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Junho | 2009
Antigos Criadores XI, por Milton Lodi 04/06/2009 - 11h40min
Os maiores celeiros do turfe brasileiro, os haras que procuravam fazer as suas
próprias linhas femininas, foram implantados no turfe, na criação brasileira, não por
criadores só comerciantes, ou por criadores que corriam os seus próprios animais, mas pelos
proprietários que criam. É um fato lógico e compreensível, quem não vai às corridas
habitualmente para vivenciar as competições fica sem saber de detalhes, fica sem a impressão
pessoal, fica ao sabor da opinião dos outros. Freqüentar as corridas é fundamental, é
freqüentar o teatro onde se desenrola os espetáculos, é poder analisar pessoal e diretamente
as performances, as nuances, as causas das derrotas e das vitórias, é presenciar os fatos e
ouvir os boatos, é viver o turfe. Os verdadeiramente grandes, aqueles em maior parte
responsáveis pelo progresso e grandeza do turfe brasileiro devem ser lembrados dentre outros
Linneo de Paula Machado, Antonio Joaquim Peixoto de Castro Júnior, os irmãos Nelson e Roberto
Grimaldi Seabra, Euvaldo Lodi, Frederico João Lundgren, Otto e Marie Von Leithner, Henrique
de Toledo Lara, Breno Caldas, entre outros importantes criadores, proprietários que criavam.
Preservar, cuidar, formar linhas femininas no próprio haras é só para quem tem sua própria
criação, nos seus sangues.
Abrindo um parêntese, o melhor criador da atualidade, o Aga
Khan, é um exemplo vivo desse procedimento, os seus haras são verdadeiros celeiros de
qualidade, e ele bàsicamente se utiliza de reprodutores os mais variados, próprios ou
comprando coberturas adequadas do que há de melhor. Essa atual liderança mundial, sempre em
alto grau de competição, concorrendo com outros maravilhosos criadores internacionais como o
grupo árabe liderado pelo Sheik Mohammed e ainda a aprimorada criação do Príncipe Khalil
Abdullah, não é coisa fácil. É briga de “cachorros grandes”. Só para que se tenha uma pálida
idéia do padrão, os excelentes garanhões de enorme sucesso no Brasil, Ghadeer e Midnight
Tiger, foram descartados pelos árabes por não terem mostrado padrão considerado pelo menos
com um mínimo indispensável da necessária qualidade. Corridas promovidas com amparo
financeiro em bancos, em indústrias, com um marketing eficiente, apoio não só financeiro, mas
também de entidades governamentais que compreendem a dimensão do verdadeiro turfe, tudo
“venta” a favor. É uma questão de educação, de cultura.
Mas voltando ao nosso turfe
brasileiro, à nossa realidade, o descaso das autoridades e o momento político–financeiro que
já de algum tempo obstaculam o progresso, fazendo com que haras tradicionalmente corredores
se transformem em haras comerciantes, dentro dessa nova realidade, um haras manteve–se
conservador, não criando para vender, mas para correr defendendo as suas próprias cores,
lilás com mangas listadas lilás e brancas. E assim foi até a morte de seu proprietário,
Ricardo Lara Vidigal.
É muito difícil analisar o Malurica, nome composto pelos nomes
de Ricardo e da mulher. Ele era um homem de personalidade forte. Por um lado era tímido,
afável, muito correto em seus negócios, conversa agradável. Por outro, era brigão, e como era
fìsicamente muito forte, não levava desaforos ou o que considerava errado, e muitas vezes
brigava corporalmente.
Para que se tenha uma idéia do controvertido temperamento dele,
vou contar três casos.
Ele morava em uma linda casa no bairro do Morumbi, zona nobre
de São Paulo, em uma verdadeira chácara no meio de residências de alto luxo. Era criador de
passarinhos, os tinha de várias qualidades e procedências. Quando se viu irremediavelmente
doente, passava a maior parte dos dias em casa, com os seus passarinhos. Um dia, após o
almoço, telefonou para o veterinário Alceu José Athaíde, e pediu que ele fosse lá, havia uma
surpresa. A insistência foi tanta que o Dr. Alceu encontrou um espaço de tempo entre os seus
muitos afazeres para a visita. Foi recebido pelo Ricardo, que justificou o insistente convite
pela gaiola com um passarinho que estava na mesa ao lado. Era um presente do Ricardo para o
Dr. Alceu. O motivo do presente? O Ricardo disse que achava o Dr. Alceu muito parecido com o
passarinho, um era a cara do outro, o passarinho tinha que ser do Dr. Alceu. Essa história me
foi contada pelo próprio competente veterinário.
