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Março | 2007

Yarumba, Domage e Gargalhada, por Milton Lodi
20/03/2007 - 16h16min

José D’Elia é um turfista antigo, muito bem conceituado, radicado em São Paulo e com muitos conhecimentos e bom trânsito na Argentina. Correto em seus negócios, conhecedor de corridas e criação, confiável, trouxe para o Brasil muitos cavalos e éguas que aqui tiveram sucesso. Um dos casos curiosos do qual ele participou foi o da importação de uma égua que veio a ser uma das bases do plantel do Haras São Quirino.

Para o criador paulista Geraldo Bordon, do Haras Larissa, D’Elia trouxe um lote de 17 éguas. Mas uma delas foi rejeitada, por já estar com 15 ou 16 anos. O Larissa ficou com 16, e o D’Elia com uma na mão. Resolveu oferecer a égua para José Bonifácio Coutinho Nogueira, titular do Haras São Quirino, sabendo que ele, que já tinha em seu plantel mais de uma filha do excelente garanhão Carapálida, poderia ficar com a égua. José Bonifácio, àquela época, tinha em mãos um cavalo de sua criação filho de Coaraze, ótimo corredor, e que entendia ser ótima a cruza do Viziane com filhas de Carapálida, garanhão líder de estatística na Argentina. Assim, YARUMBA foi para o Haras São Quirino para fundar uma extraordinária linha–base, clássica, da qual um dos seus representantes, de sucesso mais recente, é DONO DA RAIA.

Outro caso interessante ocorreu com Lafayette Camargo, do Haras Vila Brandina, Campinas, SP. Ligado familiarmente à família Nogueira, Lafayette trabalhou dedicadamente por muitos anos em uma usina de açúcar, e só quando se aposentou, já com certa idade, voltou–se para o turfe. Seu sucesso como criador, com umas poucas éguas, foi estrondoso. Logo na primeira geração deu ATABASKA, na segunda BILRO, ambos líderes de turma. Ele mesmo treinava os seus cavalos, no Hipódromo de Campinas. Um dia ele foi me visitar no haras, viu tudo, fez elogios, e me convidou para almoçar no pequeno haras dele. Em meio a um agradabilíssimo almoço, ele me disse que havia gostado muito de um dos meus garanhões, porque ele se enquadraria no "estilo" de galopar que ele apreciava. Logo imaginei que ele iria desejar uma cobertura do Flamboyant de Fresnay (que não galopava bem, pois tinha os cascos murchos em função de um violento aguamento ainda na França), Fairy King (lindo cavalo frânces de pedigree de fundo) ou do Kameran Khan (irlandês da criação Aga Khan, de extraordinária linha feminina). Para minha surpresa, ele queria comprar uma cobertura do nacional MANGUARÍ, o cavalo que era o predileto do meu pai, extraordinário nas pistas, mas sem maior prestígio como garanhão. Naturalmente eu dei a cobertura, e ele mandou a SIMOA, filha de Hamdam e Sultan’s Way, importada da Inglaterra pelo gênio de José Paulino Nogueira. O Dr. Lafayette telefonava de véspera, dizendo que a égua estava pronta, e se podia levar no dia seguinte. A égua chegava cedo, o caminhão esperava a cobertura e logo depois levava a égua de volta (do haras dele ao meu seriam cerca de 30 quilômetros). A égua foi coberta em três dias alternados, e em suas idas e voltas era acompanhada pelo Dr. Lafayette, que seguia o caminhão de carro e assistia tudo. Nasceu uma potranca, de nome DOMAGE, que entre suas boas performances ganhou o GP Diana, em Cidade Jardim.

Um dia, o meu pai me disse que havia comprado pelo telefone, do Haras Paraná, uma potranca, ante repetidos telefonemas e insistências do criador Alô Guimarães. Pior do que o fato de comprar sem ver, era o pedigree da potranca, nenhum nome sequer conhecido. GARGALHADA era filha de Maharajá (ARG) e Grecia (ARG), por Collar Chico(ARG) e Glicerina(ARG), por Commuter(GB). Quando a GARGALHADA chegou, em lugar de uma "ponta de estoque", de uma potranca franzina e peluda, sem graça e sem futuro, apresentou–se uma linda potranca, bem feita, forte, bem desenvolvida, bem feminina, graciosa. Naquela época, o Jockey Club Brasileiro não tinha piscina para cavalos, e eles nadavam nas águas da Lagoa Rodrigo de Freitas, ou amarrados a um barco remado por Henrique Itrilo, conhecido barqueiro e também treinador, ou em volta de um "pier" que foi colocado na lagoa.

GARGALHADA foi levada pela primeira vez para nadar, e eu estava presente. No princípio ela não queria entrar na água, e refugava, saia para um lado, saia para o outro, e o empregado burramente ficou de costas para a lagoa, de frente para a cabeça da égua, puxando, e o treinador Claudemiro Pereira atrás dela jogando areia com força nos posteriores dela. De repente, a GARGALHADA se encolheu e logo depois, como impulsionada por mola, "voou" para a lagoa. Caiu na água, já em lugar fundo, e sumiu com o cavalariço. Depois surgiu sozinha já nadando lagoa à dentro. Naquele dia o barqueiro não estava, e tivemos que aguardar a GARGALHADA resolver voltar (entrou na altura do atual Clube Piraquê, saiu perto da atual sede do Flamengo). O Bolino é testemunha. Em outra ocasião, a GARGALHADA ia nadando atrás do barco quando a corda que ia do seu cabresto ao barco se soltou. Ela imediatamente mudou de direção, e foi para cada vez mais longe da beira d’água. De repente, ela encontrou um banco de areia, e subiu nele. E lá ficou a GARGALHADA quase que inteiramente fora da água, com a corda dependurada no cabresto, esperando que o barqueiro a fosse buscar.

GARGALHADA só correu 4 vezes, ganhou 2, mostrou–se boa. Na reprodução, só para resumir, deu os ganhadores clássicos GOLF e JUNDIÁ.

por Milton Lodi



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