Aos 2 anos de idade, ele saiu às pistas duas vezes e ganhou em ambas as oportunidades, em 1.400 metros. Na segunda delas, tratava–se do importante National Stakes (Grupo I), a prova de maior dotação para um juvenil na Irlanda, disputada no Curragh, quando derrotou a Van Nistelrooy (o “yearling” mais caro do mundo em 2001, até então invicto). Antes dele, as três últimas edições do National Stakes haviam sido vencidas por, respectivamente, Desert King, King of Kings, e Sinndar.
Depois disso, foi eleito favorito da crônica para a milha do tradicional 2000 Guineas, a ser disputado no ano seguinte (2003), em Newmarket.
De fato, aos 3 anos, Refuse To Bend confirmou todas as previsões, e venceu os 2000 Guineas (Grupo I), primeira prova da tríplice–coroa inglesa, tomando a ponta a duzentos metros do disco e não se deixando mais alcançar, para derrotar a Zafeen e Norse Dancer. Até aquele momento, continuava invicto, e, então, foi feito favorito para o Derby de Epsom, cotado a 5/2.
Aí, aconteceu o improvável: no dia do Derby, apesar de ter sido o décimo quinto potro a entrar na raia e galopar na direção do partidor, disparou, e foi o primeiro a chegar lá, tendo atuado no reverso da Tattenham Corner (o que significa subir uma ladeira que, em condições normais, os animais descem durante a prova). Isso bem pode ter–lhe custado a chance de uma melhor colocação no Derby de 2003 (na verdade, entrou descolocado).
Ao comentar o incidente, o “Timeform–Racehorses of 2003”, pág. 851, indaga sobre o que teria faltado a Refuse To Bend naquele dia, para justificar uma performance abaixo da expectativa geral: foi a infelicidade do “disparo” no galope de apresentação, ou, efetivamente, ele não tinha a milha e meia clássica?
O fato, porém, é que, depois do Derby Stakes, Refuse To Bend voltou às distâncias intermediárias (entendidas aqui, como da milha aos 2.000 metros), para vencer facilmente o Desmond Stakes (Grupo III), 1.600 metros, em Leopardstown; viajar a França e entrar descolocado no Prix du Moulin de Longchamp (grupo I), 1.600 metros, Longchamp, em setembro (para Nebraska Tornado); e ser comprado pelo Sheik Mohammed Al Maktoum após a citada apresentação.
Em 2004, aos 4 anos – é uma conhecida característica dos bons Sadler’s Wells melhorarem com a chegada da idade –, Refuse To Bend continuou em campanha e venceu mais dois importantes Grupos I do calendário clássico europeu: o Eclipse Stakes, 2.000 metros, em Sandown Park, derrotando a Warrsan e Kalaman; e o Queen Anne Stakes, 1.600 metros, Royal Ascot, batendo a Soviet Song; além de ter sido terceiro para Rakti, no Queen Elizabeth II Stakes (também Grupo I), 1.600 metros, Ascot.
Seu turf–record informa que ele correu quinze vezes, e ganhou em sete oportunidades, dos 1.400 aos 2.000 metros, na melhor turma européia de seu tempo, tendo entrado colocado (em terceiro) uma vez, e levantado em prêmios £ 780,896.
Origens, forma de atuar, modelo físico, e reprodução
Refuse To Bend (que o “Timeform” considera ter sempre estado à altura de seu nome quando em campanha), é filho de Sadler’s Wells na americana Market Slide, esta por Gulch na, também americana, Grenzen, por Greenfall (um filho de Graustark).
Gulch, o avô–materno, ganhou a Breeders’ Cup Sprint, e se notabilizou por exprimir velocidade pura. Contudo, gerou na reprodução a animais que foram além do que se poderia prever em matéria de distância.
Mas o forte de Refuse To Bend parece ser sua linha materna, apesar dela ter sido desenvolvida com base em nomes não tão conhecidos do turfe mundial, como Greenfall e Cyclotron, segundo e terceiro avôs–maternos, respectivamente.
