O regime banido, por João Guimarães
Parece que o assunto sobre os melhores jóqueis começa a perder um pouco de força e, relendo muitos dos emails sobre o tema, revendo o excelente trabalho do Sr. Milton Lodi de agosto de 2006, fazendo a retrospectiva do GP Brasil, desde sua primeira prova em 1933, resolvi meditar acerca de uma resolução tomada há tempos, que não irá mudar, mas que jamais, na minha modesta opinião, teve qualquer coerência e fundamento técnico: a unificação dos regimes, isto é, o banimento, no Brasil, do regime de freio.
Os comentários sobre os melhores jóqueis apontam vários pilotos de freio, eu mesmo citei três (Armando Rosa, Rigoni e Portilho) e a estatística do GP Brasil demonstra que ambos os regimes são vencedores.
Sobre freios e bridões se poderia escrever um livro, refiro–me às embocaduras. No entanto fiquemos com algumas particularidades, diferenças e similaridades de ambas.
Os freios são embocaduras mais "fortes", isto não significa impor sofrimento ao animal, motivo pelo qual permitem ao cavaleiro o domínio da montada com apenas uma das mãos, permitindo que a outra permaneça livre. Sua atuação se faz nas "barras", que são a parte fixa da boca do animal, com menos sensibilidade, daí para atuar com eficiência, necessitarem de um acessório complementar chamado "barbela". Esta se ajusta por trás da boca do animal, na sua parte externa. Quanto mais ajustada estiver a barbela mais atuante estará o freio. Portanto, é de uso indicado para animais mais voluntariosos e com tendência a querer "disparar".
O bridão, sendo uma embocadura mais "leve", atua na comissura labial, parte mais sensível da boca, permitindo ao animal apoiar–se no mesmo. Como as cabeçadas de corrida geralmente não usam um acessório chamado focinheira, que serve para impedir ou limitar a abertura da boca, um simples abrir da mesma exige maior atuação nas rédeas. Por causa do apoio do animal e para maior eficiência na condução, exige que o cavaleiro utilize, na maior parte do tempo as duas mãos, com igual tensão nas rédeas.
A similaridade entre freios e bridões é que ambos servem para conduzir a montada.
Após estes comentários vejamos, agora, como estas embocaduras são utilizadas em algumas modalidades eqüestres.
No pólo utiliza–se sempre o freio pela necessidade de liberar uma das mãos para "taquear".
No adestramento mais avançado utilizam–se ambas conjugadas, pelos melhores resultados obtidos.
Na modalidade de salto não existe qualquer restrição quanto ao uso de embocaduras, utilizando–se a mais adequada ao animal e ao ambiente (pista). Para exemplificar, Rodrigo Pessoa, quando montava Baloubet de Rouet, variava de embocadura, montando geralmente de bridão em pistas maiores e com embocadura mais forte nas provas em ambiente fechados, cujas pistas são menores.
Isto é uma prática bastante comum nos cavaleiros mais experientes. Às vezes chega–se ao ponto de trabalhar um cavalo com uma embocadura e saltá–lo com outra.
E nas corridas, como funcionava?
Da mesma maneira, isto é, em função do melhor rendimento do animal. Tínhamos duas "escolas", uma herdada dos uruguaios e argentinos, o freio, influenciando geralmente os pilotos do Sul. Por isso montavam de freio, normalmente os gaúchos, os catarinenses e paranaenses, além, é claro, daqueles selecionados por físico e aptidão, oriundos de outros estados.
A "escola" do bridão no nosso meio surgiu influenciada pela "escola inglesa", que influenciou a "escola chilena", que nos transmitiu muitos dos conhecimentos deste regime.
O primeiro regime a se firmar com pilotos brasileiros renomados foi o freio e, digo isto, porque ouvia de meu pai histórias, dos antigos Derby Club e Jockey Club Fluminense, nas quais apareciam muitos jóqueis uruguaios e argentinos, o que já não vi a partir do final dos anos 50.
Vi, porém muitos chilenos montando, preferencialmente, para grandes coudelarias. Lembro–me de Ulloa, Marchant, Irigoyen, Castillo, Diaz, além dos mais novos, Gabriel, Muñoz, Amestelly.
Minha tristeza maior ao ver o regime de freio sucumbir é concluir que o mesmo permitia, como em outras modalidades eqüestres, a opção do mais adequado ao animal.
Não posso esquecer que o São José e Expeditus sempre teve como primeira monta jóqueis de bridão, no entanto, o GP Brasil de 1975 foi vencido por Orpheus, pilotado por um jóquei de freio, Paulo Alves. Isto é conhecimento técnico, de um “Mestre” na arte de treinar cavalos de corrida, o saudoso Ernani de Freitas. Ao cavalo o que melhor lhe convém.
Sei que é algo irreversível, a unificação é imposição internacional. Sei que nada irá mudar, mas sinto profunda tristeza em ver um regime onde tivemos talentos fantásticos simplesmente deixar de existir. Vejo com tristeza excelentes jóqueis serem obrigados a montar como bridão, quando todo seu acervo foi consolidado no regime de freio.
Vejo com tristeza um profundo desrespeito com o verdadeiro dono do espetáculo, o cavalo de corridas, quando não lhe dão a oportunidade de utilizar uma embocadura onde melhor possa render e à qual melhor se adapta.
Experimentemos uma unificação, "calçar" todos os nossos cavalos com ferraduras, de ferro, número 4.
João Guimarães, 59 anos, militar da reserva, é turfista e pratica equitação