De vez em quando, vêm à baila lembranças da época em que fantásticos jóqueis chilenos dominavam no turfe brasileiro (Gávea e Cidade Jardim). No Rio, o problema deles era o lendário Luiz Rigoni, o melhor jóquei que conheci, e eram na verdade espetaculares o desenrolar e o desfecho, percurso e reta final, quando eles se enfrentavam. Os chilenos respeitavam o Rigoni, reconheciam nele um jóquei que corria limpo e de grande classe, inteligente, astuto, de muita sensibilidade.
Em São Paulo, brilhava um chileno chamado Luiz Gonzalez, de percursos perfeitos, vitórias e sucessos devidos à sua maestria, e ele sempre sério, não sequer sorria. Só o brasileiro Pierre Vaz conseguia enfrentar o Gonzalez, e retas memoráveis empolgavam o público paulistano. Como o ótimo Pierre batia demais, usava demasiadamente o chicote, naturalmente o Gonzalez levava vantagem. Mas os dois eram excelentes, classe pura contra vigor, os dois muito bons e de boas cabeças. Ao contrário de Gonzalez, que praticamente não falava e não era de fácil comunicação, Pierre Vaz falava sem parar, era amigo de todos, sua extrema simpatia era uma de suas marcas. Que eu me lembre, nunca tive oportunidade de falar com o Gonzalez, mas meu diálogo com o Pierre era muito agradável, ele sempre fazia menção de um jóquei e depois treinador, Claudemiro Pereira, de quem ele fora muito amigo no princípio da vida turfista na Gávea, antes dele ir para São Paulo tentar a vida. O simpático elo, era o fato do sucesso do Claudemiro treinando os cavalos do meu pai (e depois os meus).
Quando se aposentou, Pierre voltou para a sua terra, o Paraná, e lá passou a cuidar do seu Haras Miron, nome de um cavalo uruguaio, com quem tinha vencido o Grande Prêmio Brasil. Quando ele ocasionalmente ia a São Paulo, era uma festa, falava com todo mundo, era uma simpatia. Gonzalez parou de montar, aposentou–se, e que eu saiba, morava quieto em um apartamento em São Paulo, discreto como sempre.
Voltando à Gávea, Rigoni tinha que enfrentar áses como Juan Marchant, Oswaldo Ulloa, Luiz Diaz, Francisco Irigoyen e Emidgio Castillo, os melhores. Naturalmente, cada jóquei tinha o seu fã–clube e características diferentes.
J. Marchant era bem pequeno, e não precisava fazer regime alimentar para fazer o peso. Era maravilhoso o seu cálculo de corrida, os cavalos rendiam muito em suas mãos, era classe e mais classe. Talvez tenha sido o melhor de todos. Mas não era essa a opinião do Rigoni, que afirmava ter sido Ulloa o melhor.
Ulloa, além de muito bom em sua profissão, era um atleta. Chegava cedo ao prado, tirava a camisa, e fazia ginástica até a hora do início dos trabalhos matinais. Depois de meia hora de ginástica e mais de duas horas montando os cavalos, trocava de roupa e ia correr a pé no antigo circuito automobilístico da Gávea, com suas subidas e descidas, e só depois de tudo isso, que era feito inclusive nos dias de corridas, ele ia embora. Em função disso, era verdadeira máquina de tocar os seus pilotados na reta final, com luta entre cavalos iguais, sempre ganhava o Ulloa. De olhos puxados, sempre sorridente, Ulloa era um espetáculo à parte. Repito, Rigoni entendia ser ele o número um.
A antítese do atlético Ulloa, era Francisco Irigoyen. Notívago, boêmio, não ia regularmente trabalhar os cavalos de manhã. Era comum, após correr um páreo, ter que ser amparado, ajudado para desmontar e chegar à balança para a repesagem. Tudo encerrado, atirava–se em uma cadeira literalmente extenuado. Mas montado, era um príncipe, cabeça notável, noção perfeita no percurso, era um prazer vê–lo montar e tentar adivinhar o que se passaria na cabeça dele no percurso. Ele gostava mesmo era de festas, de bebidas, de mulheres, e isso dava a ele uma grande alegria, uma afabilidade, uma simpatia enorme. Ele não escondia, costumava dizer sempre "no me gusta la hípica, me gusta bailar".
Luiz Diaz tinha dois detalhes importantíssimos para a sua profissão. O grande ponto negativo era seu tamanho e peso. Tinha que tirar muitos quilos para conseguir montar com 58 quilos, passava fome, vivia em saunas, era um sofrimento. Mas por outro lado, tinha uma noção fantástica da velocidade. Não usava, e eu acho que nem tinha, cronômetro. O treinador pedia a ele um trabalho de distância, dizia o tempo que gostaria, e o Diaz trazia entre 1/5 a mais ou a menos, sem relógio. Ficou famoso um episódio em que, ao voltar da raia após um trabalho, antes de saber o tempo marcado pelo treinador, pedir desculpas por ter–se enganado, havia feito 2/5 a mais, o que o cronômetro do treinador confirmou. Pode parecer mentira, mas testemunhas asseguram a veracidade. Se ele não tivesse o problema do peso, teria sido um assombro.
Emidgio Castillo era de grande eficiência, valente, brigador, competitivo. Castillo era sinônimo de muita tocada, de luta, era um jóquei muito eficiente.
E no meio dessas "feras" chilenas, Luiz Rigoni. É por essas e outras que se pode afirmar, não só pelas vitórias, como pelas formas como elas foram conseguidas, que Rigoni foi o melhor jóquei brasileiro de todos os tempos.
Depois dessa época, em torno de 1950, antes e depois, surgiram outros muito bons, como o brasileiro Antônio Bolino e o chileno Gabriel Meneses. Mas aí já é outra história.
por Milton Lodi