A revista Puro–Sangue Inglês, que era da Associação Brasileira, publicou em 1993 sob o nº. 19, um magnífico trabalho de autoria de um dos mais lúcidos turfistas que até hoje conheci, foi Marcos Araújo Ribas de Farias. Ele é um dos maiores admiradores da criação Seabra, e o seu artigo “1945 uma revolução em preto e verde em listas verticais” representa uma justíssima homenagem à memória dos irmãos Roberto e Nelson Grimaldi Seabra, os titulares do vitorioso Haras Guanabara. É com muito prazer que transcrevo esse artigo do brilhante Marcos Ribas:
1945, uma revolução em preto e verde em listas verticais
O ganhador da primeira prova da quádrupla coroa paulista, Subaru Purple (já projetando de acordo com sua excelência de sua filiação tão subestimada no Brasil, o étalon Purple Mountain) é um filho da égua Incredible Hill, uma filha de Tumble Lark em Emerald Hill, por Locris. Por sua vez, Hilo, um dos mais consistentes nomes da mesma geração 90 ao qual pertence o citado Subaru Purple, é um filho do garanhão nacional Jade Hill, exatamente um irmão próprio da mãe de Subaru Purple, logo um filho de Tumble Lark em Emerald Hill, por Locris.
Todas essas considerações, em que pese a possibilidade objetiva e concreta de realçar as óbvias qualidades de Tumble Lark como pai de garanhões e como avô materno (fora determinar o ótimo padrão do Rosa do Sul), surgem a partir do nome mágico da extraordinária Emerald Hill, uma filha de Locris em Embuia, por Sunny Boy, uma criação do Haras Guanabara, dos irmãos Roberto e Nelson Grimaldi Seabra, invicta em pistas nacionais onde venceu a tríplice coroa de éguas de Cidade de Jardim, além da Taça de Prata, grande clássico Criação Nacional (G.1), também em Cidade Jardim, sendo que, na Gávea, construiu três impressionantes triunfos na milha do grande clássico Henrique Possolo (G.1), as One Thousand Guineas, nos dois quilômetros do grandíssimo clássico Diana (G.1), o Oaks, e do grande clássico Taça Ouro (G.1) então com chamada para produtos.
Emerald Hill serve muito bem de emblema referencial para uma pertinente colocação do revolucionário élévage magistralmente planejado e executado pelos irmãos Seabra e que, com a estréia de sua primeira geração completa, a nascida em 1945, realizou uma revolução incomparável na história de nosso turfe, até hoje influenciando uma série considerável de campos de criação, dando frutos mais do que positivos para o necessário e permanente aperfeiçoamento de nossos racehorses. Em seu pedigree, e na forma como foi ele arquitetado, estão algumas das muitas características do élévage Seabra que o tornaram, a nosso ver, verdadeiro turning–point entre (ainda que um tanto exageradamente) a pré–história e a história da criação do cavalo de corrida no nosso território.
O primeiro dado vem da origem materna da extraordinária campeã dos anos 70 (aliás os seventies tiveram–na, pelo menos, com a melhor égua de nossas pistas). Sua segunda avó é argentina Empeñosa (Full Sail em Ermua, por Congreve), criação do Haras Argentino, da família Guerrico, que defendendo as cores dos irmãos Seabra nas pistas, venceu no final dos anos 40 e início dos anos 50, os Gran Premios Selección (G.1), de Palermo e de La Plata, além das duas então provas do calendário nobre carioca representando a milha internacional (GP José Carlos de Figueiredo) e o quilômetro internacional (GP Major Suckow), este em recorde. As denominações dos clássicos argentinos, além da classificação de provas de Grupo 1, foram, assim dadas, para facilitar a visualização da importância das provas e do que elas representam atualmente.
Valorização do plantel de éguas – Empeñosa, além, portanto de uma campanha extraordinária, era dona de um sangue nobilíssimo, não fosse ela descendente da fundamental Ante Diem, a égua–base número um do élévage sul–americano (é bom lembrar que a fantástica Bayakoa que tanto encantou os turfistas e experts norte–americanos, também descende de Ante Diem no mesmo ramo da grande Empeñosa). E aí esta uma das marcas mais evidentes e conseqüentes da política de Roberto e Nelson Grimaldi Seabra: a importância particular que deram à formação de seu plantel de éguas, pela primeira vez, na nossa história, privilegiando esse lado basilar de qualquer élévage e um dos pilares dos extraordinários sucessos alcançados, internacionalmente, por, entre outros, Federico Tesio, Marcel Boussac, Lord Derby, os Rottschild, os Phipps e Son Altesse Aga Khan. E Empeñosa é um belo exemplo neste sentido (isso sem contarmos muitas das éguas fundadoras do Guanabara que vieram da Europa, de sofisticadíssimos pedigrees).
