Thomaz Teixeira de Assumpção Júnior, era um dos mais antigos sócios do Jockey Club de São Paulo. Apaixonado pelo turfe, começou no prado da Mooca e terminou os seus dias no prado em Cidade Jardim. Foi starter, handicappeur, foi tudo. Na verdade, na área turfística, era a alma das corridas, com suas tabelas de distâncias, suas chamadas semanais, preparo do calendário clássico, assistia o desenrolar dos programas como assessor da Comissão de Corridas. Como egresso de tradicional família, tinha amplo trânsito entre aqueles que investiam no turfe, e o seu contacto diário com os profissionais do turfe criou um bom apoio na formação dos programas e no dia a dia das vilas hípicas.
Homem de confiança dos sócios, dos proprietários, das diretorias e dos profissionais, a ele iam os problemas mais delicados. Em casos de suspeitas de eventuais fraudes, em confrontos de interesses entre proprietários e profissionais do turfe, insuflados por sindicatos e organizações esquerdistas, "Seu" Thomazinho era sempre peça importante no apaziguamento e na pacificação. Não é à toa que um busto dele, foi colocado e está no paddock do Hipódromo de Cidade Jardim. Sério mas cordial, severo mas humano, ouvia todos com a maior atenção e só falava o necessário, e com os mais chegados era muito boa companhia. "Seu" Thomazinho foi uma das mais importantes figuras do turfe paulista.
Como o grande responsável pela parte técnica da Comissão de Corridas, ia anualmente ajustando o calendário clássico. E foi assim que ele teve a idéia de criar o Derby Sul–Americano.
Na primeira semana de maio, data tradicional do Grande Prêmio São Paulo, foi programado o tal páreo para produtos de 3 anos de idade, em 2.400 metros, com especial dotação, e com o Jockey Club de São Paulo recebendo cavalos e gente do turfe do Uruguai, da Argentina, do Chile, acho que também do Perú, um sucesso indescritível. O turfe paulista atravessava ótimo momento financeiro e de realizações, grande publicidade, grande público, gente de todas as partes, lotando o hipódromo.
Mas houve um problema quando da apresentação da novidade. Após o enunciado "Derby Sul–Americano", vinha entre parênteses "Grande Prêmio São Paulo". Quer dizer, o tradicional Grande Prêmio São Paulo, para produtos de 3 e mais anos, passava a intitular–se Derby Sul–Americano e naturalmente, só para os 3 anos de idade. Aprovação geral, idéia muito bem recebida e aprovada por todos, menos por Nelson de Almeida Prado, que fez ver ao irmão, João Adhemar, então presidente do JCSP, que o "crack" deles, ADIL, já tri–campeão da prova, ficaria impedido de ganhar pela 4ª vez, um feito que ficaria na história, para dificilmente ser igualado.
Haveria uma solução para o caso, bastaria que o GP São Paulo cedesse a sua tradicional data para o novo páreo em sua habitual primeira semana de maio, e se instalasse na primeira semana de outubro, naturalmente para os 3 anos e mais. Mas isso não foi levado em conta, a euforia com a novidade era geral.
O Dr. João Adhemar naturalmente entendeu da razão do irmão Nelson, mas com a sua habitual imparcialidade e cuidado em não ser entendido como parcial em causa própria, apenas disse que ia deixar que os acontecimentos se desenrolassem ao natural, e que a euforia geral daquele momento não seria de longa duração, e que as coisas voltariam à tradição, o que não resolveria o caso do ADIL, mas essa era a forma como ele encarava o problema.
O êxito foi estrondoso, durante 5 ou 6 anos o Derby Sul–Americano foi um fantástico sucesso. Com o correr do tempo, as situações foram se modificando, e aquele especial páreo, vencido entre outros por animais de exceção como EMERSON e DULCE, simplesmente morreu.
E tudo voltou a ser como era antes e é agora.
por Milton Lodi