Ao apagar as luzes de 2009, o Jockey Club Brasileiro entendeu de punir os proprietários, aqueles que pagam as contas, que compram os potros dos criadores, os oferecidos em “claimings” e leilões de treinamento e em transações particulares, “movimentando a roda”. É com o dinheiro dos proprietários que o JCB pode contar com inscrições para compor os programas de corridas. São os proprietários que pagam o sustento dos cavalos no Hipódromo da Gávea e nos Centros de Treinamento, dando aos treinadores meios de sobrevivência, já que os mais de 20% (vinte por cento) acrescidos ao preço do trato mensal como “pró–labore” constituem–se na principal receita previsível já que as comissões sobre os prêmios em termos médios são imprevisíveis e eventuais, e muitos são os treinadores que chegam a atravessar um ano sem receita e comissões compatíveis com os seus trabalhos. Todas as despesas são cobertas pelos proprietários. Os pouco mais de 2 mil páreos/ano são insuficientes para dar a média de vitória ano/cavalo.
Os prêmios da Gávea estão há muito defasados, a receita dos proprietários é amplamente derrotada pelas despesas, em português claro, na média um alto prejuízo é certo. Ante o panorama, seria justo admitir que o JCB tivesse como meta principal, o aumento do movimento de apostas e a procura incessante de patrocínios, procurando aumentar a receita, na tentativa de devolver aos proprietários prêmios condizentes. No geral, para equiparação à época em que as dotações eram decentes, os atuais prêmios teriam que ser pelo menos dobrados.
Assim por um lado a moralização das agências de vendas de apostas, um intenso e permanente trabalho no sentido de conseguir patrocínios (só no quadro, de sócios do clube há 6 mil empresários, banqueiros, negociantes, corretores, industriais, comerciantes, advogados, engenheiros, médicos, gente da elite financeira), um enxugamento em profissionais que foram bem intencionalmente contratados mas que mostram–se com menos competência dos anteriores diretores (que trabalhavam de graça), a prática de um pequeno e simples curso para os comissários de corridas (muitos deles sequer conhecem o Código Nacional de Corridas), a moralização na anual concessão de matrículas aos profissionais, a retirada das arquibancadas de gente inadequada, enfim, um plano trabalhoso, difícil mas rigorosamente necessário à uma pretendida melhoria.
Em lugar disso, ao apagar das luzes de 2009 o JCB aplicou uma perversa novidade aos proprietários, aqueles que pagam as contas, uma punição descabida com tripla decisão.
A primeira foi estender o pagamento do abominável “ADDED” também ao Grupo 3, ficando todas as provas de Grupo, isto é, todos os grandes prêmios a serem corridos na Gávea obrigados ao pagamento do abominável “ADDED”.
A segunda decisão foi a fixação do abominável em 7% (sete por cento) da dotação para o ganhador, além da obrigatória taxa de inscrição de 1% (um por cento), equivalendo a dizer que o proprietário tem que pagar 8% (oito por cento) para correr um cavalo em grande prêmio na Gávea.
A terceira é um retrocesso, uma cópia de prática ultrapassada, que era uma das formas de viabilizar as corridas de cavalos, nos primórdios da atividade, sem os meios de comunicação e a tecnologia moderna, para angariar dinheiro para a prática turfista, instituíram um pagamento muito antecipado da inscrição. Aqui no Brasil, mais precisamente no Jockey Club de São Paulo, por volta de 1955/1960, para que pudesse correr no Derby Paulista, o cavalo tinha que ter tido uma inscrição antes de ter 1 ano de idade.
Golf, um dos bons produtos do Ipiranga, não pode correr o Derby por isso. Na Inglaterra terra das boas e das más tradições, os pretensos candidatos ao Derby de Epsom de 2012, eu disse 2012, tiveram que pagar uma primeira inscrição em 2009, isto é, ainda sem ter um ano de idade. Foram recebidas mais de 400, eu disse quatrocentas inscrições, e a medida em que se aproxima a data da corrida, os que vão ficando pelo caminho (morte, lesão, falta de qualidade) perdem os dinheiros já pagos. A dotação da prova é constituída em boa parte pelos mal pagos, pelos cerca de 95% dos não competidores e dos mais ou menos 5% dos que efetivamente correm. Na França também persiste essa absurda prática. Há páreos em que a inscrição é muito antecipada, e a cada parcela não paga do fracionamento da inscrição é perdida, os pagantes perdem o dinheiro.
