Os cafezais paulistas eram a maior riqueza do país, e os "Barões do Café" ficavam cada
vez mais ricos. Eram fazendeiros de bom porte, e as produções de suas terras formavam a base principal das
finanças brasileiras.
A indústria era incipiente, a força vinha do interior do país, basicamente do
café de São Paulo.
Algumas famílias vieram para o turfe, e foram peças importantíssimas na criação. No
Rio Grande do Sul, os potros eram criados soltos, sem uma assistência técnica direta e diária, e o mesmo acontecia
no Paraná. Era assim, até que no Rio Grande do Sul surgiu o Haras do Arado, de Breno Caldas, que nas cercanias de
Porto Alegre montou um esquema moderno para a época, contando com o auxílio técnico de Nestor Cavalcanti de
Magalhães. Importaram bons reprodutores da Europa, com destaque para ELPENOR, um ótimo ganhador clássico filho de
OWEN TUDOR. O Haras do Arado foi um divisor de águas. Outros haras que merecem ser citados são o Campestre, o
Fronteira e o Espantoso. Muitos anos mais tarde os cariocas, que tinham nas terras do Estado do Rio de Janeiro
condições inadequadas para a criação em boa escala do cavalo puro–sangue de corrida, "adotaram" as
terras de Bagé, alguns deles que tinham haras em terras fluminenses, outros em terras paulistas. Para lá foram o
Haras Mondesir, o Santa Ana do Rio Grande, o TNT, o Castelo de Bagé, o Sideral (depois Inshalla, depois Doce
Vale), o das Estrelas, o Doce Vale (depois Santa Maria de Araras), o Nacional, o Bagé do Sul, o Anderson, e mais
alguns, que com o "paulista" Old Friends e os "nativos" gaúchos constituem hoje a grande
força, o núcleo mais poderoso da criação nacional. Enquanto isso, no Paraná, as coisas começam a se modificar,
pois ao Haras Paraná e o Valente, entre outros, surgiram campos competitivos e de nível internacional como o São
José da Serra, o J.B.Barros, o Santa Rita da Serra e o São Luiz, todos de ótimo padrão.
E os paulistas?
Liderados pelo pioneirismo de Linneo de Paula Machado, com o Haras Expedictus, em Botucatu, e o São José, em Rio
Claro, criadores foram surgindo, uns domiciliados no Rio de Janeiro (como Carlos Telles da Rocha Faria com o Haras
Santa Annita, Roberto e Nélson Grimaldi Seabra com o Guanabara, Antonio Joaquim Peixoto de Castro Júnior com o
Haras Mondesir em Lorena, Euvaldo Lodi com o Ipiranga em Jaguariúna, e mais uns poucos), e outros (Patente,
Calunga, Expert, etc.) de São Paulo mesmo. Antenor de Lara Campos foi dos primeiros (com sua blusa
"lilás"), e muitos outros "Lara" como Theotônio Piza de Lara, Paulo Lara, Ricardo Lara
Vidigal, Henrique de Toledo Lara. A família Assumpção também foi fundamental, com Erasmo e Antonio Álvaro
Assumpção, Domingos Assumpção, e outros. E ainda possivelmente, qualitativamente, como técnica e saber, José
Paulino Nogueira com o seu fantástico Haras Bela Esperança, e o seu sobrinho José Bonifácio Coutinho Nogueira com
o seu Haras São Quirino, e mais o São Bernardo do casal Leithner.
Com os muitos anos, as terras
paulistas cansaram, a recuperação era cada vez mais cara, as cidades crescendo e invadindo as áreas rurais. As
cidades "engolindo" com os seus crescimentos, o agro–negócio se expandindo, os custos sempre subindo, a
competição cada vez mais acirrada, tudo foi se modificando. A permanente luta para dar ao solo as condições
adequadas e a necessária e permanente melhoria dos plantéis, apresentavam um custo–benefício cada vez pior. São
Paulo perdeu sua incontestável supremacia. No Mato Grasso do Sul, por exemplo, surgiu o Haras Ponta Porã, com uma
qualitativa criação e quantitativamente, com o maior plantel do Brasil.
Alguns haras paulistas
continuam lutando bravamente, e com boa presença no cenário nacional. O Haras Bandeirantes de Antônio (Tony) de
Toledo Lara, o Calunga de Silvio Maria Crespi, o Kigrandi de Sérgio Maggiore, o San Francesco de Francisco (Kuki)
Giobbi, o Interlagos de Michael Perlman, o Novo Mossoró de Alceu José Athayde, o Santa Verônica de Enéas Cezar
Ferreira Neto, o Faxina de Margarida Polak Lara, e alguns outros mais. Uma grande perda, entre outras, foi o
encerramento das atividades do Rosa do Sul, da família Machline, e o Jahú e o Rio das Pedras, dos irmãos Almeida
Prado. A "vôo de pássaro", como diria Hernani Azevedo Silva, esse foi um apanhado geral da criação
brasileira através os tempos.
Já de algum tempo o turfe brasileiro está em maus lençóis, e as atuais
perspectivas não são boas. Mas não custa recordar–se dos primórdios, a atrevida participação dos "Barões do
Café" , da inventiva fantástica de Antônio Joaquim Peixoto de Castro Júnior e Adhemar de Faria, criando o
"Sweepstake" em 1933.
A "vôo de pássaro" de uma entusiástica época dos
investimentos para uma época cautelosa, em que assistimos o vertiginoso sucesso dos nossos "hermanos"
argentinos (a partir de 1° de agosto de 2007, em Palermo, a dotação dos páreos de produtos de 3 anos perdedores,
em provas até 1.400 metros, é mais do que o triplo da equivalente maior dotação brasileira, a da Gávea).
Os "Barões do Café", se ainda estivessem vivos, certamente estariam chorando.