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Fevereiro | 2007

As novas manhãs da Gávea
27/02/2007 - 21h01min

Rafael Cavalcanti

Bombril, crescem o mato e o descaso

Madrugada no Rio. Dia de trabalho no prado antes do amanhecer. Treinadores de olhos fixos em seus pupilos e cronometristas atentos às setas de distância lotavam a Tribuna dos Profissionais. Jóqueis disputavam a preferência de montarias; jornalistas corriam em busca das melhores informações e aprontos. Cavalos formavam uma fila indiana em direção ao prado.

Essas são cenas que se foram com o tempo!

Eram assim as matinais do turfe carioca desde os primeiros dias da inauguração da Gávea, em 1926. Mas o momento ruim da atividade, além do envio dos melhores cavalos para os centros de treinamento, diminuiu muito a agitação das primeiras horas da manhã.

Nos últimos anos, mais duas alterações mexeram de modo radical na rotina do treinamento: a interdição do bombril, pista auxiliar para treinos que circunda a sede social, em 2002; e a passagem aberta na reta oposta, na raia de grama, para o acesso dos animais às pistas de areia.

Na época, a segunda mudança pareceu uma espécie de “cala–boca” para os profissionais, principalmente àqueles que ficaram órfãos do bombril. Mas hoje, passados cerca de cinco anos, a aceitação é grande entre os treinadores,
pela proximidade das cocheiras. O prado, deserto como nunca, agora, concentra–se ali!

O fechamento do bombril

No início de 2001, a administração do Jockey Club Brasileiro vinha recebendo inúmeros protestos de sócios. Eles argumentavam que o fluxo de cavalos e profissionais tirava a privacidade, principalmente dos usuários da piscina. A pista foi interditada para obras e nunca mais reabriu.

O prefeito César Maia, em resposta ao descaso com o turfe, tombou todas as pistas do clube (D.O. do dia 11 de agosto de 2003), inclusive o bombril, de grande utilidade para cavalos em fase de iniciação às corridas, os com balda e até para os que se recuperavam de lesões, entre outros. Por isso o nome, numa alusão à eficiente esponja de aço – 1001 utilidades!

Até hoje existe a promessa de reforma e entrega da pista aos profissionais, mas o estado da raia é precário. Hoje, ela serve de passagem para caminhões de carga, que trazem mantimentos para o clube recreativo e para o restaurante que nele funciona, e até de estacionamento. O turfe perdeu a briga dentro da sua própria casa.

– Vejo essa questão com muita tristeza, pois foi uma das reivindicações dos profissionais. O bombril sempre mostrou–se fundamental. Hoje, virou estacionamento de um restaurante aberto ao público. Muitos clubes têm seus restaurantes exclusivos para os sócios, mas este daqui não, analisa José Carlos Fragoso Pires, presidente do JCB em duas gestões, um apaixonado turfista e importante criador.

Uma porta de entrada e um novo tempo no treinamento

Com a pista auxiliar interditada, procurando, principalmente, amenizar a insatisfação dos profissionais, foi aberta na raia de grama da Gávea, bem próximo à entrada do bombril, um acesso às pistas de areia, evitando a longa caminhada dos animais (e cavalariços) das vilas até o prado.

Uma arquibancada foi construída para os treinadores acompanharem os trabalhos de seus pensionistas e, em pouco tempo, o local virou mania, apesar de mal se enxergar os metros finais da reta de chegada.

Treinador experiente, com mais de 3 mil vitórias, Alcides Morales, o “Parrudo”, diz que a nova passagem pouco alterou a sua rotina nas matinais e que continua
a freqüentar o prado e a Tribuna dos Profissionais. “Para os cavalos já corridos, marcamos os parciais daqui e fazemos os finais na reta oposta mesmo. Os exercícios são mais pra manter a forma física. Agora, com os melhores cavalos e os potros eu subo ao prado a fim de ver de perto o arremate dos treinos e examinar os animais logo após o retorno da raia, explica. Sobre o bombril, porém, faz um alerta: “Perdemos uma pista muito importante. Agora ela parece mais um lixão, uma vergonha”, diz.

Para o treinador Orlando Silva, o Landinho, o fechamento do bombril representa uma grande perda para o turfe. “Era essencial para cavalos que não podiam trabalhar forte, os mais doídos”, comenta. Sobre a nova passagem,
ensina: “Daqui nós marcamos as parciais com mais precisão, porque estamos pertos. Mas os metros finais, temos de calcular. Ir ao prado hoje é correr o risco de não ter jóquei para trabalhar”, brinca.

Outro que adotou a arquibancada da reta oposta foi o experiente Paulo Salas. “A nova passagem só trouxe benefícios para os treinadores. Principalmente porque os cavalos estão próximos da raia, não precisam caminhar tanto, assim como para os treinadores”, entende.
 
Se para o treinamento dos cavalos a passagem na reta oposta trouxe uma mudança apenas de costume, a interdição do bombril ainda vai dar muito “pano para manga”. O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, através da 1ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva – voltada à "Proteção ao Meio Ambiente e Patrimônio Cultural da Comarca da Capital" – instaurou em maio de 2006 um Inquérito Civil Público para apurar o descumprimento, por parte do Jockey Club Brasileiro, do ato que tombou o bombril.

Resta esperar para ver o próximo capítulo dessa história. Que o turfe não perca o embate mais uma vez dentro de casa e que o bombril possa voltar a servir aos cavalos, principais astros de um Jockey Club.

por Rafael Cavalcanti



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