No Brasil, já há muitos anos que as más tradições européias foram abandonadas, com uma única inscrição a menos de 10 dias da corrida, com a módica taxa de inscrição, e limitação do número de concorrentes em função da capacidade da pista e segundo uma tabela classificatória, seletiva, muito bem inventada pelo Jockey Club de São Paulo e corretamente copiada e adotada pelo Jockey Club Brasileiro.
Mas nem tudo que é bom permanece para sempre. Os norte–americanos inventaram o abominável “added”, tendo em vista serem os clubes promotores de corridas de lá particulares, visando lucro para os seus acionistas, fazendo com que os proprietários de cavalos tenham que pagar parte da premiação. Na Oceania, os principais centros turfísticos, Nova Zelândia e Austrália, não praticam o abominável “added”. Na Ásia, os melhores – Hong Kong e Dubai –, também não. Na Europa, os centros turfísticos mais adiantados e importantes também não, Irlanda, Inglaterra, França, Alemanha e Itália.
Na América do Sul, os melhores são cinco, dos quais quatro não praticam o “added”, como no Peru, Chile, Argentina, e Uruguai. O quinto é o Brasil, que macaqueia os Estados Unidos. Pela legislação brasileira os clubes promotores de corridas não são entidades visando lucro, e os eventuais saldos têm, ou teriam que ser, reinvestidos em aumento de prêmios, o fio da meada no sentido da melhoria geral da atividade. Mas o Jockey Club de São Paulo e o Jockey Club Brasileiro, ao contrário do bom senso demonstrado pelos melhores países promotores de corridas, solitariamente copiam a má prática.
Como eu disse no início, o JCB resolveu inovar, em lugar de dar uma inteligente meia–volta e procurar aliviar o peso financeiro no bolso dos proprietários, resolveu sangrar perversamente aqueles que pagam as contas, estendendo a absurda cobrança inclusive do Grupo 3 (São Paulo até os clássicos estão incluídos) fixando uma alta taxa fixa de “added” igual a 7% do valor da dotação ao ganhador (com ainda uma taxa de inscrição igual a 1%), e um grande passo para trás, parcelando a taxa de inscrição e conseqüentemente antecipando o início do pagamento do abominável, com isso dando ensejo aos precocemente inscritos de perderam o dinheiro pago antecipadamente em função dos naturais percalços impeditivos de participação. Em relação a essa terceira novidade, o parcelamento previsto para 10% do equivalente aos 7% da taxa, 20% como segunda parcela que se transforma em 40% se não foi paga a 1º parcela, e a terceira de 70% que passa a 140% se não tiver sido paga nenhuma das duas primeiras, representa um acinte, uma agressão.
Vou citar exemplos em prova de Grupo 3 (cuja dotação por lei é pelo menos de 3 vezes o valor da eliminatória melhor dotada, que é no momento de 6.600 reais), é pelo menos de 19.800 reais, serão 1.386 reais de “added”, sendo R$ 138,60 na 1ª parcela, R$ 227,20 na 2ª (ou R$ 554,40 se não houver sido paga a 1ª), e R$ 970,20 a 3ª (ou R$ 1.946,40 se não houver sido paga a 2ª parcela). Com a inscrição de 1%, o custo vai de 1.584,00 a 2.970,00 reais, para correr um cavalo em G.3.
Se a prova for Grupo 2, com dotação mínima obrigatória de 4 vezes o prêmio – base, isto é, R$ 26.400,00, o custo do abominável será de R$ 1.848,00, sendo a 1ª parcela de R$ 184,80 a 2ª de R$ 368,00 (ou R$ 736,00) e a 3ª de R$ 1.293,00 (ou R$ 2.587,00), e com 1% de inscrição o pagamento será um valor entre R$ 2.112,00 e 3.960,00. Isso para correr um cavalo em G.2 na Gávea.
Se o grande prêmio for de Grupo 1 (no mínimo 5 vezes o valor–base), a dotação para o ganhador corresponderá a R$ 33.000,00. O custo do abominável será de R$ 2.310,00 sendo a 1ª parcela de R$ 231,00 a 2ª de R$ 462,00 (ou R$ 924,00) e a 3ª de R$ 1.617,00 (ou R$ 3.234,00). Assim, com o 1% da inscrição o custo para correr uma prova G.1 fica entre R$ 2.640,00 e 4.950,00.
