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Junho | 2009
Antigos Criadores XII, po Milton Lodi 18/06/2009 - 14h34min
A
lembrança das atividades de antigos criadores nos traz episódios curiosos. Não se trata de
enumerar os bons corredores que através dos anos a criação brasileira nos tem dado, isso é
tarefa para pesquisadores, aqueles que vão aos arquivos, às revistas, aos livros e aos
computadores, mas não é o caso. O importante nessa série de Antigos Criadores é rememorar
fatos interessantes de muitos daqueles que participaram da trajetória da criação brasileira
de cavalos de corrida. Hoje em dia há recursos técnicos modernos, comunicação imediata de e
para qualquer parte do mundo, parâmetros internacionais como Federico Tesio, Aga Khan, Marcel
Boussac, Don Juan Amoroso, Lord Derby e tantos outros exemplos, além de criadores brasileiros
que com seus investimentos e entusiasmos mostraram e mostram o que deve ser feito para a
melhoria, para o sucesso.
Uma das pessoas curiosas que conheci foi Paschoal Conzo, do
Haras Conzo, SP. Homem generoso, que começou a vida como menino pobre nas ruas de São Paulo,
e que quando morreu tinha ajudado muita gente e estava muito rico. Ele freqüentava
semanalmente as corridas, ia às cocheiras ver os seus animais, gostava de conversar com os
profissionais, todos gostavam dele.
Tive oportunidade de conhecer o haras dele, que,
com todo o respeito, era desprovido de qualquer senso técnico. O pessoal que trabalhava no
haras não era qualificado, conseqüentemente o manuseio não era bom, mas Paschoal Conzo
procurava comprar éguas e cavalos que pudessem melhorar a sua criação, Eu lembro
especìficamente de uma égua argentina, de nome Chenille, filha de Pont L`Eveque, de ótima
campanha na Gávea quando de propriedade do Stud 20 de Março, blusa marron e boné ouro, de
Francisco de Paula Pinto e Renato Bonaparte de Freitas. Haviam outras éguas promissoras, mas
a criação em si deixava muito a desejar. Eram três garanhões, dos quais dois de pais famosos.
Simplon Express, inglês, filho de Nearco; e Baroda Squadron, também inglês, filho de Solario.
Em termos de papel, era o que havia de bom na época. Havia um terceiro reprodutor, de nome
Nailer, mas que era infértil.
Mesmo que as condições do haras permitissem, e não era o
caso, os dois importados da Inglaterra tinham vindo em anexo a papéis qualificados. Em outras
palavras, eram dois cavalos sem categoria, sem expressão, sem qualidades, que vieram por
terem pedigrees interessantes. A falta de qualidade não perdoa, quem tem pode ou não pode
dar, mas quem não tem como vai dar?
Era sempre um prazer encontrar o “Seu” Paschoal
nas corridas dos fins de semana. Ele não era um jogador, mas sempre perguntava pelas chances
dos cavalos, e os próprios treinadores tinham prazer em lhe dar informações, para que ele se
distraísse eventualmente jogando e acertando em um ganhador.
Na época do Natal, o
‘Seu” Paschoal percorria as cocheiras dos treinadores que lhe eram simpáticos, os que
gostavam de conversar com ele e dar informações, e distribuía mantimentos para a ceia, como
pernis, panetones, castanhas, nozes, avelãs, etc. Ele era figura ímpar, fìsicamente de porte
de médio para pequeno, gordo, sempre de chapéu, de terno, gravata e colete, e sempre pronto
para conversar.
Um dia, em época em que os meus cavalos estavam correndo muito bem,
ele me procurou, dizendo que os seus dois garanhões não estavam dando bem e o terceiro era
infértil, era preciso colocar um garanhão novo. Eu tinha à época um bom velocista, que era o
tipo de cavalo que o haras dele precisava, de nome Jet Pilot, então com 4 anos e 4 vitórias
em Cidade Jardim, e que no meu entender não encontraria facilidades na esfera clássica. O
pedigree era bom, Romney, um inglês filho de Mahmoud (ganhador do Derby de Epsom para o Aga
Khan) e Elizabeth, essa égua clássica internacional por Kameran Khan e Canidia, por Pharis em
filha de Tourbillon. Jet Pilot era preto, pequeno, rigorosamente são e saudável. Fui ao
escritório do “Seu” Paschoal, e lá em meio a uma papelada enorme que ficava em sua
escrivaninha de “tampão”, ele recebia velhos amigos e companheiros dos seus tempos de menino
pobre, perdoando aluguéis atrasados, dando carinho, amparo e ainda dinheiro a todos que o
procuravam, ninguém de lá saía sem benefício. O “Seu Paschoal era uma maravilhosa figura
humana.
Jet Pilot foi para o Haras Conzo, bem, saudável, mas cerca de seis meses
depois morreu, parece–me que de cólicas e que eu saiba sem ter tido oportunidade de
cobrir.
O Haras não era um sucesso, e durante os muitos anos de atividades, que eu me
lembre, só deu de melhor Faz Assim e Diretor.
O primeiro sinal de velhice do “Seu”
Paschoal para mim foi quando um dia nas corridas, ele triste me disse que na véspera
perguntara ao meu treinador, que gostava muito dele, se os meus dois cavalos inscritos tinham
chance, e a resposta tinha sido negativa, os dois estavam em páreos difíceis, e os dois
haviam vencido. O “Seu” Paschoal estava magoado, ele era amigo do treinador, não era um
jogador, não havia porque ser enganado. Eu percebi logo que alguma coisa não estava certa, o
treinador Zé Pinto era um homem correto, confiável, amigo, ele não faria uma desfeita
daquela. Quando eu perguntei ao Zé Pinto o que havia acontecido, ele me disse que era comum o
“Seu” Paschoal confundi–lo com outro treinador amigo, fìsicamente completamente diferente
dele, e que não sabendo das chances dos dois cavalos não tinha querido entusiasmá–lo. Foi aí
que eu percebi que a velhice havia chegado ao bom “Seu” Paschoal.
No turfe, criação e
corridas, assim como na vida, não só os que atingem o sucesso são realmente grandes. |

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