Se ligarmos Empeñosa a Emerald Hill, por exemplo, vamos notar que, entre elas, aparece o nome de Emoción, uma filha do grande Orsenigo (extraordinário cavalo italiano arrendado nos mid–fifties pelos irmãos Seabra por dois anos, em outro dado revolucionário da criação em questão), ganhadora tanto do grandíssimo clássico Diana (G.1), em São Paulo (sobre Xinga, em 1958), quanto no Rio (sobre Derah, em 1959), em 2.000 e 2.400m, respectivamente, alcançando um doublé de respeitabilíssima ressonância. Pois bem, Emoción é exatamente uma filha de Empeñosa e primeira avó de Emerald Hill. Como se viu acima, Embuia, mãe de Emerald Hill, tem como pai o francês Sunny Boy, belo corredor e reprodutor. E aí aparece mais um dado da política de criação do Guanabara: o do envio de algumas de suas melhores éguas para serem cobertas por alguns dos melhores garanhões de outros países e trazidas de volta para o Brasil para aqui terem seus produtos. Um exemplo mais antigo, por exemplo, remetendo–nos ao início dos anos 50, é o da égua Endwell, uma filha de Hunter’s Moon, que enviada para a Argentina, foi coberta pelo magnífico Advocate, um dos grandes étalons da época (sediado no Haras Argentino), dando a craque (entre as éguas), Encore, campeã das Two Thousand Guineas cariocas, então o grande clássico Outono, segundo nome feminino de sua fornada (o primeiro foi o de Courageuse) e terceiro não importando o sexo (o primeiro foi o fenomenal Adil).
Voltando, porém, a Emoción, vamos ver, que além de ter sido coberta por Sunny Boy (dando Embuia e Emerald Hill), ela o foi também pelo maravilhoso Le Haar, cujo cruzamento nasceu a melhor égua nacional dos anos 60, a grande Embuche, campeã do grandíssimo clássico Diana (G.1), o Oaks paulista, do grande clássico José Guathemozin Nogueira (G.1), o Prix Vermeille paulista, do grandíssimo clássico Organização Sul–americana de Fomento ao Puro–Sangue de Corrida (G.1), o São Paulo das éguas, do grande clássico Jockey Club Brasileiro (G.1), St. Leger carioca, e do então grandíssimo clássico Marciano de Aguiar Moreira (G.1), na época o Brasil das éguas.
Saindo de Emoción, mas continuando com Empeñosa, vamos chegar a outro nome maravilhoso da história de nossas courses e de nosso élévage. É Emerson, exatamente um filho da filha de Full Sail, tendo como pai o irretocável Coaraze (Tourbillon em Corrida, por Coronach), possivelmente o mais importante garanhão que serviu entre nós, uma criação de Marcel Boussac, sob cujas cores levantou o Prix du Jockey Club (G.1), o Derby francês. Emerson, o grande cavalo nacional dos anos 60, foi invicto em pistas nacionais através de cinco apresentações, com destaque para suas três impressionantes vitórias nos grandíssimos clássicos Cruzeiro do Sul (G.1), o Derby da Gávea, Derby Paulista (G.1), em Cidade Jardim, quando, no dia 25 de janeiro de 1962, pulverizou seus rivais (a criação Seabra fez ponta e dupla nesta prova, pois Sing Sing, por Hunter’s Moon, defensor igualmente das cores preto e verde em listras verticais e futuro ganhador do grandíssimo clássico São Paulo, G.1, mas já campeão do então Prix Lupin paulista, grande clássico Manfredo Costa Júnior, que seria Grupo 1, foi seu runner–up), que formavam um campo altamente seletivo pois, entre outros, nele estavam os derby–winners argentino e uruguaio, Sobresalto e Picaneo, respectivamente.