A mãe de Refuse To Bend, Market Slide, foi uma boa corredora, ganhadora de cinco corridas entre a Irlanda e os EUA, e terceira colocada no First Lady Handicap (grupo III), em Gulfstream Park. Na reprodução, Market Slide gerou a Media Puzzle (por Theatrical), ganhador da tradicional Melbourne Cup (Grupo I), na Austrália, e de £ 1,011,793 em prêmios.
A segunda–mãe, Grenzen, considerada inesgotável, venceu 8 corridas nos EUA (inclusive três Grupos II), e se colocou dez vezes, tendo sido segunda no Kentucky Oaks (Grupo I), e terceira no Hollywood Oaks (Grupo I). Na reprodução, produziu a nove ganhadores, entre os quais a Twilight Agenda, vencedor de Grupo I na America, e segundo na Breeders’ Cup Classic, hoje reprodutor.
Em corrida, o “Timeform” descreve o castanho Refuse To Bend, cotação 124 (cerca de 62 quilos no Handicap Livre de 2003), da seguinte forma:
“Potro de tamanho médio, modelo atraente, ação ritmada (“round action”). Foi corrido apenas em raias leves, embora, como muitos dos Sadler’s Wells, se especule que pudesse ter sido melhor em pistas, de macias para pesadas.”
E sobre sua forma de atuar, observa:
“Atua melhor quando lhe permitem estar entre os da frente, embora essa característica, a de exigir liberdade de ação (“to run freely”), dificulte em muito a abordagem de distâncias acima da milha.”
Na reprodução a partir de 2005 (vide Weatherbys Stallion Book 2010), servindo no Whitsbury Manor Stud, e com duas gerações em idade de correr, produziu 50 ganhadores de 86 corridas e £ 1,222,198 em prêmios na Inglaterra e no exterior.
Entre seus produtos, destaca–se Neon Light (mãe por General Assembly), invicto aos 2 anos, ganhador de Grupo III na Alemanha, além de vários outros ganhadores de “listed races” na Irlanda, Alemanha, e Itália.
Resumo
Em suma, Refuse To Bend é mais um Sadler’s Wells de alta performance, ganhador de três Grupos I na Inglaterra, a fazer a monta no Brasil em 2010.
Desta vez, esse novo Sadler’s Wells tem uma característica interessante: adapta–se muitíssimo bem à milha. Não deve haver surpresa nisso: há inúmeros Sadler’s Wells assim, e vários deles também ganharam os 2000 Guineas nos últimos dez anos, como é o caso de Entrepreneur e King of Kings. O próprio, inclusive, era considerado pelo seu legendário treinador, Vincent O’Brien, como um cavalo que tinha os 2.000 metros como distância ideal, só tendo chegado à milha e meia graças à sua formidável têmpera e excepcional coração.
Talvez, a grande quantidade de produtos ganhadores de 2 anos gerados até aqui por Refuse To Bend, se explique pelo fato, não só de Sadler’s Wells ter por mãe uma das potrancas mais rápidas e mais precoces de sua geração (Fairy Bridge), como também pela circunstância do puro sprinter Gulch ser seu avô–materno.
Não importa o que seja, a chegada de Refuse To Bend só melhora e reforça a criação nacional.
Mais uma vez, é o turfe brasileiro dos criadores e proprietários –, não cessando de trazer novos sementais; investindo na importação de matrizes; realizando com sucesso os leilões de potros; e exportando animais criados no Brasil que ganham no exterior –, mais uma vez, repetimos, é esse turfe que dá mostra de ser mais vibrante, mais organizado, e certamente muitíssimo mais profissional, que a apatia e o despreparo do “turfe” das sociedades promotoras de corridas entre nós.
Diante dessa realidade, parece inevitável caminhar na direção da segregação de suas atividades, em relação à estrutura arcaica e, o mais das vezes, diletante dos Jockey Clubs do país.