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Fevereiro | 2007

Mentiras e Verdades, por Milton Lodi
13/02/2007 - 16h56min

Essa história me foi contada como tendo se passado na Argentina. Um proprietário resolveu dar um "tiro" com o seu cavalo e, propositadamente, o inscrevia em páreos inadequados. Após uma série de fracassos, foi entendido que a hora da vitória, com pule alta, havia chegado. O cavalo foi muito bem preparado e o jóquei instruído para correr atrás, e aguardar a reta para atropelar. Normalmente, os que corriam na frente, procurariam as proximidades da cerca interna, e os de trás entrariam mais abertos, procurando caminho livre. A idéia era atropelar em meio aos dois grupos, em um espaço que naturalmente haveria. Jogo feito, tudo acertado, o páreo se desenrolou como previsto, e abriu–se um espaço frente ao cavalo. Na reta toda houve espaço para o cavalo passar, mas ele não passou, e perdeu a corrida. Após a repesagem, indagado pelo proprietário e pelo treinador que queriam saber porque o cavalo não avançara pelo espaço então aberto, o jóquei simplesmente respondeu que apesar de todos os esforços em contrário, o espaço correu em toda a reta mais que o cavalo.

Em função de mudança das condições da raia, retiradas foram feitas em quantidade muito maior do que se imaginava, e à hora do páreo só dois competidores entraram na raia para correr. No último minuto, um dos proprietários foi a um guichê para apostar, e encontrou à sua frente o proprietário do adversário, e notou que ele fazia vultosa aposta no cavalo adversário. Incomodado com aquilo, já que ele tinha a mesma intenção, isto é, de apostar no cavalo do adversário, procurou simplificar as coisas, o entendimento, e disse ao homem que apostava em seu cavalo que ele não fizesse aquilo, não jogasse dinheiro fora, pois ele havia dado terminante ordem ao jóquei do seu cavalo de não ganhar, para que ele pudesse apostar na certa no outro. Surpreso, o apostador disse que as coisas iam ficar muito difíceis, pois a largada ia ser dada a qualquer momento e o jóquei do seu cavalo havia também recebido a mesma ordem, não ganhar de jeito nenhum. As apostas naturalmente não foram feitas, e os dois proprietários foram para a arquibancada a fim de assistirem juntos o que iria acontecer, os dois únicos jóqueis do páreo com ordem de não ganhar de modo algum.

O Código Nacional de Corridas não permite que jóqueis sejam proprietários de cavalos (treinador pode, jóquei não). Por isso, um ou outro jóquei, raros, quando compram um cavalo, o registram em nome de terceiros. Saiu programdo um páreo em que o jóquei–proprietário montaria a força do páreo, e o cavalo de sua propriedade seria uma segunda força. Teria ficado combinado que a segunda força, de propriedade daquele que montaria a primeira força, iria tomar a frente logo após a largada, e chegaria ao final sem ser incomodado pelo favorito, que atropelaria tardiamente e só conseguiria um segundo. Até a entrada da reta, tudo correu muito bem, o ponteiro tinha grande vantagem, e o favorito vinha longe. Para garantir ainda mais as aparências, o jóquei do favorito entrou bem aberto na reta, e com o páreo aparentemente decidido, fez o seu conduzido correr. O disco de chegadas cada vez mais se aproximava, ainda havia boa vantagem, mas a diferença entre os dois cavalos encurtava cada vez mais. Cruzaram o disco emparelhados, e a fotografia mostrou pequena vantagem para o favorito. Muito dinheiro perdido, o treinador do perdedor interpelou o jóquei ganhador, como é que ele havia desmanchado o acerto, ganhando do cavalo de sua propriedade e ainda dando enorme prejuízo a eles que haviam armado o golpe. A resposta teria sido simples, até a entrada da reta tudo seguiu como combinado, mas na reta o seu conduzido engrenou uma atropelada tão forte que ele havia se empolgado.

ELAMIUR foi uma égua clássica, de grande categoria. Mas no princípio de sua campanha, corria perto ou mesmo na frente, e diminuía na reta. Um dia, ela tropeçou logo após a partida, perdeu o contato com os adversários, e o seu jóquei simplesmente deixou–a galopar, apenas para completar o percurso. Quando na grande curva, o jóquei percebeu que ELAMIUR vinha muito bem, e resolveu voltar a participar da competição. Virou a reta e fez correr. A égua descontou a grande diferença e ainda venceu bem, com autoridade. A partir daí, sempre correndo atrás e sem precipitação, ELAMIUR chegou até a ganhar o Derby, contra os machos.

TROCADERO era um alazão forte, de grande docilidade e muita aceleração, que correndo sempre longe, em último, as suas retas finais eram impressionantes. Ganhou 7 ou 8 carreiras, sempre na areia, pois tinha o casco do anterior direito muito encastelado, aleijado mesmo; na grama, impossível. Com o correr do tempo, a mão boa apresentou problemas, e ele foi–me comprado pela família Diniz, da Fazenda da Toca, para garanhão em criação de cavalos de pólo. TROCADERO tinha tudo, manso, dócil, forte, altura apenas mediana, grande aceleração. Foi um marco na criação de cavalos de pólo na Brasil. Como sempre, se utilizado adequadamente, o PSI é um melhorador, um nobre.

Aliás, sobre esse aspecto, utilização adequada do PSI, poder–se–ia escrever um livro. Para melhorar o padrão de pungas, um PSI comum chega. Mas para melhorar, tanto no âmbito do PSI como também no da mestiçagem, só os bons, os melhores, aquele que têm boas qualidades devem ser aproveitados. Quem tem qualidades pode transmiti–las, quem não tem, não pode transmitir o que não tem.

Sob o ponto de vista teórico, após mostrarem seus detalhes qualitativos, os cavalos deveriam ser classificados em 3 grupos. O terceiro, o dos grandes matungos, deveriam ser todos castrados. O segundo, poderia ser aproveitado em outras atividades como cavalos de esporte e quem sabe mesmo para garanhões de éguas matungas, só para melhoria do padrão físico (não fortemente qualitativo). O primeiro grupo, o dos bons, dos melhoradores, daqueles que têm a responsabilidade da melhoria da raça, esses sim, fora da estação do 2° semestre dedicada às éguas PSI, poderiam ser aproveitados na melhoria geral, através de inseminação artificial, para evitar eventuais riscos. Mas inseminação artificial só com éguas "não PSI", e com um máximo de controle.

por Milton Lodi



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