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Novembro | 2006

Diversos, por Milton Lodi
21/11/2006 - 18h29min

Corridas de cavalos são muito simples por um lado e, ao mesmo tempo, muito complexas pelo outro. As interpretações são as mais variadas e discutíveis. O que aqui vou contar, não foi inventado, tudo aconteceu mesmo.

Um novo proprietário participava com mais dois amigos de uma potranca e o seu entusiasmo cresceu quando ela estreou chegando em 2°. No mês seguinte, segunda corrida, veio um ótimo terceiro. Qual não foi a surpresa dos dois outros sócios quando o novo sócio pediu para sair da sociedade. Perguntado qual o motivo dele não querer mais, justamente com uma corredora que estava trazendo alegrias, ele respondeu que ele não estava de acordo com o que acontecera, se ela tinha estreado em 2° e havia melhorado, ela tinha que ter ganho e não tirado 3°. E vendeu o seu terço.

Em um páreo vazio, com muito poucas inscrições, logo após a partida, dois jóqueis sofrearam os seus cavalos e cada vez mais ficavam para trás. Os outros foram se distanciando e os tais dois a parar. Um deles gritou para o outro para deixar seguir, pois ele recebera ordens para correr em último, e recebeu a resposta de que também recebera a mesma ordem e não podia contrariá–la. Entraram na reta final muito longe, e só aí fizeram correr, chegando bem distanciados dos outros. Terminado o páreo sob grande vaia do público, foram os dois chamados à Comissão de Corridas para explicações. A dúvida final foi se eles deveriam ser suspensos por imperícia ou por burrice.

Um proprietário antigo tinha um cavalo alazão de frente aberta, que sempre corria na frente até a entrada da reta, e aí se apagava, chegando descolocado. Tentou de tudo, trabalhos fortes, trabalhos suaves, natação, procurou acalmar o cavalo de todas as formas, pedia aos jóqueis para não correr na ponta, mas na corrida, o cavalo facilmente ia para a ponta e parava na entrada da reta. E a desculpa era sempre a mesma, "ele vinha muito fácil, de galope, não havia porque diminuir", e o resultado era sempre o mesmo. Um dia o proprietário entendeu que só um jóquei especial, de muito boa categoria, poderia dar um jeito. Deu a montaria para o Ricardinho, explicou como era o cavalo, sugeriu não dar intenção na partida e só melhorar no princípio da reta final. O resultado é que, na corrida, o cavalo foi para a ponta, para desespero do proprietário, já virou a reta na frente, e aí aumentou ainda mais a diferença e ganhou por vários corpos. Na "Praça da Alegria", local das fotografias, o proprietário olhou para o Ricardinho sem saber o que dizer, e o campeão simplesmente sorriu, como se nada de anormal tivesse acontecido. Depois disso, nunca mais o tal alazão repetiu a proeza. Quem é que pode entender uma coisa dessas?

Eu tinha um cavalo grande, cabeçudo, muito manso e de classe zero. Cumpria o papel dele, mas era de padrão de corridas bem comum. Em certa época, o páreo dele era normalmente reservado para os jóqueis que não tivessem obtido 10 vitórias na temporada anterior. Entre eles, naturalmente os profissionais de menores habilidades, estava J. MARCHANT, um dos mais clássicos e melhores que já passaram pelas pistas brasileiras, e que estava aos poucos encerrando a sua atividade profissional. Ia de manhã para o prado e lá ficava de conversa, aguardando que alguém o chamasse para galopar. Mas como ele não pedia montarias, quase não montava. Imagine–se só, o fantástico JUAN MARCHANT em meio aos de menor habilitação. Passou a ser o jóquei do PLATÃO. Corria colocado, normalmente melhorava na reta, às vezes chegava a tomar a ponta, mas na luta final sempre se entregava. A opinião generalizada era de que faltava energia ao jóquei, com outro mais jovem e enérgico, o cavalo ganharia. É claro que não dei ouvidos, e o PLATÃO continuou com o MARCHANT. Até que um dia, em corrida igual às outras, o PLATÃO reagiu, lutou e ganhou. Foi uma alegria. Terminada a campanha, mandei o PLATÃO para o haras. A intenção era fazer dele, grande e muito manso, um bom cavalo de montaria. Ficava preso à noite, e de dia solto sozinho em um piquete. Cerca de 10 dias depois, na nova fase da vida, durante o dia, PLATÃO simplesmente deitou e morreu. O diagnóstico foi no sentido de que ele tinha um problema coronário que até então ninguém desconfiara. Quantas vezes criticaram o MARCHANT, quando o PLATÃO não lutava, quando o problema era do coração do PLATÃO.

por Milton Lodi



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