O Jockey Club de São Paulo foi mais ágil que o JCB, publicou na revista Turf Brasil o seu calendário clássico para 2010 na edição de 19 de novembro. O JCSP deu publicidade dentro do prazo legal e antes do JCB. Mais uma vez brilhou o competente handicapeur Arthur Francisco, do JCSP. Mas o JCB deu publicidade ao seu calendário clássico de 2010 logo na semana seguinte, também dentro do prazo, o que foi uma grata surpresa em função dos habituais atrasos anuais, às vezes de até quase um mês. Mas nesse detalhe, os dois clubes estão de parabéns, a comunidade turfística agradece.
A programação do JCSP manteve a sua tradicional linha, quase nada mudou. A rigor, dois detalhes podem ser apontados em relação ao ano anterior, o de 2009. Um deles é o estreitamento de 4 para 3 semanas do intervalo entre a primeira e a segunda prova da tríplice coroa feminina, tecnicamente um erro, mas que deve ter sido cometido em função de algum motivo forte, grave, importante, não sei. O outro detalhe é a troca de alguns nomes de provas especiais e de provas listadas, as provas mantiveram–se inalteradas mas nomes foram trocados de um tipo de páreo para outro. A significação técnica é zero.
Penso não ter competência para criticar essas programações, mas posso fazer observações que me parecem pertinentes. O traçado da raia de grama do JCB é ruim, foi executado ninguém sabe por ordem de quem, e em lugar de uma primeira proposta que daria ao hipódromo da Gávea um traçado lindo e tecnicamente ótimo, o que foi feito é uma agressão à constituição física dos cavalos. Na Gávea não há duas retas e duas curvas homogêneas, pois o que deveria ser a curva da direita, a do lado do Hospital Miguel Couto, é uma pequena reta oposta, tem ângulo agudo, e por isso é comum os cavalos entrarem na reta oposta bem abertos pela natural dificuldade de contornar um “bico”.
A reta de chegada tem prolongamento de cerca de 600 metros, que não fica em linha reta com a reta final, há uma pequena e suave curva na junção da metade do percurso nos páreos de 1.000 metros. Enquanto isso, o traçado do hipódromo de Cidade Jardim é ótimo, o prolongamento da reta de chegada proporcionando uma linha rigorosamente reta de 1.000 metros. O prolongamento da reta oposta permite que as largadas de 1.800 metros e de 2.000 metros na grama sejam o que se poderia desejar. Em 2.000 metros, há uma linha de 1.000 metros, uma curva de 400 metros e a reta final de 600 metros, não há do que reclamar.
A meu ver, os páreos de 2.000 metros na grama de Cidade Jardim são incomparáveis. Na Gávea, um páreo cheio em 2.000 metros prejudica as chances daqueles que largam do meio para fora, que tem que dar vantagem quando do “bico” 400 metros após a largada. Em Cidade Jardim não há problemas de posicionamento no partidor, os cavalos tem um quilômetro em linha reta para se colocarem conforme as suas naturais aptidões e dos desejos de seus jóqueis. Nem por isso eu sou daqueles que se agradam da tríplice coroa feminina paulista ter substituído a prova de 2.400 por uma de 1.800m. O formato de 1.600, 2.000 e 2.400m era a meu ver o ideal, as importantes potrancas que ganharam a prova de 2.400 metros comprovam isso. 1.800 metros em São Paulo é uma distância a ser usada e abusada, mas não é uma distância eminentemente clássica, não me parece merecer uma prova da tríplice coroa das potrancas paulistas.
Todo mundo sabe que o dia de hoje é conseqüência do de ontem, e o de amanhã será do de hoje. Os tempos vão passando e as coisas mudando. O poderio grandemente dominante do turfe paulista em época distante, vinha de uma criação com muito mais técnica e investimentos. Isso chegou ao ponto de ser proibida a inscrição de produtos não paulistas nas tríplices coroas de São Paulo, e também de perdedores.
Esses dois óbices, há muito já não existem, mas dão uma ligeira idéia do predomínio criacional paulista. Apenas como mero lembrete, mais para cá, o predomínio ainda era de tal ordem que quando o Jockey Club de São Paulo promoveu a vitoriosa ida de oito corredores nacionais para correrem em Buenos Aires. Em maio de 1960, mandou 8 produtos paulistas, que nas 4 provas obtiveram 4 vitórias e 4 colocações, naturalmente houve decorrências, hoje o Rio Grande do Sul é a força maior na criação brasileira, o JCB recebe a maior parte dos potros gaúchos mais pretensiosos, dando ao JCB o ensejo de uma programação mais rica em todos os sentidos que a paulista.
O calendário clássico do JCSP para 2010 é constituído por 44 provas especiais, 28 provas listadas, 19 de Grupo , 16 de Grupo 2 e 15 de Grupo 1.
As provas especiais são 44, com distância média de 1.654 metros, sendo 31 (70,5%) na grama com média de 1.725 metros e 13 na areia (29,5%) com 1.484 metros de média.
As provas listadas são 28, das quais 21 (75%) na grama com média de 1.543 metros e 7 (25%) na areia com 1.657 metros de média. A distância média das provas é de 1.572m.
São 19 provas de G.3, com distância média de 1.731m, sendo 13 (68,4%) na grama com média de 1.815m e 6 (31,6%) na areia, com média de 1.550m.
As provas de Grupo 2 são 16, média de 1.856m, sendo 8 (50%) na grama com média de 1.925m e 8 (50%) na areia com média de 1.788m.
As 15 provas de Grupo 1 tem distância de 1.780m, sendo todas na raia de grama.
Esse aspecto de distâncias médias é muito relativo, pois o calendário clássico tem que atender, no que diz respeito às qualidades dos animais melhores e/ou mais pretensiosos, as preferências pelas pistas e as variadas distâncias.
Dentro do que é possível, na atual conjuntura financeira do turfe brasileiro, as programações estão tecnicamente boas, mas poderiam estar melhores. O fato do JCB e o São Paulo serem semelhantes e vizinhos, com relacionamento amistoso, não impede que eles não se comuniquem como era de se desejar.
Como mero exemplo, veja o que ocorre na denominação dos páreos. Naturalmente há nomes locais a serem homenageados e alguns de âmbito turfístico mais abrangente nos dois clubes, e no que diz respeito aos animais homenageados há uma natural e respeitosa linha de separação, isto é, cavalo homenageado em São Paulo não o é no Rio, e vice–versa. Para não se ir longe, no Rio há páreos com nomes de Jocosa (embora ela tenha vencido o Grande Prêmio São Paulo, mas de campanha basicamente carioca e líder absoluta de sua geração feminina na Gávea), de Joiosa (ganhadora de Derby Paulista, e na Gávea vencedora de duas provas da tríplice coroa feminina, inclusive o Diana e de outras duas da tríplice masculina inclusive do Derby carioca), de Gualicho (campanha basicamente em Cidade Jardim, onde é bicampeão do GP Brasil), e seguido no exemplo, em São Paulo há homenagens entre outros a Zenabre (grande ganhador em São Paulo e bicampeão do GP Brasil), e assim por diante.
Os páreos com nomes de grandes corredores clássicos são muito bem escolhidos, naturalmente não há espaço para que todos que merecem sejam homenageados. Mas a falta da necessária maior comunicação entre os dois clubes deixou de fora Garbosa Bruleur, simplesmente porque o Rio entendeu que o nome dela constava do calendário clássico paulista.
O JCB e o JCSP são distintos, semelhantes, mas tem os mesmos propósitos, as relações entre eles são amistosas, mas falta evidentemente uma harmonia técnica.
Transcrito da revista Turf Brasil