Esse negócio, essa mania, do turfista em geral
querer saber quem vai ganhar, é universal. Estudos nas revistas especializadas, informações dadas
profissionalmente por jornalistas, palpites de treinadores e jóqueis, de tudo isso o apostador procura apurar quem
vai ganhar. Mas não é tão simples assim.
O meu pai tinha um cavalo castanho escuro chamado LABANO, de
criação do Haras Bela Esperança, que ia correr em um último páreo no sábado, véspera de um Grande Prêmio Brasil.
LABANO era um corredor de páreos comuns, mas de um modo geral apresentava–se bem. Pela manhã na cocheira, o
treinador Claudemiro Pereira me disse que o cavalo estava muito bem, mas havia três animais no páreo que eram
superiores a ele. LABANO obteria um bom quarto lugar, com certeza. Cheguei ao prado antes do primeiro páreo,
encontrei–me casualmente com o jóquei Candido Moreno, que ia montar LABANO, que, sem saber da opinião do
treinador, me disse que não seria possível ganhar daqueles tais três competidores, mas ele garantia um quarto
lugar. Em meio ao desenrolar do programa, apareceu um jornalista com um microfone na mão, e entendeu de me
entrevistar, ainda mais que eu, filho do dono do LABANO, poderia ter ótimas informações. Naturalmente, eu me
referi às conversas com o Claudemiro e o Moreno, disse mais alguma coisa e fui para as arquibancadas assistir as
corridas. Em resumo, o páreo do LABANO foi muito intrincado, muito disputado, e acabou que o LABANO ganhou,
pagando uma poule enorme. Nos dias seguintes, parecia que todos os turfistas do Brasil haviam ouvido a tal
entrevista, por onde eu andava, todo mundo se referia à minha "derrubada".
Uns anos depois,
eu tinha em um sábado duas inscrições de potrancas perdedoras, CREPPE SUZETTE, em 1.000 metros na grama, e
CRYSALIDE, em 1.200 ou 1.300 na areia. No meio da semana, andando pela cidade, fui gentilmente interrompido por um
desconhecido turfista, que me disse ser um apostador inveterado, que acompanhava os meus cavalos, e gostaria que
eu lhe desse informações sobre as corridas das duas potrancas. Eu ponderei que a CREPPE SUZETTE só havia corrido
uma vez, tinha tirado um excelente segundo, e que deveria ser a favorita do páreo, mas eu havia sido informado que
de São Paulo, correria no páreo uma potranca do Haras Faxina, que era uma extra–série, com um trabalho
espetacular. Sendo assim, eu achava que era mais segura uma aposta na CREPPE SUZETTE no placê. Quanto à CRYSALIDE,
que era estreante, tinha bons trabalhos, tinha qualidade, e deveria estrear ganhando. O turfista foi muito gentil,
ficou muito agradecido, despediu–se e foi embora. No sábado, CREPPE SUZETTE chegou em 2° e CRYSALIDE em 1°. Na
semana seguinte, veio novamente o tal apostador a se encontrar comigo, e em meio a uma série de lamentações, disse
que nascera para perdedor, que nem com boas informações ele acertava, pois ele havia ficado tão bem impressionado
com o 2° lugar da CREPPE SUZETTE na estréia, que achava quase impossível que ela perdesse, que eu naturalmente
havia me confundido, me enganara, e ele jogou forte na ponta da CREPPE SUZETTE e fraco no placê da CRYSALIDE. Isso
é típico dos "catadores de barbadas".
No que diz respeito a informações, aconteceu comigo
fato singular. Em uma sexta–feira, antevéspera de um Grande Prêmio São Paulo, o veterinário, Professor José
Taliberti, que supriu por um mês as férias do Dr. Reiner, me disse que havia sonhado com um cavalo negro, de
longos bigodes, que corria um último pelo centro da pista, com as pontas do bigode raspando as cercas interna e
externa. Na última reta, ele avançara derrubando todos os competidores com o vasto bigode, vencendo o páreo sob as
risadas e os aplausos dos assistentes. Achei graça, mas surpreso ficou o Dr. Taliberti, quando soube que o meu
cavalo que ia correr o Grande Prêmio São Paulo, chamava–se MOUSTACHE (em francês, bigode). Levei o caso na
brincadeira, e disse ao bom veterinário que, ou era uma brincadeira dele ou uma informação do além. No domingo da
corrida, quando cheguei ao prado, antes do primeiro páreo, fui logo abraçado pelo amigo e veterinário Carlos
Eduardo Sales Gomes, que me disse ter sonhado nitidamente com a vitória do MOUSTACHE, e que o único cavalo
argentino do páreo chegara em 5°. Prometi uma garrafa de whisky se o sonho se concretizasse. Não sei se foi outra
mensagem do além, mas na verdade, tive que dar a tal garrafa. Os acontecimentos confirmam as sonhadas informações.
Três meses depois, MOUSTACHE foi ao Rio correr o Grande Prêmio Brasil. Sentiu, chegou em último. No dia seguinte,
2ª feira, fui às corridas em São Paulo, e um funcionário antigo e por todos conhecido, chamado Benedito, logo me
entregou uma carta colada, com uma rúbrica sobre a data do recebimento, no sábado, dois dias antes. Abri. Era do
Sales Gomes, dizendo que conforme novo sonho, nova informação do além, o MOUSTACHE iria chegar em último, algo
"sentido", e que o ganhador seria um argentino. Eu guardo essa carta, já mostrei a muitos.
Nos concursos de palpites, dos quais fazem parte profissionais do turfe e da imprensa, o índice médio
de acertos é pequeno, e só melhora, quando vingam os favoritos.
Apostador gosta e acredita em
historinhas, e se elas fossem em sua maioria confiáveis, treinadores e jóqueis não iriam correr diariamente atrás
do dinheiro, desde às cinco horas da madrugada.
A corrida se realiza para saber–se quem será o
vencedor, como saber o ganhador antes que ela se processe? É conhecida a habitual sorte daqueles que vão às
corridas pela primeira vez, a famosa "sorte dos principiantes", que apostam nas fardas que acham mais
bonitas, nos cavalos "branquinhos" ou de "caras brancas e pernas brancas", nos de nome mais
curiosos ou significativos para o apostador, nos de números de preferência, etc. Os novatos, por nada entenderem,
nem ouvindo informações e palpites, acertam mais do que erram. Mas já da segunda vez em diante, já ouvindo os
"conhecedores", ouvindo palpiteiros, colhendo informações, integram–se à grande legião de perdedores.
Mas isso não é só no turfe. Uma vez, andando pela cidade, tive que correr para me proteger sob uma
marquise, fugindo de repentina chuva. Lá estavam três apontadores do jogo do bicho, sentados, com canetas e
bloquinhos nas mãos, e naturalmente protegidos por um policial fardado que estava por perto. Perguntei a um dos
receptadores do jogo, qual seria um bom palpite, em função da chuva que caía. Ele me respondeu com uma informação:
um bicho que gostava de água era o jacaré. Fiz uma pequena aposta no jacaré, e segui o meu caminho. No fim da
tarde, voltei para saber o resultado. Dera gato. Interpelei o apontador, se havia um bicho que não gostava de água
era o gato. A informação dele e o palpite foram um desastre. Ele me respondeu que não. A informação e o palpite
tinham que ser interpretados, se assim não fosse, todo mundo acertaria no jogo do bicho.
Informações e
palpites, assunto complicado.
A não ser que venham do além.
por Milton
Lodi