Passando os olhos pela relação dos
ganhadores do GP Brasil, verifiquei que em seus 74 anos de disputas, eu havia assistido cerca de 60. Mas, conheço
alguém que havia visto todos, menos um, quando ele, no mesmo dia, estava em Assunção (Paraguai) defendendo o seu
título de Campeão Sul–Americano de Tênis de Mesa (posteriormente, foi por mais de uma vez, Campeão Mundial de
Masters), tendo naturalmente vencido o torneio.
Dagoberto Corletto Midosi é advogado
atuante na cidade do Rio de Janeiro, com prestigiado escritório em normal funcionamento há muitos anos. O lazer do
Dagoberto é o turfe, nas corridas do Hipódromo da Gávea, assistindo todos os páreos, do primeiro ao último, e nos
quatro programas semanais.
Lúcido, equilibrado, muito bom senso, e sempre atualizado na apreciação das
corridas, Dagoberto Midosi atendeu, gentilmente ao meu convite, para analisar os ganhadores do GP Brasil. Ele se
lembra não só dos cavalos, como dos detalhes dos páreos.
Ficou entendido da impossibilidade da análise
dos 74 páreos, em um simples e despretensioso artigo. Entendeu–se de separar os ganhadores em quatro grupos, a
saber, os bons (se não fossem bons não teriam vencido o GP Brasil) mas não especiais, o grupo dos especiais mas
não grandes destaques, os ótimos, e os melhores, aqueles que em suas épocas marcaram seus nomes com grande
destaque no turfe brasileiro.
Com dados e material de retrospectos completos de todos os 74 páreos,
Dagoberto Midosi deu a sua opinião:
Poderiam, ou deveriam, ser classificados no quarto grupo:
Sargento – Cullingham – Pêndulo – Six Avril – Pólux – Miron – Pontet Canet – Don Varela – Espiche –
Ortille – Leigo – Duraque – Arsenal – Kamen – Terminal – Fenomenal – Orpheus – Janus – Sunset – Aporé – Big Lark –
Campal – Gourmet – Off the Way – Anilité – Grison – Troyanos – Quinze Quilates – Jimwaki – Aiortrophe – Straight
Flush – Queen Desejada – Potri Road – Lord Marcos – Velodrome.
No terceiro grupo, estariam:
Misuri – Teruel – Albatroz – Carrasco – Cencerro – Moraes Tinto – Carteziano – Villach King – El Sembrador
– Thignon Boy.
No segundo grupo, estariam:
Helium – Latero – Filon – Helíaco – El Aragonés –
Viziane – Fizz – Daião – Grimaldi – Bowling – Flying Finn – Falcon Jet – Quari Bravo.
No primeiro
grupo, o da elite equina, aqueles que não só marcaram época, como também, deram grande brilho ao GP Brasil:
Mossoró – Tirolesa – Gualicho – Mangangá – Tatán – Narvik – Farwell – Arturo A – Zenabre – Much Better –
Dono da Raia.
Em rápida e superficial análise, assim Dagoberto Midosi se pronunciou sobre o primeiro
grupo:
Mossoró – é o símbolo do GP Brasil. Sua colocação no 1° grupo é pela representatividade, pelo
espetacular sucesso do primeiro GP Brasil, em 1933. O hipódromo estava superlotado, a imprensa alardeando o evento
havia várias semanas, o "Sweepstake" (bilhete da Loteria Federal sendo defendidos na raia pelos cavalos,
com o prêmio astronômico à época de 300 Contos de Réis), animais sendo comprados e trazidos para o páreo, da
Argentina, do Uruguai, da França, enfim, um evento nacional de enorme repercussão. A criação brasileira então se
iniciava, tinha apenas cerca de 40 anos de atividades, a maioria melhor era estrangeira. Mossoró era pernambucano,
e mesmo em seu próprio stud, não era considerado o melhor. Caicó era o preferido, e correu com o jóquei titular.
