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Dezembro | 2006

Casos do Bolino (lll), por Milton Lodi
05/12/2006 - 19h48min

Ao correr dos 35 ou mais anos em que ANTÔNIO BOLINO montou preferencialmente para mim (com dois "empréstimos", um para o Haras Rosa do Sul e outro para o Haras Malurica), embora o BOLINO tenha temperamento reservado, quieto, muito mais de ouvir do que falar, é claro que coisas curiosas aconteceram.

A) Havia pouco tempo que eu transferira os meus cavalos, na Gávea, para o excelente treinador Expedito Coutinho, e inscrevemos o cavalo GIULIANO para correr a primeira prova da tríplice coroa, à época, o GP Outono. O Expedito e o Bolino, que se davam pessoal e profissionalmente muito bem, estavam muito entusiasmados, o cavalo era muito bom e tinha trabalhado suave em tempo excepcional. Havia uma forte parelha favorita, e a idéia era correr perto, enfrentar a parelha sem medo, o potro tinha tudo para ganhar. Dada a partida, o GIULIANO tomou a ponta e foi cada vez mais aumentando a diferença, vencendo longe e fácil com o BOLINO sempre imóvel, quieto.
 
O Expedito quase enlouqueceu, abraçava fortemente o BOLINO, e ao mesmo tempo ria e chorava (não me lembro de ter visto isso outra vez). Perguntei ao BOLINO sobre aquela "joqueada" sensacional, pegando todos de surpresa ao tomar resolutamente a ponta e logo fugir, deixar correr. A resposta foi simples, típica da modéstia do BOLINO, ele disse que no alinhamento a barbela do freio havia saltado do gancho, e sem tempo para colocá–la no lugar, ele só pôde apoiar o cavalo e deixar por conta dele. Ele, como jóquei, pouco havia feito, o mérito era só do próprio GIULIANO, que correu como bem entendera.
 
A modéstia do BOLINO sempre foi do tamanho de sua classe e qualidade.

B) O BOLINO havia vencido um importante Grande Prêmio de final tumultuado, havia o evidente propósito da Comissão de Corridas em desclassificar o seu cavalo, mas não havia como, o filme da corrida não dava margem para isso, e o páreo teve que ser confirmado contra a vontade da Diretoria do Clube. Pouco tempo depois, o BOLINO voltou ao Hipódromo da Gávea para montar. Quando os jóqueis estavam aguardando a chamada para montar, irrompeu sala adentro, um diretor do JCB, e de modo rude, pediu ao BOLINO o chicote dele, olhou bem, e disse que com aquele chicote ele não poderia montar, ele era muito longo, fora dos padrões permitidos. Com tranqüilidade, o BOLINO dirigiu–se ao Goncinha (G.F.Almeida) e disse que ele ia precisar de outro, pois aquele que ele tinha emprestado, não servia. O Goncinha, disse na hora, que aquele chicote recusado, era habitualmente usado, estava rigorosamente dentro dos padrões da Gávea. O tal diretor ficou desconcertado, largou o chicote e foi embora sem graça, pelo papel ridículo. O chicote era mesmo do Goncinha, emprestado, pois o BOLINO, quando viajava, não levava chicote, preferia pedir um emprestado.

C) Foi num sábado, 28 de maio de 1960, no Hipódromo de Palermo, em Buenos Aires. No primeiro dos três páreos em que participariam animais brasileiros, BOLINO venceu com ELISABETH, uma prova para éguas, em 1.000 metros. Correra em 2°, vigiando a grande favorita MEDINA, que corria pela última vez na Argentina, já que estava em fase de exportação para os Estados Unidos, e faltando cerca de no máximo 150 metros, arrancou em violenta atropelada para vencer por mais de um corpo livre. O BOLINO estava já no vestiário, trocando de roupa, quando entrou IRINEU LEGUISAMO, o maior ídolo das pistas argentinas em todos os tempos. Na saída, cercado pelos jornalistas, LEGUISAMO disse que tinha ido cumprimentar o jóquei vencedor, que mostrara muita qualidade, e estava surpreso, em lugar de encontrar um profissional maduro, tarimbado e experiente, encontrara um jovem, com um futuro imenso. BOLINO tinha 20 anos de idade.

D) Em Cidade Jardim, saiu um páreo, se não me falha a memória, em 1.800 metros na areia, uma Prova Especial (ou Extraordinária) com 4 concorrentes, coincidentemente, os quatro de criação do Haras Ipiranga. O melhor era INTERLAGOS, cavalo clássico, vendido quando potro, e que dava boa vantagem de peso aos outros, KING LAWRENCE, o de menores possibilidades e também vendido, e a parelha KING SUN e KING SCOTCH, que eu não vendera. KING SCOTCH, com o BOLINO, era a segunda força, e KING SUN, com EDUARDO LE MENER FILHO, um bom faixa. A natural estratégia da corrida era aproveitar a vantagem de peso dada pelo INTERLAGOS, mas não era tarefa fácil. O BOLINO e o LE MENER conversaram com o treinador J.S. SOUZA, o "Zé Pinto", e foram para a raia. KING SCOTCH foi sofreado para um percurso poupado, que era conveniente para o INTERLAGOS com a sobrecarga, enquanto KING SUN foi resolutamente para a ponta, livrando uma boa vantagem e depois se acomodando bem na frente. KING SCOTCH, seguro pelo BOLINO, e sempre acompanhado de perto pelo INTERLAGOS. KING LAWRENCE foi último da largada à chegada. O páreo só se modificou quando, pouco antes da entrada da reta, KING SUN foi acionado e aumentou ainda mais a diferença. INTERLAGOS sempre perto de KING SCOTCH, e quando o seu jóquei percebeu a manobra da parelha, que era para o KING SUN ganhar de ponta a ponta, já era tarde, não dava mais para ganhar. INTERLAGOS, em função da vantagem de peso que dava aos adversários, terminou em 3°, pois KING SCOTCH conseguiu ultrapassá–lo. O BOLINO, que montava o principal competidor do INTERLAGOS, fez uma corrida para favorecer o seu faixa. A montagem do páreo, as características dos cavalos e a categoria dos dois jóqueis da parelha neutralizaram a maior força do páreo, pois se o INTERLAGOS fosse ao encalço do KING SUN, certamente não resistiria à atropelada do KING SCOTCH, bem mais leve. BOLINO, um mestre.
 
Voltarei oportunamente com mais casos do extraordinário jóquei.



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