Mogambo estava ligado a uma incrível história. Ele era o segundo melhor cavalo de corridas do Uruguai, suplantado apenas por Cinzano. Desejando comprar um bom cavalo para tentar correr e ganhar os Grandes Prêmios São Paulo e Brasil, o criador José Carlos Fragoso Pires foi ao Uruguai, acompanhado pelo filho Junior, tentar comprar o Cinzano, mas encontrou dificuldades não financeiras para ficar com o cavalo, e acabou comprando Mogambo, alazão grande, lindo, perfeito e muito bom corredor, com características de correr na ponta em distâncias maiores e só eventualmente se entregar após oferecer enorme resistência. Mogambo ficou sendo preparado em Maroñas, e ganhou brilhantemente o GP São Paulo de ponta a ponta. Após boa campanha nas primeiras turmas do Rio e de São Paulo, foi para o Haras Santa Ana do Rio Grande, como um cavalo que não podia contar com o que havia de melhor, pois haviam que ser respeitadas as preferências por Waldmeister e St.Chad, e posteriormente Ghadeer, mas na reprodução o seu nome para sempre será lembrado como pai de bons ganhadores e principalmente como o pai da segunda mãe da especialíssima Riboletta. A citada 2ª mãe, filha de Mogambo, era a ótima ganhadora clássica Belle Valley. Mogambo está enterrado no Haras Santa Ana do Rio Grande, em Bagé, assim como Falcon Jet, Roi Normand, St.Chad, Waldmeister, Bowling e Carteziano. Quanto à Cinzano, foi levado para os Estados Unidos, e lá substituindo um matungo com o qual era muito parecido. O golpe foi descoberto pouco depois do páreo de estréia, e entre outras penalidades o cavalo foi castrado e eliminado do Stud Book, assim perdendo a sua condição de puro–sangue de corridas. Cinzano foi então levado para competição de salto, onde mostrou–se extraordinário. Fisicamente ele nada tinha de especial, mas era só qualidade.
Nos Haras Jahú e Rio das Pedras, o setor técnico era da alçada do veterinário Fernando Pereira Lima. Ele era um bom profissional de laboratório, onde trabalhava como chefe do setor no Hospital Veterinário do Jockey Club de São Paulo, e orientava os treinamentos dos corredores na Vila Hípica de Cidade Jardim como nos Haras dos irmãos J. Adhemar e Nelson de Almeida Prado. Um dos poucos detalhes em que ele não brilhava era na escolha dos garanhões, mas foi ele o responsável pela importação do milheiro inglês Burpham, um filho de Hyperion que foi ótimo garanhão, tendo com a clássica Marilu, de criação de José Paulino Nogueira (Haras Bela Esperança), produzido Farwell, por muitos tido como o melhor corredor nacional de todos os tempos.
Kelele foi um inexpressivo corredor inglês, mas com um pedigree razoável. Ele foi oferecido para garanhão no Brasil, por preço módico. O Dr. Alô Ticoulat Guimarães, por muitos anos presidente do Jockey Club do Paraná, titular do Haras Paraná, e à época vice–presidente da Associação Brasileira, fez uso de uma verba destinada a financiar importações de garanhões e comprou o tal Kelele, com a Associação pagando o cavalo à vista e recebendo o mesmo dinheiro em parcelas do Dr. Alô. Kelele foi um garanhão modesto.
Babor foi um bom corredor clássico argentino, tendo na reprodução produzido Octante, ganhador do GP Carlos Pellegrini. Ele não foi um garanhão especial, e foi importado para o Brasil por um grupo de criadores paulistas e sediado no Haras Patente. Babor, no Brasil, não foi ótimo.
Bambino era um filho de Cameronian, linha de fundistas, e que foi um corredor de muitos bons resultados na Argentina, defendendo os interesses de Roger Gutman (Haras La Pomme). Roberto Seabra, amigo e sócio em alguns poucos animais de Gutman, trouxe Bambino para o Brasil, fixando–se no Haras Fidalgo, do criador Abelardo Acceta. Bambino foi melhor corredor do que o pai, embora tenha sido apenas relativo o seu sucesso como reprodutor em função também de ter recebido número limitado de éguas.
