Turfe, dos mongóis à atualidade
HISTÓRIA
1. Fase Inicial – as corridas de carros
2. As primeiras corridas de cavalos
3. Os primórdios do Turfe – Inglaterra e França
4. Conclusão
1. Fase inicial – as corridas de carros
Tudo indica que a prática dos desportos eqüestres teve início com as tribos nômades da Ásia. Os mongóis, incentivados por Gengis Khan, costumavam disputar pugnas, em longos percursos (até 30Km), nas quais os jovens ginetes se empenhavam em castigar suas montadas, da partida à chegada.
Pouco a pouco, tais competições começam a se difundir no continente europeu. Giram, a princípio, em torno de corridas de pequenos carros (as chamadas bigas), puxados por um ou dois cavalos.
Deve–se a Homero, na Ilíada, a primeira descrição de uma corrida de carros, realizada diante das muralhas de Tróia, por ocasião dos atos fúnebres em honra do herói Patroclo. Ressalta o célebre poeta grego, a ansiedade do público e o nervosismo dos animais, nos preparativos da largada, mascando o freio e com suas crinas resplandecentes pelo uso de óleos perfumados. Conta ele que Antímaco é orientado pelo pai para suprir, pela destreza, a pouca velocidade de seu animal. E acrescenta que não faltam os trancos, a brutalidade dos adversários e as quedas espetaculares durante o percurso.
Depois, é Aristóphanes que, na sua obra “As Nuvens”, faz ver como os homens são, em essência, sempre os mesmos, referindo–se ao filho perdulário, que sacrifica o patrimônio da família às voltas com cavalos de raça.
Na velha Grécia, as corridas de carros são incluídas na XXIII Olimpíadas. Os psitratos as introduzem em Atenas.
Em Roma, são levantadas estátuas e monumentos aos vencedores de bigas. Coroas de flores são colocadas no pescoço dos animais vitoriosos – costume que perdura até hoje. O próprio Imperador se incumbe, por vezes, de dar o sinal de partida. Hoje sabemos pelas ruínas de Herculano, próximas à cidade de Nápoles, que eram divulgados, no dia imediato, os resultados das corridas. Quase sempre os espetáculos tinham um final sangrento devido aos choques inevitáveis e à conseqüente destruição dos carros, com a morte de condutores e animais.
Germanos e Bretões também se tornam adeptos desse tipo de competição. Em Bizâncio, o entusiasmo do público é fora do comum. Na cidade de Constantinopla, a exaltação do povo atinge o auge, graças ao fausto ostentado pelos Imperadores, chegando a provocar constantes conflitos.
A invasão dos bárbaros marcaria o fim dessa fase inicial dos desportos eqüestres e o conseqüente silêncio da multidão fanatizada.
2. As primeiras corridas de cavalos
No mundo ocidental, com o desuso dos carros e a severidade do Cristianismo, as corridas de cavalos – uma diversão marcadamente pagã – são relegadas a plano secundário. Apenas no norte da Europa, especialmente nas Ilhas Britânicas, elas não se extinguem de todo.
Já no século VII, durante o reinado de Henrique II, são realizadas feiras de animais em Smithfield, nas imediações de Londres. E tornam–se freqüentes os desafios em campo aberto para testar, pelos nobres marqueses, a qualidade dos produtos expostos à venda.
No reinado de Ricardo Coração de Leão, se concedem prêmios, em moedas de ouro, aos proprietários dos animais vencedores.
Com o decorrer do tempo, são feitos esforços para a melhoria das raças cavalares. Importações de reprodutores árabes se intensificam a partir do século XI. Ao mesmo tempo, votam–se leis visando a fomentar e aprimorar a criação de eqüinos.
3. Os primórdios do Turfe
a) Inglaterra
O nascimento do turfe inglês dá–se no século XVI, quando o rei Henrique VIII patrocina a primeira corrida oficial, levada a efeito em pista aberta.
Fundam–se, então, diversos Studs, dentre os quais o famoso “Hampton Court”. Sua filha, a rainha Elizabeth I, ao sucedê–lo, não deixará que o entusiasmo popular venha a arrefecer.
Mas é Jacob I que se encarrega no início do século seguinte, de consolidar as competições hípicas, já agora realizadas em hipódromos – Croydon, Epsom e Newmarket. Esse monarca, ao adquirir um cavalo árabe, de boa procedência, lança a semente de uma nova raça – a do puro–sangue inglês, denominada troughbred.
