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Agosto | 2006

Dois ídolos, por Carlos Frederico C. de Campos
22/08/2006 - 14h07min

O Brasil acaba de perder dois jóqueis de excepcional qualidade; o primeiro para Deus e o segundo para as pistas da Argentina, onde já vem fazendo o sucesso a que, certamente, estará destinado, como sempre foi aqui em nossa terra.
 
De LUIZ RIGONI podemos dizer que, desde o início de suas atividades, despontou como o magnífico piloto de cavalos de corrida que iria ser.

Com extraordinário cálculo de carreira, na frente ou atrás, dificilmente poderiam batê–lo quando seu animal tinha condições para disputar os primeiros postos.

Quando corria de alcance, trazia o cavalo em avassaladora atropelada, para matar a corrida no final, fazendo vibrar os assistentes, que, na época, eram multidões a freqüentar o Hipódromo da Gávea, fazendo conhecidos, por esse Brasil afora, tanto o campo de corridas como os profissionais que lá trabalhavam, já que a imprensa falada e escrita se ocupava diariamente das atividades turfísticas, sendo o Grande Prêmio Brasil acontecimento nacional.

Falando em GP Brasil e, falando, igualmente em atropelada, considero uma infelicidade para aqueles que não presenciaram esta carreira em 1954 quando, Rigoni, a bordo de El Aragonés, fez o entusiasmo e a delícia de quantos se encontravam no hipódromo, ao correr seu cavalo em último lugar durante cerca de 2.400 metros (a corrida na ocasião se desdobrava em 3.000 metros), abordando a reta final na última colocação, para, em final de rara emoção, bem a seu estilo, matar o segundo colocado – a esplêndida égua Joiosa da criação Rocha Faria – por uma cabeça, e conquistar o galardão máximo do turfe brasileiro, único que ainda lhe faltava na época, após cerca de dez anos gloriosos na profissão.

Mas, não só atrás costumava correr suas montarias, apesar de ter deixado na memória de seus fanáticos torcedores, sim, porque naqueles tempos havia muitos adeptos dos jóqueis, dos treinadores e das coudelarias principais, a indelével marca de suas arrancadas finais para a vitória emocionante e consagradora.

Rigoni era mestre também na frente, ao dosar o train da corrida do modo mais favorável para seu pilotado, enganando muitas vezes os adversários que julgavam estar o animal se esforçando em demasia para sustentar–se na dianteira do pelotão. Tive oportunidade de vê–lo fazer isso várias vezes, como também o vi, com o cavalo Crasso, um ligeiro tordilho, assumir a ponta sem se mexer no dorso do animal e rumar para o vencedor com os adversários esforçando–se infrutiferamente na tentativa de acompanhá–lo. Como o vi, em chegadas tantas vezes admiradas, desta vez com o cavalo Jonfor, naquela tocada inigualável, fazer o final mais enérgico que talvez já tenha visto em todos esses anos que tenho presenciado corridas de cavalos. Porque o Rigoni empregava toda a sua maestria e toda a sua energia, tanto nos páreos clássicos como nos páreos comuns.

Era o astro maior de quantos já passaram pelas pistas brasileiras, o mais perfeito e completo dos condutores de nossos cavalos, que já havia deixado saudades ao abandonar as pistas e agora deixa a saudade maior ao abandonar nosso convívio para sempre.
 
Passemos então ao JORGE RICARDO, que há pouco nos deixou rumo às pistas da Argentina e que se mostrou igualmente eficiente, embora não tão espetacular.
 
O Ricardo sempre foi um jóquei previdente. Suas montadas, na grande maioria das vezes, foram levadas a correr mais próximo dos ponteiros, de modo que, com risco menor, apareciam na disputa mais cedo e a vitória lhes sorria amiudadamente.

E ele sempre demonstrou a rara qualidade de acumular alguma reserva do fôlego dos animais que dirigia para o final, de modo a resistir sempre, sendo, para seus adversários, uma imensa dificuldade sobrepujá–lo.

Assim, os percursos, na grande maioria das ocasiões, beiravam a perfeição. Correndo na frente ou atrás, não muito, havia sempre reservas para o final.

Tive oportunidade de vê–lo ganhar sua primeira prova de Grupo I, a Taça de Ouro de 1979, com a égua Long Lady, de criação do Haras Pirassununga, o único filho realmente muito corredor da prole deixada pelo grande milheiro Quartier Latin, ganhador por quatro vezes da milha internacional que, por coincidência, era dirigido por Luiz Rigoni, sempre nos últimos postos no início da corrida. A favorita do clássico era a égua, aliás de primeira qualidade, Apple Honey, da criação Paula Machado, mãe posteriormente do fenômeno Itajara. O proprietário da Long Lady disse ao Ricardo, no paddock, receoso de que ele fosse em busca da Apple Honey, que sempre ia para a dianteira, o seguinte: Ricardo, a Apple Honey é forfait, ela não corre, de modo que se você vir uma égua preta na frente, como ela costuma fazer, não se assuste porque não pode ser a Apple Honey. O grande piloto entendeu perfeitamente as instruções e se manteve no meio do pelotão enquanto Apple Honey, como de costume, partiu para a ponta. Na reta final, em um golpe de mestre, esgueirou–se por junto à cerca interna, conseguindo providencial passagem a aproximadamente 450/500 metros do vencedor e ganhou corrida admirável, como tantas outras vezes tem feito. E o proprietário venceu o único Grupo I de sua vida, enquanto o Ricardo, seguindo sua tão conhecida carreira de sucesso, já o fez por dezenas ou centenas de vezes.  
 
Depois, foram inúmeras carreiras, comuns e clássicas, no Brasil e no exterior, deixando sempre, na esteira dos grandes feitos, milhares de admiradores, por suas qualidades técnicas, seu profissionalismo invejável e sua honestidade de propósitos, não só nas pistas, como igualmente nas suas atitudes fora dos hipódromos.

Por essas razões acabamos de perdê–lo para os vizinhos do Prata, que agora, irão poder admirar nas suas pistas o piloto de tão grandes qualidades que nos deixa em busca de igual sucesso na Argentina. Digo igual sucesso por achar impossível um jóquei correr melhor do que ele vinha fazendo entre nós.

E os pilotos portenhos, quando trouxerem seus conduzidos para dominar a carreira, vão  verificar que a montada de nosso ídolo ainda traz aquela reserva costumeira, que só ele sabe deixar escondida e que irá trazer para o gringo o espanto,  a decepção e a frustração de perder um páreo em que vinha saboreando a vitória.

Esposando o desejo de grande sucesso, deixamos no ar nosso grito de Dá–lhe Ricardo!

por Carlos Frederico Carneiro de Campos



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