Em um sábado durante as corridas em Cidade Jardim, o Dr. Alceu José Athayde me disse que o titular do Haras Rosa do Sul, Matias Machline, havia comprado na Argentina um Haras com 40 éguas, que seriam todas levadas para o haras em Atibaia, SP. Para o haras o hipólogo argentino Alessandro Lingfield indicou um cavalo norte–americano de nome Tumble Lark, que veio a ser responsável em boa parte pelos importantes sucessos do Rosa do Sul. O incrível no conhecimento técnico de Lingfield me chegou através de um jóquei nascido em Porto Rico, mas radicado nos Estados Unidos de nome Jorge Velásquez. Ele era naturalmente pequeno, de pele morena, com um fino bigode e extrema simpatia. Foi a São Paulo montar em um fim de semana, como atração, e com ele vieram a mulher dele, ex–Miss Porto Rico, alta, de pele clara, cabelos longos e claros, mãe de dois filhos dele e visivelmente apaixonada pelo marido, e o seu agente com a esposa. Velásquez doou todas as suas comissões à caixa dos profissionais. Na segunda–feira, fui com um grupo ao Posto de Monta do JCSP. Os visitantes ficaram encantados com as instalações, mas nem tanto quanto aos garanhões. O Velásquez me perguntou qual era o melhor garanhão no Brasil naquele momento, e quando eu respondi que o líder das estatísticas era um norte–americano de nome Tumble Lark, ele me disse que por várias vezes havia montado um cavalo comum e sem qualidade com o mesmo nome. Um pouco mais de conversa e o jóquei ficou estupefato, os dois cavalos eram o mesmo. Dentre muitos outros ganhadores importantes, Tumble Lark deu Dark Brown e Big Lark, um ganhador do 1º Clássico Latino–Americano disputado em Maroñas, e o outro ganhador do GP Brasil, entre outras brilhantes corridas. Louve–se aqui o “olho clínico” do hipólogo argentino Alessandro Lingfield.
Nesse assunto de garanhões, houve uma singular tragédia em Bagé. O atual Haras Doce Vale anteriormente era o Haras Inshalla, e originariamente havia sido implantado pelo Haras Sideral. O telhado das cocheiras era de sapê, uma cópia dos haras da Normandia. Estavam no Inshalla à época os reprodutores Locris e Campero. Provavelmente um problema elétrico incendiou o telhado, o galpão dos garanhões foi totalmente tomado pelo fogo, e Locris e Campero morreram queimados, intoxicados pela fumaça. Não seria necessário dizer que todos os telhados das cocheiras do haras foram modificados. Era um visual muito bonito, o sistema era o usual nos melhores haras franceses, foi na verdade uma horrorosa tragédia.
Posteriormente, outro garanhão do Inshalla veio a morrer por motivo inusitado. Telescópico soltou–se e saiu correndo pelo haras, e conseguiu entrar em um piquete onde estava um rufião. Os dois brigaram, Telescópico ficou muito machucado e teve que ser sacrificado. Ele era um castanho grande, forte, com aparência de grande poderio locomotor. Após ganhar a quádrupla coroa argentina, foi fazer campanha na Europa, e de lá foi para a reprodução no Inshalla. Foi muito melhor corredor do que reprodutor, e um seu filho foi protagonista de um fato curioso em Cidade Jardim. Um dos bons haras realizou o seu leilão de potros na Sociedade Hípica Paulista, o leilão despertou grande interesse, e a atração principal era um filho do Telescópico, um castanho forte, grande, lindo, na verdade um espetáculo de potro. Havia muitos interessados em comprá–lo, e em especial um numeroso grupo que se formou para montar um fortíssimo stud, com capacidade financeira para comprar o que havia de melhor. Um canal de televisão mandou aparelhagem para filmar o evento, e o líder do tal grupo gravou antes do leilão uma entrevista, dizendo que era uma nova frente que se abria no turfe, com a união de pessoas financeiramente gabaritadas, melhorando os preços para os criadores–vendedores e formando um stud para correr os páreos mais importantes. Quando o tal potro se apresentou, muitos lances se sucederam mas foram desistindo, e quando tudo indicava que o novo forte grupo ia ser o vencedor, surgiu um inesperado comprador cobrindo todos os lances. Preço bem acima do razoável, o grupo acabou parando e o potro foi para o outro licitante. O pessoal da televisão foi embora, o pessoal do grupo se desencantou, e a curiosidade geral era quanto à campanha do lindo potro. Em resumo, o comprador nada pagou, o cavalo teve um sério problema respiratório e não chegou a estrear.