Por volta de 1943, se não me falha a memória, havia em Belo Horizonte, Minas Gerais, um pequeníssimo hipódromo. Poucos cavalos, poucos treinadores, poucos jóqueis, poucos páreos, poucos apostadores, pouco dinheiro, pouco tudo. Só conseguia funcionar, e assim mesmo precariamente, por esforços e teimosia.
O hipódromo ficava em uma área contígua a um quartel da Polícia Militar, e contava com o apoio de um mineiro turfista, radicado no Rio de Janeiro, o meu pai, nascido em Ouro Preto, também Minas Gerais.
Normalmente o programa era formado por 4 páreos, sendo dois de mestiços e dois de PSI. Cada páreo tinha 4 ou 5 concorrentes.
Os dois primeiros páreos eram dos mestiços. Naturalmente, não havia controle maior, quanto às condições dos animais, exames antidoping nem pensar, identificação dos animais em grande precariedade.
Antes do primeiro páreo, os treinadores e os jóqueis, assim como os poucos funcionários e até os poucos turfistas que iam ao prado, entravam na raia para catar pedras, tijolos e até paralelepípedos, que o pessoal do quartel malvadamente jogava, só para prejudicar, criar problemas, dificultar a realização das corridas.
Os treinadores eram ex–cavalariços, que originalmente trabalhavam no Hipódromo da Gávea, gente humilde e despreparada, mas que lutava por um futuro melhor. Os jóqueis todos, menos um, tinham outras profissões, os prêmios eram ridículos e para eles, mais uma distração, um jeito de ganhar mais alguma pouca coisa. O melhor dos de lá chamava–se J. Vitorino, que ganhava a vida como garçom de um pequeno restaurante, e que ia galopar os cavalos durante a semana, sem grande assiduidade, mas corria bem. O único de fora era um que foi do Rio de Janeiro, para ocupar o tempo e trabalhar em sua profissão durante um ano, tempo de sua suspensão na Gávea. O. Fernandes, o "Deco", foi para lá como treinador e jóquei, com compromisso com meu pai. Não havia o perigo de páreos "moles", de "puxadas" ou coisas do gênero, pois o movimento de apostas era ínfimo, não havia como ganhar dinheiro com jogo. Não havia "banqueiros", era muito pouco o dinheiro que circulava no turfe mineiro. Não havia margem para lucros.
O terceiro páreo dos programas contava sempre com dois cavalos do meu pai, e mais dois ou três dos proprietários locais. O quarto e último páreo era disputado sempre por quatro cavalos do meu pai, que corriam em nome de proprietários diferentes (do meu pai, no meu, um em nome de um tio, e o outro em nome de outro tio). A grande estrela do turfe mineiro era o alazão HECHIZO, invicto em Minas Gerais, com fã clube, ia gente ao prado só para vê–lo correr. Era um cavalo argentino, com muitas vitórias na Gávea, e que na verdade era bom. Os cavalos companheiros do HECHIZO eram, dentre outros, GOIANO (que figurava como meu), TOPETUDO (comprado na Gávea com o nome de ALTO FUNDO), ARMONIOSO (sem agá, argentino de campanha na Gávea para Adhemar de Faria e Arthur Pires), CRISTOBAL, e mais uns, perfazendo um lote de 10 cavalos.
O meu pai queria ajudar o turfe mineiro, e não recebia os prêmios levantados pelos seus animais, limitava–se a manter um bom (para lá) grupo de corredores e pagar as contas.
O hipódromo era muito pobre, sem conforto, mas era um prazer, de vez em quando, ir lá para ver a animação do público, quando o HECHIZO entrava na pista, e a superioridade que o cavalo tinha sobre os outros. Até o jornal "O Estado de Minas Gerais", passou a fazer reportagens sobre o turfe mineiro, e sempre com ênfase no HECHIZO.
O médico mineiro Adelmar Cadar, que veio a ser presidente do Jockey Club de Minas Gerais, com o prado já no Serra Verde, costumava contar que era tanto o prestígio do HECHIZO, que até um amigo dele batizara um filho com o nome do cavalo.
Não sei se o Hipódromo das Goiabeiras foi o primeiro a ser implantado em Minas Gerais, isso há cerca de 65 anos, mas ele como todos os outros (ou outro), morreu, por total falta de afinidade dos mineiros e residentes no Estado com o turfe.
O Hipódromo das Goiabeiras, que funcionava entre a Pampulha e Confins, deixou saudades.
por Milton Lodi