A política do continuísmo
O incidente ocorrido na sexta–feira, 3 de novembro, no Hipódromo da Gávea, chamou a atenção para a situação em que o turfe carioca se encontra. Trata–se de um sinal, um alerta no nebuloso horizonte, exigindo mudanças de rumo e de atitudes por parte dos sócios do Jockey Club Brasileiro, cuja maioria, por não ser turfista, permanece confortavelmente alienada, sem tomar conhecimento do triste fim que pode chegar num futuro próximo.
Uns dirão que a atividade deixou de ser a finalidade principal, já tendo o clube passado por situação semelhante, remediada pela administração Fragoso Pires. Acontece que, hoje, as possibilidades de sobrevivência são menores, pois a crise é mais grave e agora a imagem do turfe na sociedade é de completo esquecimento. Ao mesmo tempo, densas nuvens impedem o quadro social de enxergar qualquer cavaleiro salvador.
Enquanto os movimentos de apostas deslizam sobre rampa descendente, sem que providências sejam tomadas, o marketing do clube começa nos seus próprios muros, pichados em toda a extensão, indicando o que existe por trás de seus limites. Cartão de visitas do abandono, refletem o clima pessimista reinante no Jockey Club Brasileiro e o descaso de seus administradores.
A situação para com o patrimônio do clube, hoje com suas instalações totalmente sucateadas, é constatada até por quem passa pela rua Jardim Botânico.
Da mesma forma, o turfe, principal fonte de receita e mantenedor do fluxo de caixa, continua renegado nos repetitivos e semelhantes balanços, periodicamente endereçados aos sócios, com intuito de vender, para a maioria não freqüentadora, um cenário de sucesso que não resiste a uma simples visita a qualquer das duas sedes e ao Hipódromo da Gávea.
Sob a alegação da falta de dinheiro, aliás desmentida nas prestações de contas apresentadas pelos próprios administradores, o Jockey Club Brasileiro está abandonado, sem que os sócios, conhecedores ou não da deterioração do patrimônio da sociedade da qual fazem parte, tomem qualquer atitude.
Nesta realidade passiva, nebulosa e hostil, o clube agoniza cheio de problemas e dívidas para com o poder público, à margem, sem soluções e iniciativas, como aconteceu com o turfe na sexta–feira.
No incidente, o apostador, ao qual a Comissão de Corridas do Jockey Club Brasileiro tem o dever de defender, foi por ela irreversivelmente lesado, numa decisão que comprova não estar preparada para exercer a função.
Numa administração baseada na política do continuísmo, pouco a pouco começam a vir à tona resultados desastrosos.
FRANCISCO PORTINHO, sócio do Jockey Club Brasileiro desde 1963, ex–membro do Conselho Fiscal, atuou como comissário de corridas durante duas gestões. É filho de Carlos Velasco Portinho, vice–presidente do clube e presidente do Conselho Técnico nas décadas de 60 e 70, candidato à presidência pela chapa Oposição Independente, em 1984.