Há muitos anos, cerca de cinquenta, chegou ao porto do Rio de Janeiro um navio proveniente da França, com
destino à Argentina, trazendo uma valiosíssima carga. Para a criação argentina estava sendo levado um seleto lote
de cavalos para a reprodução. Informações de Gilberto Solanés e de Bertrand Joachim Kauffmann, nos levam a um fato
quase que desconhecido pela grande maioria dos turfistas brasileiros.
Criadores argentinos aguardavam a
chegada do navio, que trazia os seguintes garanhões:
– CANTHARE (Coaraze em filha de Goya II)
– CARDANIL II (Djebel em filha de Thor)
– CORINDON II (Fastnet em filha de Blenheim)
– ARGUR (Djebel em filha de Blenheim)
– LE PETIT PRINCE (Prince Bio em filha de Teddy)
– MY LOVE (Vatellor em filha de Amfortas)
– SCRATCH (Pharis em filha de Asterus)
Esses cavalos, além dos pedigrees mais expressivos à época no turfe francês e mundial, haviam vencido
provas como o Grand Prix de Paris, Prix du Jockey Club (Derby Francês), o Derby de Epsom (Derby Inglês), o St.
Leger (3ª prova da tríplice coroa inglesa), Prix Jacques Le Marois, e mais umas tantas provas de fundamental
importância no calendário clássico mundial.
Pois os valiosos cavalos estavam a bordo de um navio que
quebrou e teve que ficar em reparos no porto do Rio. O proprietário e turfista Eurico Solanés, fundador do Stud e
do Haras Verde e Preto, estava em seu escritório de despachante, quando foi informado que no tal navio quebrado,
havia quase terminada a ração, prevista para menos dias (não se contava com a demora motivada pela quebra). Sem
noção da perspectiva do número de dias necessários para o conserto do navio, Solanés conseguiu com as autoridades
locais, uma autorização especial, não prevista, para que os cavalos fossem desembarcados e aguardassem no
Hipódromo da Gávea, no grupo de cocheiras do Solanés, que ficou responsável pela guarda deles. Cansados, os
garanhões se recuperaram e aguardaram por cerca de uma semana que a viagem pudesse prosseguir.
Passado
todo o episódio, com os cavalos já alojados na Argentina, Eurico, que nada quis receber pela cuida e guarda dos
animais, recebeu uma atenciosa carta de agradecimento do Governo PERON.
Atualmente, a criação argentina
tem se fortalecido cada vez mais. As importações sucedem–se ano a ano, cada vez maiores e mais pretensiosas.
Para que se tenha um parâmetro, a fim de se avaliar os investimentos agora sendo feitos, em regime de
"shuttle", o cavalo ROYAL ACADEMY, que tanto sucesso apresentou na criação brasileira, teve ofertadas as
suas coberturas nos Estados Unidos, em sistema "potro vivo", no 1° semestre de 2006, por 15.000 dólares.
Importações argentinas para o 2° semestre de 2006, em "shuttle" ou definitivamente, vieram ou
virão, entre outros:
– THUNDER GULCH (USA) – por 25.000 dólares – ganhador do Kentucky Derby e do
Belmont Stakes, pai de um cavalo do ano (por Gulch em filha de Storm Bid)
– HONOR AND GLORY (USA) – por
12.500 dólares (por Relaunch em filha de Al Nasr)
– HENNESSY (USA) – por 60.000 dólares (por Storm Cat
em filha de Hawaii)
– GRAND SLAM (USA) – por 50.000 dólares (por Gone West em flha de El Gran Señor)
– ORPEN (USA) – por 8.000 euros (por Lure em filha de Devil’s Bag)
– BERNSTEIN (USA) –
por 25.000 dólares (por Storm Cat em filha de Affirmed)
– VISION AND VERSE (USA) – por 7.500 dólares
(por Storm Cat em filha de Private Account)
– JADE HILL (USA) – por 7.500 dólres (por Mr. Prospector em
filha de Pharly)
– CATCHER IN THE RYE (IRE) – por 4.000 euros (por Danehill em filha de Darshaan)
– MR. LIGHT (ARG) – por 6.500 dólares (por Numerous em filha de Forlitano). Este em importação
definitiva.
Além dos citados, também farão monta na Argentina no sistema de "shuttle", neste
2° semestre de 2006, os seguintes reprodutores:
TRUE PRIZE, SEEKING DAYLIGHT, VAL ROYAL, NUMEROUS, RUSSIAN
BLUE, MUTAKDDIM e ACCEPTABLE; formando um admirável lote.
Esses, entre outros, os importados que farão
monta no 2° semestre deste ano, na Argentina. É de se destacar que há brasileiros, que criam em Bagé, participando
dessas importações, e que mandarão e manterão éguas na Argentina, para esses reprodutores e para os que vierem
para as próximas estações de monta, vindo os potros para o Brasil após o desmame.
Para o Brasil, o que
se tem de notícia nesse setor é a vinda do norte–americano GILDED TIME, um cavalo de ótimos resultados nos Estados
Unidos, dando precocidade e velocidade aos filhos, e que terá suas coberturas disponibilizadas por 8.000 dólares,
a todo risco. Na Argentina, as coberturas provavelmente também serão oferecidas a todo risco, já que os cavalos
citados estão vindo em regime de "shuttle", isto é, terminada a temporada, vão embora de volta. Os
preços, aqui no hemisfério sul, das coberturas, devem cair por volta da metade. A anual, constante e numerosa
importação de bons garanhões pelos argentinos garante, ante a diferença do procedimento brasileiro, pelo menos
teoricamente, em princípio, uma grande e progressiva vantagem sobre nós.
por
Milton Lodi