mais um ou outro. Quem sabe o raio da sorte, da senhora fortuna, cai duas vezes no mesmo lugar?

Mas a vida é como ela é, e não como nós gostaríamos que ela fosse.

Mas sonhar não custa nada, é de graça.

por Milton Lodi



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