Já ouvi muita gente boa dizer que as éguas só podem ser cobertas a partir de 15 de agosto, conforme os regulamentos. Não é verdade, o criador pode determinar a data que lhe aprouver, naturalmente se a égua está receptiva. O problema é que, aí sim, há a data de 1° de julho que determina a mudança de idade de todos os PSI nascidos no hemisfério sul. Assim, um potro que tenha nascido em 30 de junho, a rigor, fará um ano no dia seguinte ao do nascimento. Já houve muitos problemas, por desrespeito ao tal 1° de julho.
Havia um veterinário no Rio, homem honesto, aplicado, de confiança, mas de poucas luzes, que atendia alguns haras na área de Teresópolis, e além disso fazia em nome do Stud Book Brasileiro a necessária fiscalização. Em 30 de junho, chegou a um haras em que prestava serviços, e encontrou um potro que nascera havia pouco. Conforme o seu feitio, registrou no Stud Book o nascimento do potro na data real. É claro que foi demitido do haras.
Há muitos anos, as coberturas eram feitas visando nascimentos o possível bem antes de 1° de julho, a fim de que os potros já estivessem mais desenvolvidos às épocas das "pencas" e também dos leilões. A fiscalização rigorosa do SBB praticamente acabou com isso.
O raciocínio normal, ante a única determinação de data da mudança da idade, 1° de julho, é o seguinte: o produto normalmente nasce desde 15 dias antes, até 15 dias depois de 11 meses de gestação, e uma cobertura em 15 de agosto, deverá resultar em nascimento entre 1° e 30 de julho. Como a natureza é muitas vezes caprichosa, há eventuais atrasos ou adiantamentos, a fiscalização do SBB vai até aproximadamente 25 de junho, dando margem a um imponderável nascimento nos últimos dias de junho e permitindo ao criador um ajuste na data do registro do nascimento.
Esse ajuste não é condenável, pois não são dois ou três dias antes de 1° de julho que farão quaisquer diferenças. Diferenças haviam quando eram premeditados nascimentos até para 4 meses antes, com comprovada má fé.
Alguns criadores abusam um pouco, em lugar de iniciar as coberturas a partir de 15 de agosto, antecipam um pouco, muitas vezes para aproveitar o chamado "cio do potro", que vem aproximadamente uns 8 dias após o parto. Fazem mal, pois arriscam sem necessidade, e até poderiam não aproveitar aquele cio para dar mais um tempo para a égua se limpar e ainda em época boa ser então coberta. Mas isso vai da cabeça de cada um (até que aparece a fiscalização e as coisas se compliquem).
Outro assunto curioso é a mania que tem alguns treinadores, uns poucos na verdade, de levarem vantagem nos dias de muita chuva e lama. Partindo do princípio de que há margem dada pelo Código Nacional de Corridas de até 500 gramas para menos na repesagem, e ainda que chuva e lama chegam a aumentar o peso do selim mais o do jóquei em muitas vezes mais do que um quilo, os treinadores encilham os seus animais com menos peso do que o determinado no programa. Essa "vantagem", essa "malandragem", já resultou em casos indesejados, pois o dia era muito quente, fazia muito calor, e o cavalo ganhou de ponta a ponta, com o jóquei perdendo uns tantos gramas, sem receber um pingo de lama, e em momento em que a chuva não caía. Já saiu com menos peso que o determinado, o jóquei ainda perdeu mais, não houve qualquer acréscimo de peso na farda nem no material, e o resultado foi a desclassificação. Essa grande malandragem, não passa de uma grande burrice.
Há muitos anos, quando do regime de força implantado no Brasil, os líderes do turfe paulista entenderam da possibilidade de uma intervenção no turfe, que na realidade nunca houve, mas que propiciou a fundação da Sociedade de Criadores e Proprietários de Cavalos de Corrida de São Paulo, que seria um reduto dos criadores e proprietários. Os anos se passaram, a Sociedade teve muitas glórias, e terminou sendo injustamente sepultada. Mas em seus grandes momentos, criou a Taça de Prata, que nasceu de uma idéia trazida da Venezuela por Vicente Mola Neto. Os anos foram se passando, e o regulamento, à base da experiência e do bom senso, foi sendo melhorado, aperfeiçoado, até um texto definitivo da melhor qualidade, adequado, tudo de bom. Mas a Associação Brasileira, que "perfilhou" a Taça de Prata com a absurda "morte" da Sociedade, entendeu fazer drásticas alterações, que até agora não surtiram bons efeitos. Vamos torcer para que volte o grande sucesso.
A Copa dos Criadores, antiga Copa ANPC, tinha como um dos seus pontos fortes, a alternância anual entre o Rio e São Paulo. Sem quaisquer motivos, foram feitas alterações no processo, e para surpresa geral coube a São Paulo fazer dois anos consecutivos, um ato rigorosamente sem sentido. Eu achei que essa nova atitude representaria para a Associação verdadeiro suicídio, já que o dinheiro que movimentava o evento vinha basicamente da venda das coberturas doadas pelos criadores de Bagé, núcleo criacional onde se fixaram, em sua maioria absoluta, haras de propriedade de residentes no Rio. Bastava que esses, insatisfeitos com a quebra do regulamento e suas conseqüências, resolvessem em conjunto não doar mais as coberturas para a Associação, reduzindo enormemente a grandeza do evento, e ainda, propiciando festival diferente, mas no mesmo sentido, uma "Breeders’ Cup" à brasileira, tendo como palco anualmente, o Hipódromo da Gávea. O injusto golpe recebido de São Paulo se transformaria em invejável sucesso. Eis que, após São Paulo sediar a Copa em 2005 e 2006, surge nova surpresa, a notícia de que o Jockey Club Brasileiro e a Associação Brasileira teriam se acertado para a programação do evento em 2007 na Gávea.
Agora surgem várias perguntas:
Terá o Jockey Club de São Paulo se mostrado incapacitado para promover o evento, em 2007 ou até em definitivo, e teve que ceder a vez?
Terá o Jockey Club Brasileiro o mesmo direito dado ao Jockey Club de São Paulo de promover o evento dois anos seguidos?
Terá a Associação Brasileira apenas garantido a programação do evento no próximo ano, tendo em vista a atual fragilidade financeira do Jockey Club de São Paulo?
Terá o Jockey Club de São Paulo desistido de vez de promover a Copa?
Terá o Jockey Club Brasileiro conseguido o que pretendia indo à Associação e exigindo do seu regulamentar direito à promoção?
Vamos aguardar.
por Milton Lodi