Assim como na vida em geral, as coisas vão mudando. Às vezes as realidades chegam sem maiores surpresas, mas mesmo um bom observador, outras vezes, é surpreendido. As análises que se seguem são superficiais, mas têm raízes profundas.
Veja–se, por exemplo, o turfe norte–americano. Rico, pujante, alardeando sucessos merecidamente. Com mais de 63 mil éguas na reprodução e um aproveitamento que deixa a desejar, menos de 57% enquanto no Brasil é da ordem de 75%, e um nascimento correspondente a pouco mais de 36 mil potros/ano, com um fortíssimo esquema financeiro que permite não só leilões de altíssimo padrão qualitativo, mas principalmente o quantitativo como, também com um grandíssimo esquema publicitário, impressiona o mundo do turfe com as suas corridas de grande freqüência e animação. Mas o alto conceito mundial do turfe norte–americano esconde uma infelizmente má tendência no que diz respeito aos pedigrees e o conseqüente aproveitamento nas pistas.
Além do já citado mau aproveitamento éguas/potros, menor que 60%, há ainda a ser considerado o anual (estimativa) massacre de cerca de 18% da nova geração, correspondente aos potros que não chegam a estrear, vítimas não só da ação trituradora dos treinadores, como a utilização indisciplinada de garanhões e matrizes que correram muitas vezes medicados e tendo, ainda, em seus pedigrees, elementos de aprumos incorretos com soma genética de defeitos que deveriam ser eliminados e não adicionados. Delírio pela super–velocidade, pela precocidade, pelo "ganhar depressa", a falta de paciência e de planejamento sendo substituídos por eventuais melhores preços em leilões e uma "precocidade artificial", tudo isso não levará certamente a um horizonte satisfatório. Cada vez, em tese, animais mais fracos (ou menos fortes) e mais medicados (muitas vezes já estreando nas pistas com LASIX e com FENIL), em caminhada para um futuro não melhor.
É claro que o dinheiro pode "escorar" boa parte do grande problema. Uma eventual importação periódica e maciça de garanhões alemães, por exemplo, seria um dos caminhos. Durante décadas, o Stud Book Alemão não registra como garanhões, os que tenham corrido medicados nas pistas e/ou tenham problemas genéticos (aprumos indesejados, incorreções físicas características de algumas linhas paternas e/ou maternas etc). Não há dúvidas que o turfe alemão não tem os resultados técnicos do norte–americano, do inglês e do francês, devido também ao relativamente pequeno número de potros produzidos anualmente (1.159 em 2006). Mas os principais criadores do mundo, dos Estados Unidos, da Irlanda e da Inglaterra, certamente terão que ir buscar na Alemanha sangues "limpos", estruturas ósseas sem defeitos nem taras, com pedigrees consistentes. Esse certamente será o caminho para fugir de futuros "foguetinhos debilitados" e conseguir animais sadios, de melhor complexão física e de mais classe.
O turfe na Inglaterra e na Irlanda é muito reforçado pelos investimentos dos árabes, que lá mantêm, haras do melhor padrão internacional. Na verdade, se é a Inglaterra o melhor e mais completo teatro europeu de corridas, por outro lado, apesar de menor número de animais, é a Irlanda o grande centro criacional do continente.
Mesmo não tendo os ingleses a paranóia norte–americana pela velocidade em distâncias muito curtas, ingleses e franceses vão ter que se utilizar dos grandes sangues alemães, que estão nos "limpos" cavalos sem defeitos e de boa classe.
O turfe brasileiro não participa diretamente desses grandes problemas e enfoques. O momento turfístico brasileiro é ruim, com cada vez menos público, com hipódromos sem promover corridas, com outros sem pagar os prêmios, e os que sobram e pagam oferecem, dentro de uma realidade, dotações mais do que insuficientes.
Os haras brasileiros estão, em parte, fechando as porteiras, ou diminuindo ano a ano os seus plantéis. Há criadores brasileiros que já visam a Argentina e o Uruguai, lá investindo. Outros criando no Brasil, de olho na eventual exportação, diga–se de passagem já com bastante sucesso.
Enquanto isso, de costas para o problema, e se de frente pior ainda, assistindo impassíveis o quadro de tristezas e pioras, as autoridades brasileiras, ditas competentes, dormem.
Será que quando tudo acabar, hipódromos e haras todos fechados, mais de 100 mil dependentes do turfe na rua, será que mesmo assim essas autoridades continuarão dormindo?
por Milton Lodi