Um dos detalhes mais importantes na criação é a qualidade do garanhão. Todo mundo sabe disso, pois o garanhão representa, a grosso modo, metade da força do haras. Um garanhão pode ter muitos filhos por ano, e a sua boa ou má qualidade naturalmente vai em muito refletir–se nos resultados das corridas, enquanto que a reprodutora normalmente só dá um filho, se ele for bom ou ruim fica em meio à produção geral, é um indivíduo bom ou ruim, mas os garanhões entram com uma participação geral muito maior. Muitos haras se fizeram ou se acabaram em parte como reflexo da qualidade dos garanhões. Vou citar, contar como alguns cavalos foram para reprodução por aquisições.
King Salmon era considerado o melhor garanhão da Inglaterra, o que queria dizer à época o melhor, ou um dos melhores, do mundo. O criador Antonio Joaquim Peixoto de Castro Junior o comprou e o levou para o seu Haras Mondesir. Foi um fato extraordinário, incomum, pois enquanto a quase totalidade dos criadores brasileiros só para por um reprodutor num preço compatível com o padrão de seu haras e das condições e perspectivas do turfe brasileiro, com King Salmon não foi assim. Pagar um altíssimo preço internacional por um cavalo para que seus produtos só possam usufruir de prêmios inadequados e baixo padrão financeiro do turfe local, mesmo podendo pagar altos valores para comprar o melhor possível satisfazer–se comprando um mais barato e condizente com o aspecto financeiro do turfe brasileiro, o inteligentíssimo e clarividente Dr. Peixoto, em vez disso, trouxe no caso o máximo possível, o melhor, um cavalo que “sobrava” no padrão brasileiro. O resultado todos sabem, a influência benéfica de King Salmon no turfe brasileiro foi fantástica, principalmente através das fêmeas. E não ficou por aí, para cobrir as filhas de King Salmon trouxe o reprodutor líder da França, Sayani, e um dos líderes da turma dos 3 anos na Inglaterra, Swallow Tail.
Aconselhado pelo saudoso Nestor Cavalcanti de Magalhães, o benemérito criador gaúcho Breno Caldas importou para o seu Haras do Arado um cavalo extraordinário, ganhador das duas principais provas de fundo do calendário clássico inglês, a Ascot Gold Cup, e do francês, o Prix Du Cadran. Tinha a linha alta Hyperion através Owen Tudor, e como segunda mãe a espetacular Caríssima, mãe de Pharis. Elpenor, além de qualidade, havia mostrado muita coragem, e o famoso hipólogo John Aiscan tinha por ele uma grande admiração, e sempre que vinha ao Brasil ia visitá–lo no Haras do Arado (RS). Elpenor levou o Haras do Arado a manter–se absoluto na liderança do turfe gaúcho, e seus filhos ganharam importantes provas clássicas no eixo Rio–São Paulo. Os ingleses muito se arrependeram da venda, mesmo tendo ela sido feita por alto valor, bem acima da realidade brasileira, mas todas as ofertas foram recusadas, e Elpenor imortalizou o nome de Breno Caldas pela sua audácia e entendimento de que o garanhão é peça fundamental, básica, não há que se regatear preços, tem que ser sempre o melhor possível independentemente do custo e do meio em que vai trabalhar. O limite é o fundo do bolso.
A Sociedade dos Criadores francesa publicava periodicamente relações de garanhões de padrão internacional, saídos de corrida ou já na reprodução, todos com pedigrees e/ou performances importantes. Uma dessas relações trazia o nome de um cavalo notável, Coaraze, grande ganhador clássico, assim como foram as suas mãe e avó. A Comissão de Fomento do Jockey Club de São Paulo procurou informação, e soube que Coaraze tinha feito até então apenas uma estação de monta, e que sua oferta de venda decorria do fato de que naquela primeira e única geração haviam ocorrido cerca de cinco barrigas de gêmeos. O Capitão Bela Wodianer, assessor técnico da Comissão de Fomento, insistiu na compra, baseando–se em que gestações gemelares são de responsabilidade das éguas e não do garanhão, era uma grande oportunidade para se trazer um garanhão exponencial por um preço menor que o verdadeiro valor. Coaraze constituiu–se em um marco na criação brasileira, e o seu filho Emerson foi não só o melhor produto nascido e criado no Haras Guanabara como também um dos melhores da criação brasileira em todos os tempos.