Outro caso aconteceu com três éguas
argentinas compradas pelo Ricardo, que corriam em nome de um irmão dele, e que estavam
alojadas no Hipódromo da Gávea com o treinador Expedito Coutinho, o mesmo que cuidava dos
meus animais. De vez em quando o Ricardo me telefonava de São Paulo para saber como iam as
tres éguas, apesar dele estar sempre em contacto com o treinador. Passado o tempo, o Ricardo
me telefonou dizendo que estava encontrando dificuldades na transferência das éguas do nome
do irmão para o dele. Pelo telefone estava impossível, ou ele não estava ou alegava pressa e
mal falava com ele. Perguntou se eu sabia do paradeiro do irmão, que andava pelo Rio de
Janeiro. Eu informei que o irmão estava hospedado no Copacabana Palace Hotel e que
diàriamente ia à cocheira ver as éguas, por volta das 9 horas, e que normalmente no dia
seguinte ele iria lá. No dia seguinte bem cedo o Ricardo pegou um avião em São Paulo e chegou
no Rio no Hipódromo da Gávea cedo. Eu estava no escritório da cocheira conversando com o
irmão, quando o Ricardo irrompeu pela porta. Estava sério, pediu para que eu desse licença, e
foi para o irmão. Cerca de 10 ou 15 minutos depois, saiu do escritório o Ricardo com os
documentos de transferência das três éguas devidamente assinadas. Olhou as éguas, conversou
comigo e com o treinador por uns minutos, e voltou ao aeroporto. O irmão ainda permaneceu no
escritório por mais um tempo, se refazendo. Quando ele foi para o Hotel, deu para perceber
que parecia ter sido atropelado por um trator.
Em outra oportunidade, o veterinário
então do Malurica, o competente Celso Bertolini, recebeu o telefonema de um proprietário
carioca, interessado em comprar uns animais que o Malurica havia colocado num leilão, e
perguntando se ele comprasse para pagar à vista se o Ricardo daria não o habitual desconto,
mas um especial de 40%. O recado foi dado, e a resposta dele, grosseira, malcriada, e
provocadora, teve que ser transmitida pelo Dr. Celso repetindo as mesmas palavras. O Dr.
Celso é um homem quieto, bem mais educado, mas pressionado pelo Ricardo repetiu os desaforos
palavra por palavra. Quem duvidar dessa história, basta perguntar ao Dr. Celso.
O
Ricardo sempre morou em São Paulo e eu sempre no Rio, ele mais velho que eu e naturalmente
freqüentando círculos diferentes de amizades. Ele quando moço brigava muito, era comum estar
com um braço engessado, que ele habitualmente usava como arma para bater nos
adversários.
Mas o Ricardo era um bom patrão, os empregados o adoravam, os treinadores
e os jóqueis que cuidavam de seus animais o tinham como um amigo, compreensível, agradável.
Ele era de uma família de criadores e proprietários paulistas, neto do patriarca Antenor de
Lara Campos, sobrinho de Paulo Lara, de Theotonio Pizza de Lara e de Alcides Lara Campos. Em
dias de corrida, Ricardo Lara Vidigal estava sempre em seu camarote número 1 em Cidade
Jardim, e sempre com a sua gravata lilás.
Por duas vezes em minha vida fiquei
extremamente impressionado por lotes de potros em fase de doma e iniciação nas pistas, uma
quando do primeiro (se não me engano) lote criado pelo haras do Dr. Alceu (do lote fazia
parte um espetacular potro de nome Edu da Gaita), e a outra foi de um lote do Malurica.
Potros muito bem estruturados, fortes, saudáveis, impressionante.
Dentro da primeira
faixa de pedigrees e nomes internacionais, o padrão do plantel do Malurica não estava, e
mesmo assim foi incrível o sucesso durante tantos anos, ganhando provas de Grupo I como GP
Brasil, GP São Paulo, Derbies, etc. Resultados impressionantes.
O Malurica ficava no
município de Boituva, SP, não era um exemplo de organização, mas a criação era ótima, os
animais bem alimentados e bem manuseados. O Ricardo chegou a ter uma seção do Malurica no
Posto de Monta de Campinas, houve a tentativa de ser construída uma pista de treinamento, mas
acabou não dando certo, o projeto foi abandonado e a área vendida.
Os pedigristas
entendem com razão que o plantel do Malurica não era de primeira linha, não era de um padrão
clássico por excelência, mas todos concordam que a produção foi da mais alta expressão, os
resultados falando por si.
Algumas vezes, quando aparece um passarinho bonito, fico
imaginando se ele teria origem nos viveiros do Ricardo, em sua chácara no Morumbi. |

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