Os valores das provas mais bem dotadas vão ao Grande Prêmio Brasil, com R$ 400.000,00. Assim há um abominável de R$ 28.000,00 sendo R$ 2.800,00 na 1ª parcela, R$ 5.600,00 (ou R$ 11.200,00) na 2ª, e na 3ª 19.600,00 (ou R$ 39.200,00). Com o 1% da inscrição, o valor total para correr varia entre R$ 32.000,00 e 60.000,00. Admitamos, o que é normal, que um cavalo radicado na Argentina venha a pretender correr o Grande Prêmio Brasil, e manifeste a intenção na semana anterior da corrida, o que seria absolutamente normal. Conforme a regulamentação vigente, teria que ser paga uma inscrição de 4.000,00 mais o abominável de 32.000,00 (“added” dobrado) em um total de R$ 60.000,00. Se somarmos a isso os custos de transporte de ida e volta e ainda a estadia do cavalo, cavalariço, treinador, jóquei, o proprietário e mais uma pessoa e/ou um veterinário, pode–se alvitrar em um custo a mais da ordem de mais uns R$ 30 mil. Pergunto: algum proprietário de bom senso vai investir cerca de 62 mil reais em uma empreitada dessas? Ou
será que o JCB admitiria a possibilidade da não cobrança do abominável dos proprietários estrangeiros, em atitude absurda, injusta e hostil aos proprietários brasileiros?
Essa idéia de estender a taxação do abominável inclusive ao G.3, do forte valor de 7%, e mais uma inovação no processo de inscrição, misturando a péssima idéia de “added” com a também péssima antecipação das inscrições, engenhosa, mas inteiramente inversa a melhorias e progresso. Tudo que resulte em sangrar os proprietários, repito aqueles que pagam as contas, está errado. O caminho é inteiramente o oposto. Custa–me acreditar que turfistas de bom senso aplaudam a tripla barbaridade.
Será que é tão difícil assim entender uma coisa tão simples?
Os cavalos devem ser elitizados, não os proprietários. Aqueles que pagam grande parte das contas tem que ser protegidos, não maltratados. Muitos proprietários estão abandonando o turfe, sentindo–se desamparados e à mercê de determinações insensatas idéias que associam más práticas norte–americanas com tradições ultrapassadas, inadequadas, envelhecidas, retrógradas do turfe europeu.
É necessária lucidez, é preciso bom senso, há que se parar de macaquear o que há de negativo, de ruim, de prejudicial, não há que repetir velharias que não são adequadas, facilitar a saúde financeira é preservar o próprio turfe, tomar obrigatoriamente o dinheiro dos proprietários, metendo a mão em seus bolsos em função de práticas estrangeiras inadequadas, é ser perverso consigo mesmo.
A não ser que o objetivo seja prejudicar o turfe brasileiro. Se é assim, parabéns.
No mês de janeiro de 2010, na Gávea, foi formado um G.3 com 20 competidores.
A interpretação de que o abominável é um sucesso é errôneo, falsa, vinte inscrições com o pagamento obrigatório do abominável traduz–se em 20 proprietários insatisfeitos, ou pelo menos a maioria deles, obrigados a escolher entre pagar ou não correr. Essa obrigatoriedade é odiosa, exigir que aqueles que pagam as contas, em lugar de serem aliviados da já pesada carga, são ainda compulsoriamente sobrecarregados. Não é a toa que o número de proprietários atuantes está diminuindo, é um dos fios da meada no processo de diminuição em todos os setores do turfe brasileiro, a cada ano menos criadores, menos garanhões, menos éguas, menos produtos nascidos, menos corredores nas vilas hípicas, etc. O sentido correto é diminuir ao máximo a carga financeira dos proprietários e não aumentá–las. No exemplo dado do G.3 com 20 competidores que foram obrigados a pagar, no meu entender, demais para poderem participar, 5 vão se beneficiar e 15 vão perder mais do que seria normal, aceitável.
A lucidez indica dois caminhos alternativos. Um seria acabar de vez com o abominável, encerrando, sepultando uma prática nociva aos interesses dos proprietários em particular e ao turfe brasileiro de um modo geral. O outro seria, quem sabe, manter o abominável mas optativo. Quem não quiser, corre normalmente sem participar do abominável, quem quiser que pague a abusiva cobrança, e só esses recebendo eventuais, quem sabe 70% para o melhor colocado no sistema do abominável, 20% para o segundo melhor colocado e 10% para o terceiro, em perdas e ganhos vinculados à cobrança do abominável.
A cabeça não foi feita só para ser colocado chapéu, é necessário fazê–la funcionar dentro do bom senso.
Adaptado da revista Turf Brasil