Em etapas sucessivas, através de três notáveis reprodutores “orientais” (Bierly Turk, Darley Arabian e Godolphin Arabian) e de um lote selecionado de “royal mares”, o puro–sangue inglês irá exercer influência preponderante nos rumos da criação inglesa e das corridas de cavalos em todo o mundo.
DARLEY ARABIAN (1702)
Belo cavalo, comprado na Síria pelo árabe Thomaz Darley, que o levou para a Inglaterra. Não chegou a correr; mas no Haras, depois de produzir excelentes animais nas três primeiras gerações, nasceria, na geração seguinte, o excepcional ECLIPSE (alazão, 1764, por Marske e Spilleta). Considerado a “segunda pedra angular do turfe mundial”, foi um campeão nas pistas; sua invencibilidade deu motivo a muitas lendas. Teve um funeral grandioso e seu esqueleto é conservado em um museu de Londres.
Em 1750, os Duques de York, Devonshire, Cumberland e Hamilton, fundam o Jockey Club Inglês. Mais adiante, os Reis Jorge IV, Guilherme IV, Carlos II e membros da Coroa passam a integrar a nova entidade, que em 1771 vai regulamentar e aprovar seu Código de Corridas.
Adota–se o uso de cores como distintivos dos diversos Studs. E Richard Tattersal cria uma firma destinada a promover os leilões anuais de “yearlings”.
Em 1791 surge o Stud Book destinado ao registro dos produtos nascidos e ao controle dos “pedigrees”. É aprovada a medida de fazer passear os animais no “paddock” antes da corrida, para facilitar a sua identificação, bem como o uso da bandeira pelo “Starter”, para dar o sinal de partida.
As simpatias populares, que o chamado “esporte dos reis” vem a despertar, bem assim o decidido apoio dado por Chefes de Estado da nobreza em geral, resultam no seu crescente desenvolvimento. Os soberanos ingleses, não só estimulam as sociedades promotoras de corridas, com donativos e subvenções, como emprestam às reuniões turfísticas o prestígio de suas presenças e a participação de seus Studs.
As reuniões de Ascot, promovidas pela Rainha Ana, têm lugar na temporada de verão, aberta com um grande cortejo de carruagens, encabeçado pela própria soberana inglesa. Ainda hoje é programada uma prova clássica com o seu nome (Queen Ann), reservada a potrancas de 2 anos.
b) França
O Rei Luiz XIV, da França, torna–se um grande incentivador da criação do puro–sangue de corrida, bem assessorado pelo Conde de Artois (futuro Rei Carlos X), o mais notável turfman da sua época. A partir de 1780, as provas são disputadas no Parque do Castelo de Vincennes.
Após o interregno da Revolução Francesa, Napoleão Bonaparte no auge do poder, determina o reinício das corridas de cavalos no território francês e passa a dar apoio ao crescimento do rebanho eqüino. Em 1805, expede um decreto autorizando a realização regular das atividades hípicas. No ano seguinte determina a instalação, pelo Estado, de seis Haras, trinta Postos de Monta (depósitos de reprodutores) e duas escolas experimentais de veterinária. Será o cavalo, aliás, o instrumento principal de que o Imperador vai servir–se, como nenhum outro chefe militar, nas guerras que sustentará contra coligações de nações. As Divisões de Cavalaria tornam–se lendárias, empregadas que são de forma admirável e inusitada, nos Preliminares da batalha (busca de informações) e no seu Acabamento (aproveitamento do êxito e perseguição).
Em novembro de 1833, aparece a “Societé d’Encouragement” destinada ao melhoramento das raças, sociedade a quem o turfe e a “elevage” francesa devem o seu extraordinário progresso. Simultaneamente, é fundado o Jockey Club. Ambas as entidades passam a trabalhar em íntima colaboração e dão início às competições em Chantilly.
4. Conclusão
Eis aí a história de um esporte empolgante, cujo nascimento e desenvolvimento se deve à aristocracia inglesa, que para diversos países, se converteu, paralelamente, numa autêntica e próspera indústria, de real expressão econômica.
Do mesmo passo, as entidades turfísticas, contando com o apoio popular, congregam, em seu seio, personalidades representativas da vida política, econômica e social das comunidades. E procuram dispor de dirigentes qualificados, com perfeito descortino do “métier”, de modo a enfrentar os delicados problemas da conjuntura, que repercutem seriamente nos hipódromos e nos campos de criação em geral.
por Carlos Ramos Alencar