MAMORÉ era um cavalo especialista em 1.000 metros. Já havia vencido por duas vezes o G.P. Major Suckow e estava pronto para ganhar outra vez. Seu proprietário era José Bastos Padilha, um bom turfista, que se destacou em certa época no Hipódromo da Gávea, com os sucessos dos produtos de criação do seu haras, a Fazenda Santa Angela, situada em Castro, no Paraná. Mas MAMORÉ era anterior ao Santa Angela e corria para o Padilha com a farda que hoje é a do Haras Fátima e Márcio. MAMORÉ largava e já tirava vantagem, que aumentava cada vez mais. Padilha foi o melhor diretor de hipódromo do Jockey Club Brasileiro, estacionava o seu carro no prado às 6 horas da manhã, e vistoriava o hipódromo, acompanhado por auxiliares que tomavam nota de necessidades e/ou irregularidades em todas as Vilas Hípicas, e de pronto as ordens eram dadas e cumpridas. Na segunda–feira da inscrição do MAMORÉ para correr, e certamente vencer o seu terceiro Suckow, Padilha passou na cocheira, viu o cavalo, conversou com o treinador e foi trabalhar. Quando a relação dos animais inscritos para a semana foi publicada, Padilha foi procurar saber os competidores do seu cavalo, e para grande surpresa, o nome do MAMORÉ não constava. Telefonou de imediato para o treinador, algum problema haveria de ter surgido, e foi surpreendido quando o treinador disse que não inscrevera o MAMORÉ porque havia entendido pela manhã que o próprio Dr. Padilha ficaria encarregado de preencher a papeleta e colocar na urna das inscrições. MAMORÉ não correu, não tinha sido inscrito.
CULTURA TURFÍSTICA: Eu ando muito de táxi, e sempre pergunto ao motorista se ele costuma freqüentar as corridas. A resposta é sempre a mesma, nunca tinham entrado no prado, a não ser para deixar passageiros. Alegam que não têm dinheiro, não têm tempo, enfim, turfe para eles inexiste. Quando eu explico que a entrada é de graça, aposta quem quer, o espetáculo é único, a segurança total, ficam muito surpresos. No próprio prado, há funcionários que não acompanham as corridas, não sabem os cavalos que vão correr e, consequentemente, também não sabem os resultados. Isso me faz lembrar quando eu fui a Buenos Aires em maio de 1960. Registrei–me no hotel, e já no elevador o ascensorista, delicada e respeitosamente me perguntou das chances da ELISABETH. Quando saí para almoçar, peguei um táxi que prestava serviços ao hotel, e desde logo o motorista me perguntou quanto à corrida da ELISABETH no sábado. A cultura turfística argentina está 50 anos, talvez 100 anos, mais adiantada que a brasileira.
RETIFICAÇÃO: Em um dos meus artigos anteriores, lembrei–me de um especial plano de corridas arquitetado pelos irmãos Seabra, quando da disputa de uma primeira prova da tríplice coroa, na Gávea. Eu disse que BUCAREST, com o Ubirajara Cunha, havia corrido na frente, aparentemente de forma despretensiosa, enquanto o companheiro RED CAP, com o jóquei preferencial Francisco Irigoyen, mantinha atrás o seu RED CAP, chamando a atenção dos competidores e dando margem a que BUCAREST se mantivesse na ponta até o disco. A minha memória me traiu. Na verdade, Irigoyen foi brigar na frente com seu RED CAP, e a potranca aguardando a reta para atropelar. Foi o que aconteceu, na reta final, os da frente cansaram, os melhores acompanhando de perto aquele que seria o melhor da parelha, e BUCAREST, fazendo valer sua categoria, o cansaço dos adversários e o plano da corrida, venceu de forma espetacular. Quem poderia imaginar, sobretudo em uma prova da tríplice coroa, Francisco Irigoyen, jóquei preferencial, fazendo corrida para o faixa.
CONGRESSOS: A infelizmente morta e enterrada, Sociedade de Criadores e Proprietários de Cavalos de Corrida de São Paulo, há muitos anos, entendeu de promover anualmente um congresso que em sistema de rodízio (São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro), com o que houvesse da melhor, de mais importante, de maior interesse para o turfe brasileiro. O sucesso foi enorme desde a primeira realização, bastando lembrar que após um dia inteiro de palestras das mais interessantes de destacados hipólogos, veterinários e criadores, teve seu encerramento com o brilho dos conhecimentos do argentino Eduardo Blossom, à época, talvez, a mais importante figura do turfe argentino. No jantar de encerramento, ele me disse que tal evento não poderia realizar–se em seu país com tanto sucesso, pois estava muito impressionado com a qualidade dos temas abordados, do alto interesse e afluência de turfistas de todo o Brasil. No ano seguinte, foi a vez do Paraná, e o sucesso não foi menor. Muita gente interessada, assuntos importantes, congraçamento. No terceiro ano, no Rio Grande do Sul, firmou–se a iniciativa com número crescente de interessados. Muita gente, muito sucesso. De todas as palestras, abordadas por gente muito capacitada e de comprovados conhecimentos, uma das de maior sucesso, foi a proferida pelo veterinário gaúcho, Walter Nunes Flores, que entre a apresentação de "slides" mostrou o porquê da superioridade das terras gaúchas na criação do cavalo de corrida. A esses congressos, compareciam representantes do Ministério da Agricultura, da falecida C.C.C.C.N. (Comissão Coordenadora da Criação do Cavalo Nacional), criadores de outras raças de eqüinos, enfim, um sucesso. No quarto ano era a vez do Rio de Janeiro. Contactos foram feitos, havia que serem escolhidos os assuntos das palestras, os palestrantes a serem convidados naturalmente precisariam de tempo para preparar as suas apresentações, escolha do local (sempre um hotel de alto padrão para acolher com bons serviços, os muitos interessados que viajavam de todos os cantos), enfim, o Rio de Janeiro demorava a se pronunciar. Após inúmeras tentativas sem êxito, coube a José Pedro Gonzalez, à época, diretor administrativo da Associação Brasileira, contactar o então presidente do Jockey Club Brasileiro, Adayr Eiras de Araújo, em tentativa de resolver o problema. A resposta foi a pior, a Associação do Rio de Janeiro não tinha condições de promover o evento. Já não havia mais tempo para reorganizar tudo para naquele ano, e São Paulo, o seguinte no rodízio, encampar o problema. Assim, no 4° ano, não houve o congresso. O caso ficou para ser decidido em uma das duas seguintes hipóteses: aguardar um ano para que o Rio de Janeiro tivesse eventualmente condições da promoção, ou tirar o Rio de Janeiro do circuito e São Paulo fazer o congresso seguinte. Ficou entendido de esperar pelo Rio. Um ano se passou, nada aconteceu de novo, e aquela maravilhosa promoção, simplesmente morreu.
por Milton Lodi