Bertrand Kauffmann e José Luiz Pinto Moreira estavam na França, e viram um excelente corredor clássico filho de Shantung. Além das qualidades de corredor, ele era fìsicamente muito parecido com o bom pai. O saudoso José Luiz Pinto Moreira, o “Maquininha”, entrou em contato com um dos titulares do Haras São José & Expedictus, Francisco Eduardo de Paula Machado, que convencido, mandou que o seu consultor técnico John Aiscan, hipólogo de fama internacional, lá fosse ver o cavalo. Pedigree, performance, tipo físico, tudo aprovado, e o negócio foi fechado. Assim, Felício veio a ser o terceiro grande “F” da criação Paula Machado. Formasterus, Fort Napoleon e Felício foram possivelmente os melhores dos muitos e bons garanhões do haras.
Um dia o mais técnico de todos os criadores brasileiros, José Paulino Nogueira, me disse que acabara de comprar na França um cavalo de enormes perspectivas para a reprodução e cujo preço estava bem abaixo do verdadeiro valor, pois seus irmãos maternos tinham fracassado. Tratava–se de um filho da especial Astronomie, à época nome importante no plantel feminino do sangue Boussac. O Dr. Paulino me explicou que era impossível que os filhos anteriores de Astronomie fossem bons, pois o pai deles era Djebel, cavalo extraordinário, mas totalmente inadequado. Mas que o cavalo que ele havia acabado de comprar tinha Pharis por pai, que com Astronomie representava uma cruza perfeita. Foi assim que Pharas veio para o Brasil. O resultado é de conhecimento geral (se não é deveria ser).
O grande sucesso da criação Seabra estava em garanhões de primeira linha (Felicitaton e Hunter’s Moon), em eguada de alto padrão internacional trazida dos Haras do Aga Khan, de fêmeas clássicas argentinas, uruguaias e nacionais. A isso se somava a audácia em compras de coberturas, éguas indo para a Argentina e até para a Europa para serem cobertas a peso de ouro pelos melhores garanhões, tudo em planejamento dos irmãos Roberto e Nelson. Após muitos anos de resultados admiráveis, com o envelhecimento daqueles garanhões de origens inglesas (além dos já citados lembre–se de Royal Forest), a substituição dos sangues e das origens, e assim vieram o alemão Nisos, o norte–americano Pintor Lea, o francês Cobalt, e com exceção do extraordinário italiano Orsenigo, que foi arrendado por dois anos, no geral houve grande declínio.
Um potro francês que foi líder de turma e só cumpriu uma estação de monta na França foi exportado por Marcel Boussac para os Estados Unidos. Chamava–se Priam II, era filho de Pharis em filha de Asterus. Depois de Priam II nasceu um irmão próprio, que Boussac o tinha como uma grande esperança. Flamboyant estreou em 1.600 metros fazendo uma “coursage” e chegando em 2°. Um mês depois venceu com grande autoridade em 2.000m. E a grande esperança se desvaneceu ante um forte aguamento que condenou o cavalo a pisar sempre mal, com os cascos muito sensíveis e deteriorados, sempre ferrado com proteção de feltros entre as ferraduras especiais e os cascos, isso para que ele conseguisse andar. Mesmo sem serventia para os haras de Boussac, Flamboyant tinha um preço de venda alto. O meu pai o comprou através do intermediário Chevalier, homem de confiança de Boussac. Teve no Stud Book Brasileiro o nome trocado para Flamboyant de Fresnay, pois já havia um outro Flamboyant registrado, e veio a ser o melhor, ou pelo menos um dos melhores, filho de Pharis a vir para o Brasil. O tal aguamento castigou Flamboyant de Fresnay por toda a vida dele.
Em função da 2ª Grande Guerra (1939–1945), muitos cavalos eram oferecidos para saírem da Inglaterra, e dentre eles um modesto filho de Fairway, bem barato. O Haras Paraná o comprou, e o sucesso veio com Fair Trader vindo a se constituir, com a qualidade das terras (hoje asfaltadas), e o trabalho do administrador geral Heitor Berleze, um dos pilares do Haras Paraná.
O Haras Santa Ana do Rio Grande encomendou ao hipólogo Samir Abujamra a compra de um cavalo para a reprodução, dentro de premissas. Durante cerca de dois anos Samir Abujamra ofereceu mais de meia dúzia de cavalos, mas que não eram exatamente o que José Carlos Fragoso Pires Junior queria. Até que um dia surgiu o nome de Roi Normand, saindo de corridas, muito bom corredor, com ótimo e equilibrado pedigree, e dentro dos parâmetros fixados. Para verificar as condições físicas do cavalo, e acompanhar o necessário espermograma, o veterinário José Roberto Taranto foi aos Estados Unidos, dando total aprovação. Roi Normand é um dos principais nomes da criação brasileira.
Esse assunto é interminável, quem sabe um dia eu vou ter a oportunidade de dar sequência ao presente artigo.