A grande trajetória de Emerson e Escorial – Exportado para a Europa, Emerson tornou–se um étalon de primeira grandeza. Pai da ganhadora do Prix de Diane (G.1), Rescousse (também segunda colocada no Prix de L’Arc de Triomphe, G.1, para San San), foi ele vice–campeão das estatísticas de garanhões na França, além de várias vezes ter terminado entre os primeiros. Como curiosidade, vale registrar que Emerson é pai de Solicitor, ganhador entre outras provas, do Prix Daphnis, G.3, um dos melhores garanhões de produtos de 2 anos na França. Solicitor tem como mãe Ursula, coincidentemente uma filha do fantástico Escorial (Orsenigo em Escoa, por British Empire), talvez o mais brilhante e perfeito exemplo da excelência da criação Seabra, verdadeiro desbravador, qual William, The Conqueror, de nossas fronteiras pois em feito inédito então, tornou–se campeão das duas maiores provas do turfe sul–americano corridas na aristocrática grama de San Isidro na Argentina, os três quilômetros do Gran Premio Internacional Carlos Pellegrini (G.1) e a milha e meia do Gran Premio Internacional 25 de Mayo (G.1), em novembro de 1959 e maio de 1960, respectivamente, derrotando, naquele, o também nacional Narvik, e nesse, o também nacional Farwell. É bom igualmente lembrar que Escoa, mãe de Escorial, também era Argentina e de altíssima qualidade nas pistas, pois foi brilhante sprinter, tendo vencido mais de 12 provas nobres em seu país de origem.
Nas leituras dos pedigrees de Emerson e Escorial, ficam mais uma vez evidentes certos preceitos norteadores da política de criação dos irmãos Seabra. Em primeiro lugar, o uso, quer internacionalmente (como já lembrados casos de Advocate, Sunny Boy e Le Haar, aos quais poderiam ser acrescidos os nomes de Foxhunter, Gulf Stream, Beau Prince, Soleil Levant, Sicambre e Lavandin, por exemplo), quer domesticamente (caso de Coaraze, mas também de Violoncelle, Johnny Araby e muitos outros), do maior número de garanhões possível, estabelecendo uma variedade fantástica de sangue, padrão que, até hoje, é comum entre os principais criadores de todo o mundo. Esta visão toda especial também pode ser percebida na importação do invicto tríplice coroado inglês Bahram para a América do Sul. O Haras Guanabara foi um dos cotistas e responsáveis por esta importação (o cavalo foi sediado na Argentina) e, possivelmente, aquele que melhor resultado alcançou com o produto Aga Khan pois tirou dois filhos clássicos seus: Ravel (cuja mãe era a inglesa Radiant Princess), e Snooker (cuja mãe era a argentina Snobless, descendente da fundamental Venusta, outra das grandes éguas–base do turfe sul–americano).
Como vimos até agora, tendo Emerald Hill, como elemento de aferição (de cujo papel só não falamos de seu pai, Locris, a última grande importação do Haras Guanabara, um dos grandes stallions que serviram em nossa criação em muitos anos), pudemos detectar uma série de padrões típicos do élévage Seabra e o porque de seu expressivo sucesso e de sua notável influência até hoje, ainda que desativado (mas o sangue, quando bom, sempre permanece). Mas cremos que, para terminar dentro do espaço disponível (para se falar do Haras Guanabara seria, na verdade, necessário, um verdadeiro livro), não há como deixar de citar outras duas grandes éguas que serviram em seus campos e que estão dentro dos padrões expostos acima. A primeira é a uruguaia Cantata, uma criação de Juan Amoroso. Boa corredora clássica, revelou–se uma mãe de notável nível nobre, tendo dado um derby–winner, Canavial (cujo pai era Radar, também criação dos irmãos Seabra), um ganhador de Two Thousand Guineas, Caucaso (Orsenigo), e um ganhador de Gold Cup, Canaletto (Bambino). Além disso, Cantata, coberta por Royal Forest, produziu Calcutta, runner–up de Dulce no Criferium de Potrancas de Cidade Jardim, importante clássico João Cecílio Ferraz, comprada quando potranca pelo Hara Faxina, onde, posteriormente, foi servir na reprodução. E lá, em Santa Gertrudes, firmou–se como uma reprodutora de ótimo sucesso. Afinal, dela descende, principalmente, a extraordinária Off The Way (Tratteggio em Fifi La Joli, por Earldom II), primeira égua nacional a levantar o grandíssimo clássico Brasil (G.1), isto em 1983, uma das maiores éguas brasileiras de todos os tempos, ganhadora de uma infinidade de clássicos, inclusive da Taça de Prata, grande clássico Criação Nacional (G.1) e Prix Vermeille paulista, grande clássico José Guathemozin Nogueira (G.1). No campo de criação do Haras Faxina, também de Calcutta (logo de Cantata), vem o ganhador da milha internacional paulista, grande clássico Presidente da República (G.1), Laughing Boy (Eylau).
