1994. Ano épico do Much Better
Já se passaram 26 anos. O tempo é inexorável. Em 1994, o turfe brasileiro navegava em águas tranquilas. Grandes investimentos em leilões. Alguns proprietários emergentes tentavam rivalizar com as fardas tradicionais. O Stud TNT, de Gonçalo Borges Torrealba, era o mais audacioso. Um investidor voraz e portador de grandes sonhos. O seu cartão de visita, um ano antes, foi contratar Jorge Ricardo para ser o seu jóquei oficial. Seduzido por um contrato digno de um astro de futebol, o melhor jóquei do Brasil deixou a gloriosa farda do Haras Santa Ana do Rio Grande. Era o início da formação de um "dream team" de profissionais de turfe.
O primeiro contratado do Stud TNT havia sido o jovem treinador, João Luiz Maciel dono de rara inteligência e sensibilidade, ao saber dos objetivos ambiciosos do patrão, ele logo lhe disse: "O senhor deveria contratar o Ricardinho. Ele será meio caminho andado na raia. Afinal, precisaremos concretizar com sucesso os nossos investimentos na pista e lá ele é o melhor do país. Sempre focado e disciplinado", argumentou. Assim foi feito. Para fechar o pacote era preciso outra peça chave. Um veterinário competente e capaz de manter saudável um plantel de puros sangues caros e de categoria internacional. Flavio Geo Siqueira foi escalado. Com esses três mosqueteiros começou a ser escrita uma história de glória.
Só faltava a cereja do bolo. No romance de Alexandre Dumas haviam os tres heróis Athos, Porthos e Aramis, então bem substituidos por Ricardinho, João Maciel e Flavio Geo. Porém, não tinha aparecido D’Artagnan, o quarto mosqueteiro. Por capricho do destino, um leilão realizado no Paraná, ele surgiu na figura de um cavalo de corrida. Chamava–se Much Better, filho de Baynoum e Charming Doll, criado no Haras J.B.Barros. O encontro desses quatros maravilhosos personagens, três homens e um cavalo, proporcionaria aos turfistas sul–americanos algumas das mais belas páginas da história do esporte.
Latino
Em março de 1994, no hipódromo de La Plata, na Argentina, Much Better, conquistou o Clássico Associação Latino Americana de Jockeys Clubes, derrotando por cabeça o chileno Enfático, e o outro craque nacional, Romarin, perto deles, em terceiro. Era o pontapé inicial de quatro vitórias das mais importantes provas do turfe sul–americano. Todas no mesmo ano, num feito jamais igualado por outro puro sangue do continente.
GP São Paulo
João Luiz Maciel e Jorge Ricardo queriam muito vencer o GP São Paulo pela primeira vez. Much Better havia se recuperado bem da viagem à Argentina e era o grande favorito. Quis o destino que o triunfo acontecesse em um dos dias mais tristes do esporte brasileiro. Pela manhã, em um trágico acidente, havia morrido Ayrton Senna, maior ídolo da F–1 de quem Maciel e Ricardo eram fãs incondicionais. Num hipódromo de Cidade Jardim, em estado de choque, Much Better confirmou sua classe e favoritismo. A vitória na mais importante prova do turfe paulista não teve grandes comemorações pelo staff do Stud TNT.
GP Brasil
Much Better manteve o estado atlético e chegou no GP Brasil na condição de maior estrela do espetáculo. Me lembro de ter dito aos colegas da redação, do Jornal do Brasil, que ele seria o nosso adiantamento do décimo terceiro salário. Para Ricardinho era a chance de chegar a segunda vitória no GP Brasil. Ele havia desencabulado dois anos antes com Falcon Jet. João Maciel tentava ganhar a prova pela terceira vez. Havia vencido anteriormente com Carteziano, em 1988, e com o próprio Falcon Jet, em 1992. Numa direção tranquila de Jorge Ricardo, Much Better ganhou com autoridade e pagou R$1,9.
GP Pellegrini
Much Better voltou à Argentina, em dezembro, precedido de grande notoriedade. Não era mais o surpreendente forasteiro, do início do ano, que havia ganho o Latino em La Plata. Neste espaço de tempo havia colocado em seu currículo dois triunfos nas provas mais importantes do seu país, GP São Paulo e GP Brasil. No meio dessa caminhada, o craque do Stud TNT, esteve em Paris, onde foi décimo quarto colocado no GP Arco do Triunfo. E de volta ao Brasil, vinte um dias depois perdeu na fotografia a Copa ANPC em tempo recorde para Fantastic Dancer. Um cavalo de ferro! Apresentado em forma exuberante por João Maciel e contando com direção principesca de Jorge Ricardo, Much Better colocou seu nome na seleta galeria de vencedores do GP Pellegrini. Estava encerrada a trajetória do inesquecível campeão, no ano de 1994. Dois anos depois, março de 1996, aos 6 anos, três meses antes do falecimento de João Maciel, Much Better seria bicampeão do Latino Americano na Gávea. Porém, esta é uma outra história ...
por Paulo Gama