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Agosto | 2007

São Paulo, na era do café, por Milton Lodi
21/08/2007 - 17h12min

Os cafezais paulistas eram a maior riqueza do país, e os "Barões do Café" ficavam cada vez mais ricos. Eram fazendeiros de bom porte, e as produções de suas terras formavam a base principal das finanças brasileiras.

A indústria era incipiente, a força vinha do interior do país, basicamente do café de São Paulo.

Algumas famílias vieram para o turfe, e foram peças importantíssimas na criação. No Rio Grande do Sul, os potros eram criados soltos, sem uma assistência técnica direta e diária, e o mesmo acontecia no Paraná. Era assim, até que no Rio Grande do Sul surgiu o Haras do Arado, de Breno Caldas, que nas cercanias de Porto Alegre montou um esquema moderno para a época, contando com o auxílio técnico de Nestor Cavalcanti de Magalhães. Importaram bons reprodutores da Europa, com destaque para ELPENOR, um ótimo ganhador clássico filho de OWEN TUDOR. O Haras do Arado foi um divisor de águas. Outros haras que merecem ser citados são o Campestre, o Fronteira e o Espantoso. Muitos anos mais tarde os cariocas, que tinham nas terras do Estado do Rio de Janeiro condições inadequadas para a criação em boa escala do cavalo puro–sangue de corrida, "adotaram" as terras de Bagé, alguns deles que tinham haras em terras fluminenses, outros em terras paulistas. Para lá foram o Haras Mondesir, o Santa Ana do Rio Grande, o TNT, o Castelo de Bagé, o Sideral (depois Inshalla, depois Doce Vale), o das Estrelas, o Doce Vale (depois Santa Maria de Araras), o Nacional, o Bagé do Sul, o Anderson, e mais alguns, que com o "paulista" Old Friends e os "nativos" gaúchos constituem hoje a grande força, o núcleo mais poderoso da criação nacional. Enquanto isso, no Paraná, as coisas começam a se modificar, pois ao Haras Paraná e o Valente, entre outros, surgiram campos competitivos e de nível internacional como o São José da Serra, o J.B.Barros, o Santa Rita da Serra e o São Luiz, todos de ótimo padrão.

E os paulistas? Liderados pelo pioneirismo de Linneo de Paula Machado, com o Haras Expedictus, em Botucatu, e o São José, em Rio Claro, criadores foram surgindo, uns domiciliados no Rio de Janeiro (como Carlos Telles da Rocha Faria com o Haras Santa Annita, Roberto e Nélson Grimaldi Seabra com o Guanabara, Antonio Joaquim Peixoto de Castro Júnior com o Haras Mondesir em Lorena, Euvaldo Lodi com o Ipiranga em Jaguariúna, e mais uns poucos), e outros (Patente, Calunga, Expert, etc.) de São Paulo mesmo. Antenor de Lara Campos foi dos primeiros (com sua blusa "lilás"), e muitos outros "Lara" como Theotônio Piza de Lara, Paulo Lara, Ricardo Lara Vidigal, Henrique de Toledo Lara. A família Assumpção também foi fundamental, com Erasmo e Antonio Álvaro Assumpção, Domingos Assumpção, e outros. E ainda possivelmente, qualitativamente, como técnica e saber, José Paulino Nogueira com o seu fantástico Haras Bela Esperança, e o seu sobrinho José Bonifácio Coutinho Nogueira com o seu Haras São Quirino, e mais o São Bernardo do casal Leithner.

Com os muitos anos, as terras paulistas cansaram, a recuperação era cada vez mais cara, as cidades crescendo e invadindo as áreas rurais. As cidades "engolindo" com os seus crescimentos, o agro–negócio se expandindo, os custos sempre subindo, a competição cada vez mais acirrada, tudo foi se modificando. A permanente luta para dar ao solo as condições adequadas e a necessária e permanente melhoria dos plantéis, apresentavam um custo–benefício cada vez pior. São Paulo perdeu sua incontestável supremacia. No Mato Grasso do Sul, por exemplo, surgiu o Haras Ponta Porã, com uma qualitativa criação e quantitativamente, com o maior plantel do Brasil.

Alguns haras paulistas continuam lutando bravamente, e com boa presença no cenário nacional. O Haras Bandeirantes de Antônio (Tony) de Toledo Lara, o Calunga de Silvio Maria Crespi, o Kigrandi de Sérgio Maggiore, o San Francesco de Francisco (Kuki) Giobbi, o Interlagos de Michael Perlman, o Novo Mossoró de Alceu José Athayde, o Santa Verônica de Enéas Cezar Ferreira Neto, o Faxina de Margarida Polak Lara, e alguns outros mais. Uma grande perda, entre outras, foi o encerramento das atividades do Rosa do Sul, da família Machline, e o Jahú e o Rio das Pedras, dos irmãos Almeida Prado. A "vôo de pássaro", como diria Hernani Azevedo Silva, esse foi um apanhado geral da criação brasileira através os tempos.

Já de algum tempo o turfe brasileiro está em maus lençóis, e as atuais perspectivas não são boas. Mas não custa recordar–se dos primórdios, a atrevida participação dos "Barões do Café" , da inventiva fantástica de Antônio Joaquim Peixoto de Castro Júnior e Adhemar de Faria, criando o "Sweepstake" em 1933.

A "vôo de pássaro" de uma entusiástica época dos investimentos para uma época cautelosa, em que assistimos o vertiginoso sucesso dos nossos "hermanos" argentinos (a partir de 1° de agosto de 2007, em Palermo, a dotação dos páreos de produtos de 3 anos perdedores, em provas até 1.400 metros, é mais do que o triplo da equivalente maior dotação brasileira, a da Gávea).

Os "Barões do Café", se ainda estivessem vivos, certamente estariam chorando.



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