Mossoró venceu em grande luta, e foi beneficiado pelos 7 quilos de vantagem, que levou do 2° colocado, e 9 quilos
do terceiro. O público invadiu a pista, queria carregar o cavalo. O ufanismo da vitória brasileira, o orgulho de
uma vitória internacional, o grande sucesso do evento, levaram Mossoró à posição de mito. Não pela qualidade, mas
pela sua representatividade no turfe brasileiro, Mossoró tem até um Troféu, dado anualmente aos melhores, com o
seu nome.
Tirolesa – égua–macho, suas grandes vitórias ocorreram de ponta a ponta,
"quebrando" os que a acompanhavam mais de perto, e distanciando–se cada vez mais dos outros na reta
final. Tirolesa marcou uma época.
Gualicho – absoluto em seus anos, venceu duas versões consecutivas do
GP Brasil. Era um grande ídolo. Castanho, com um grande ponto de interrogação ao contrário na cara. Corria uma
barbaridade.
Mangangá – era um dos extraordinários corredores de uma época de ouro do turfe argentino.
Corria na frente, e não se entregava. Um fenômeno.
Tatán – ganhou de ponta a ponta um GP Brasil
memorável. Três meses antes, prejudicado por sair da cota zero (nível do mar) de Buenos Aires e subido 700 metros
para Cidade Jardim, SP, lutou da largada até os últimos 100 metros com Adil, o grande campeão brasileiro da época,
e perdeu por um corpo. No GP Brasil, correu como sempre na frente, com Adil em 2° perto, e nunca se deixou
alcançar. Tatán era um alazão fantástico.
Narvik – nacional, grande, corredor de provas de distâncias
maiores e recordista dos 3.000 metros. Fazia parte do seleto grupo da época de Farwell, Escorial, Lohengrin e
Major’s Dilemma.
Farwell – entendido pela maioria dos turfistas brasileiros lúcidos, como o
melhor cavalo brasileiro de todos os tempos. Preto, grande, forte, não dava chances para seus adversários.
Arturo A – dotado de uma aceleração impressionante, que era utilizada com perfeita exatidão pelo seu
famoso jóquei Irineu Leguisamo, para uma reta final fulminante. Corria longe, e nos metros finais dominava o páreo
com absoluta firmeza.
Zenabre – foi um cavalo especial. Venceu o GP Brasil por duas vezes. Tinha
problemas de joelhos e boletos, mas uma coragem de leão se sobrepunha a tudo. Depois, na reprodução, foi também
pai clássico.
Much Better – entre as suas façanhas, venceu o GP Brasil (na Gávea), o GP São Paulo (em
Cidade Jardim), o GP Carlos Pellegrini (em San Isidro) e o Clássico Latino–Americano (em La Plata). Muito bom
cavalo, um campeão.
Dono da Raia – a inclusão desse cavalo nesse grupo de elite, se deve às suas
impressionantes atropeladas, quando do GP São Paulo e o GP Brasil. Dono da Raia não tem competidores no Brasil.
Sua exportação dará oportunidades para que se saiba se a sua demonstrada qualidade se confirmará fora do país.
O objetivo do presente trabalho não é polemizar, mas apresentar a opinião de um dos que tiveram
oportunidade de assistir a quase totalidade das realizações da maior prova do Turfe Brasileiro.
Não é
demais lembrar que o enfoque na classificação dos grupos, refere–se à impressão de Dagoberto Midosi com as
performances dos animais vencedores nos 74 anos de realizações do GP Brasil, e não uma análise qualitativa dos
ganhadores.
A José Carlos Fragoso Pires Júnior, por seu trabalho de pesquisa e fornecimento de
material, e a Dagoberto Midosi, aquele que viu tudo desde o princípio, e que com o seu bom senso deu a sua
opinião, os meus agradecimentos.
por Milton Lodi