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Setembro | 2006

O.M.Fernandes, por Márcio Ávila Rodrigues
13/09/2006 - 12h00min

O Zuniga não era bom jóquei

2004 foi um ano mais ou menos comum na vida profissional do treinador de puros–sangues Orlando Martins Fernandes. Quase no seu final, no dia 22 de dezembro, ele completou 83 anos, mas todos os dias manteve a sua rotina de trabalho na cocheira número 1 da vila hípica, o primeiro grupo de cocheiras construído no Hipódromo da Gávea.

Sua longa carreira incluiu uma passagem de mais de um ano no Prado Mineiro, o primeiro hipódromo de Belo Horizonte. Ele mesmo conta a história. “Foi logo depois da Segunda Guerra, talvez 1946 ou 1947. Tinha uns 25, 26 anos. Fui trabalhar com o Sr. Francisco Cassimiro Martins Ferraz como jóquei e treinador. Era um homem rico, que comprava muita ração e cedia para os demais uma parte. Eu administrava sua cocheira, que era a melhor de lá, mas pequena se comparada com as do Rio.”

Seu Orlando se lembra bem do Prado Mineiro. Conta que funcionava dentro de um quartel do Exército, no bairro do Prado. Todas as ruas em volta tinham – ainda têm – nome de pedra preciosa. Ele morava na Rua Esmeralda, numa casa do “Seu” Chico Ferraz. Conta, ainda, que o hipódromo tinha modesta arquibancada e a pista era de areia. Uma areia pouca coisa mais escura que a da Gávea. Embarreava um pouco na chuva, fazia poças. A cerca era de madeira ruim, madeira podre. As cocheiras eram rústicas, algumas de laterais de pau–a–pique e teto de sapê.

Ele atribui às madeiras podres da cerca uma fratura de braço que até hoje limita seus movimentos (e levanta o braço direito para mostrar até onde consegue). “A culpa foi do Popovitz, que era o melhor jóquei de lá. Ele me jogou contra a cerca, que arrebentou junto comigo. Ainda amorteci a queda dele, que caiu em cima de mim e do meu cavalo, o Cometa. Na época, os médicos engessavam o braço e uma parte do corpo junto. Foi um sacrifício trabalhar até tirar o gesso.” O ex–presidente do Jockey Club de Minas Gerais Adelmar Cadar se lembra do caso, mas garante que o cavalo era xará de outro astro do espaço, o Planeta.

Seu Orlando é um dos muitos que atribuem ao jeitão dos mineiros o menor interesse pelo turfe. “Mesmo na época, o acesso ao Prado já era fácil. Tinha ônibus, carro. Mas o público era pequeno.” E sentencia: “A verdade é que mineiro não gosta de jogo”. Ele não se lembra da periodicidade das corridas, mas garante que não aconteciam todas as semanas. O pouco que ainda tinha de recordações antigas, como recortes de jornais e fotos, foi embora, anos atrás, numa enxurrada que entrou pelo escritório da cocheira número 1 da Vila Hípica da Gávea.

Muitos conhecem o Orlando apenas pelo apelido de “Zuniga”. Já houve quem pensasse que ele era o próprio Juan Zuniga, famoso jóquei chileno dos anos 30–50, que fez história no nosso país e até ganhou o Grande Prêmio Brasil duas vezes: com o francês Six Avril em 1939 e com o nacional Albatroz, em 1943, ambos de propriedade de Linneo de Paula Machado. É que ele ganhou o apelido de “Zuniga” no início da carreira, anos 40. Curtido pela experiência, amaciado pelo tempo, confessou sem complexos: “Ganhei este apelido porque eu era o contrário do Zuniga. Eu era um jóquei muito ruim. E o apelido pegou, ainda sou chamado assim, mais de 60 anos depois.” Não data d’agora o velho prazer do brasileiro, dar apelidos negativos, diminuidores, aos companheiros. Se reclamar, aí é que o apelido pega mesmo. Se não reclamar, às vezes pega também.
 
Final da juventude, da meia–idade, e ele passa à carreira exclusiva de treinador, voltando às origens, no Hipódromo da Gávea. Nos anos 70, ganhou a confiança de Hélio Morais Filho, grande proprietário de cavalos no Hipódromo Serra Verde, titular do Stud Real, um baixinho de gênio forte. Ganhou muitas corridas para ele, com Faturador, Sunshine, Vivace Júnior e outros. Se lembra de vários episódios marcantes com este patrão: “Ele ficava agitado demais quando bebia. E era cada porre! Uma vez quebrou a porta do quarto do hotel, e foi uma baita confusão. Era cardíaco. Uma vez passou mal após uma corrida de um de seus cavalos e tivemos que levá–lo para o Hospital Miguel Couto.” Hélio Morais faleceu poucos anos depois, talvez com menos de 50 anos.

Orlando Martins Fernandes é carioca da gema – da gema da Lapa. É casado e tem um filho e duas filhas. O filho tem o mesmo nome – com o Júnior no final – e também é treinador. Nasceu em 06/02/63 e seu contato com o turfe mineiro se resumiu a receber e mandar um ou outro cavalinho para o Serra Verde. Um dos netos – por parte de uma das duas filhas – chegou a ser aprendiz de jóquei, o Tiago Fernandes, mas cresceu muito e ultrapassou o biótipo da categoria.

por Márcio Ávila Rodrigues, jornalista e responsável pelo conteúdo do site http://jockeyclubmg.vilabol.uol.com.br. Artigo publicado em 2005. Márcio também é blogueiro: http://marcio.avila.blog.uol.com.br.



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