Há muitos anos, o Jockey Club de São Paulo recebeu um convite para mandar dois representantes ao Club Hípico de Santiago, onde seria corrido o Clássico El Ensayo, 1ª prova da tríplice coroa chilena. As outras duas provas seriam corridas, como tradicionalmente, no Sporting Club de Valparaiso, em Viña del Mar, e no Hipódromo Chile, em Santiago mesmo. Três provas distintas, em hipódromos diferentes. Por sorteio, o meu amigo Bernardo Teixeira Vianna e eu fomos os indicados.
Cidade bonita, o hipódromo do Club Hípico com pista de grama e com corridas no sentido contrário (reta final da direita para a esquerda), a do Hipódromo Chile exatamente ao contrário (raia de areia e reta final da esquerda para a direita), e de Viña del Mar no estilo tradicional (raia de grama e reta final da esquerda para a direita). Habitualmente, pelo menos àquela época, o vencedor do El Ensayo era imediatamente comprado pelos norte–americanos. Na véspera do páreo, fomos visitar dois ou três haras, todos com exuberantes pastagens, criação à base da rusticidade, água calcinada, resultando em forte estrutura óssea, eguada de padrão médio, e garanhões (pelo menos à época) decepcionantes, normalmente cavalos argentinos que não haviam atingido o primeiro plano. O garanhão do haras que no dia seguinte veio a vencer o El Ensayo, era um alazão argentino, de padrão "handicap", que interrompera sua campanha nas pistas por uma grande fratura em um anterior, que era muito visível. O Chile é um país rural, de terras e águas ótimas, e que a exuberância do capim resultava em rodízio mensal dos cavalos em piquetes em que eram soltos alternadamente, a cada mês, cavalos e bois.
Em Santiago, por ótima coincidência, encontramos hospedados no mesmo hotel, os criadores paulistas Restom Lahud, o "Tum", do Haras Brasil, e o W. Julio Zarzur, do Haras Eduardo Guilherme, e no dia seguinte ao El Ensayo, na 2ª feira, véspera da volta, fomos circular pela cidade. Após compras aqui e ali, poucas, mas sempre compras (afinal, além dos quatro homens, havia as respectivas mulheres), chegamos a uma boa loja que vendia rádios de pilha, que era novidade à época. O Julio se encantou com um, resolveu comprar. Mas o rádio não funcionava, estava sem pilhas. O Julio disse que queria o rádio com pilhas, a vendedora não podia vender o rádio com pilhas, pois na loja não havia pilhas. A negociação foi ficando difícil, a vendedora explicava naturalmente em espanhol, que o rádio era vendido sem pilhas, que deveriam ser compradas na loja ao lado. O Julio, que fazia o tipo "caipira paulista", com sotaque diferente, suspensórios à mostra, etc, não sei se de brincadeira ou a sério, cada vez se mostrava mais indignado, mais inconformado, e em um português acastelhanado ou um espanhol esfarrapado, dizia não aceitar um rádio de pilhas sem pilhas.
A vendedora estava em apuros, e foi aí que surgiu a dona da loja, uma senhora bem vestida, sorridente, bem–educada, que assumiu de pronto a posição de vendedora e logo perguntou:
– Parle–vous français?
Resposta: Não
– Parla italiano?
Resposta: Não
– Do you speak english?
Resposta: Não
E ante o olhar desanimado da senhora e atônito de todos nós, o Julio arrematou: "mas falo árabe"!
por Milton Lodi