Duplex, um exemplo de padrão – A outra égua a ser citada, e em posição de favorável destaque, é a argentina Duty (Embrujo em Dura, por Congreve), uma criação do Haras Chapadmalal. Em seu país de origem, foi ela a ganhadora do Gran Premio Selección (G.1), em Palermo e quarta no Gran Premio Internacional Carlos Pellegrini (G.1), vencido pelo fenômeno Yatasto (ele e Manantial foram em nossa opinião, os dois maiores runners de todos os tempos). Como se pode ver Duty é outra égua de ótimo papel e de excelente campanha trazida pelos irmãos Seabra para servir no Haras Guanabara, reforçando outro padrão deste élévage que foi o emprego muito bem sucedido de éguas sul–americanas de nível clássico em todos os sentidos. Duty no Brasil, como corredora, ainda que ganhadora clássica (Grande Prêmio Duque de Caxias, na Gávea, além de segunda para Platina, no Brasil das éguas), não correspondeu ao que era esperado tendo em vista suas performances argentinas. Em compensação, como mãe, ela se superou, estando entre as maiores broodmares de nossa história. Um nome só seria mais do que o suficiente para essa assertiva, o de Dulce, cujo o pai era o inglês Royal Forest, um Bois Roussel quarto colocado no Derby Stakes (G.1), em Epsom, prova onde foi o favorito. A trajetória de Dulce em pistas nacionais, não poderia ter sido mais brilhante. Foi em nossa opinião, a melhor égua brasileira dos anos 50 (em que pese outros nomes importantes como o de Joiosa, por exemplo).
De sua geração, uma das mais expressivas de todos os tempos, a nascida em 1954, foi o maior nome entre as fêmeas (Bucarest, também de criação dos irmãos Seabra e filha da reprodutora argentina, Garça, Turquesa, Tunis, Jamaica, eram outros nomes), e o segundo não importando o sexo, logo abaixo do craque Narvik. Desta geração, também fazem parte, entre outros, dois corredores de notáveis virtudes: Vândalo (Prosper) de criação Mondesir, craque indiscutível, e Kraus (Esquimalt), ganhador de excelente padrão. Bem, voltando a Dulce, sua campanha não poderia ser mais luminosa. Entre outros títulos, foi a primeira égua tríplice coroada em Cidade Jardim, exatamente no ano de criação desta tríplice coroa (1957), e a ganhadora do primeiro grandíssimo clássico Derby Sul–americano (G.1), em 1958.
De sua descendência na reprodução, um nome tem amplíssimo destaque, um verdadeiro diamante finíssimo dentro da coleção de pedras raras produzidas pelos irmãos Seabra, símbolo maravilhoso de que foi, é e sempre será este élévage ímpar: Duplex, um filho de Breeder’s Dream em Dulcine, por Coaraze em Dulce, por Royal Forest. Duplex é outro exemplo pedigrístico que reúne todos os melhores padrões da política de criação de Roberto e Nelson Grimaldi Seabra (é só ler o artigo e, agora os nomes citados em seu pedigree). Este neto de Dulce, nos anos 80, despontou como um astro internacional de extraordinária força. Simplesmente invicto fora do Brasil, ganhou na pista de areia, a milha internacional de Palermo, Gran Premio OSAF (G.1), em fortíssima atropelada, e as duas provas principais do turfe uruguaio, Gran Premio José Pedro Ramírez (G.1), e do turfe peruano, Gran Premio Jockey Club del Perú (G.1), ambas na milha e meia de ponta à ponta e com extraordinária facilidade. Finalmente na pista de grama de San Isidro, em alucinante pointe de vitesse, dominou os dois quilômetros do Gran Premio Associación Latino–Americana de Jockeys Clubs (G.1), de campo severíssimo (New Dandy, Especulante II, e, sobretudo, I’m Glad, ganhador do Pellegrini e do Nacional, ambos em recorde). E o sangue de Duplex (logo de Dulce e Duty), permanece. Afinal o melhor milheiro do país é um filho seu, o brilhante arenático Out Capta.