Nada mais difícil nesta vida do que desempenhar o papel de coadjuvante. A joqueta gaúcha, Lu Andrade, voltou a se acidentar na reunião da última sexta–feira, na Gávea, ao cair da égua Deshabillé. O drama vivido pela jovem seria destaque até mesmo em meios de comunicação não turfísticos se ela fosse uma das estrelas da companhia. Mas, Luciene Andrade é apenas uma menina humilde que luta para realizar os seus sonhos no ambiente preconceituoso e machista do turfe. Depois de ficar longos meses no estaleiro, devido a uma queda em que lesionou a coluna cervical com gravidade, ela voltou às pistas. Com dedicação, coragem e dificuldade, Lu Andrade recuperou a forma atlética e voltou a competir. Agora, depois de ganhar bela corrida e começar a ter minguadas oportunidades de montar azarões, ela volta a ficar afastada daquilo que mais ama na vida, a sua profissão.
Da pequenina cidade de Carazinho, no interior do Rio Grande do Sul, Lu Andrade veio tentar a sorte no eixo Rio/São Paulo. Filha de pai treinador, já falecido, e com a mãe e a avó morando no interior, ela chegou a ter algum sucesso em Cidade Jardim, onde sofreu problemas de peso nos tempos de aprendiz. Decidiu mudar de ares e tentar a sorte no Rio de Janeiro. Ganhadora por dois anos consecutivos do Torneio “Ladies Day”, quando derrotou as melhores joquetas da América do Sul, teve que encarar a dura realidade do turfe carioca. A desconfiança e as poucas oportunidades dadas por proprietários e treinadores do atual “eldorado do turfe brasileiro”. Nos treinos matinais destacou–se rapidamente. Primeira a chegar na raia e última a sair. Mas, nos dias de corrida as mesmas desculpas de sempre. “Este cavalo é bravo. Não serve para você”. Ou ainda. “Se dependesse de mim você montava por que me ajuda muito, mas o proprietário quer colocar um jóquei famoso”.
Lu Andrade já estava acostumada com esta rotina. Não ligava. A raia, pela manhã, com aquela paisagem linda do Jardim Botânico, do Horto, do Cristo Redentor, e ela em cima dos cavalos, em disparada, eram um sonho realizado. Aprendeu a amar à cidade. Fazia diariamente o que sempre sonhou, desde criança, que era montar. Por isso sentia–se feliz apesar das injustiças. Mas, havia às contas para pagar. A vaga na cocheira onde morava, as compras no mercado, o combustível do carro e do pedágio para ir aos centros de treinamento tentar novas oportunidades. Por lá ouvia as mesmas desculpas dos treinadores cariocas. Mas, era preciso tentar.
Um belo dia, a gerente de Turfe do Jockey Club Brasileiro, Maira Frederico, sensibilizada com a bravura de Lu Andrade, e sua excepcional capacidade de trabalho, me perguntou se não era possível lhe ajudar como seu agente de montarias. Aceitei a ideia como um desafio. E depois de um ano tive a minha única derrota nesta profissão. Mas não desisti dela. Não sou de desistir de coisa alguma. Ela desistiu de mim por excesso de brio. A situação financeira era difícil. Com este argumento ela encerrou a parceria. Eu ponderei que trabalharia de graça para ela. Até as coisas melhorarem. Pela nossa amizade. Orgulhosa, ela disse que não tinha cabimento uma coisa dessa. "Amizade a parte, ela era profissional."
O turfe tem mulheres guerreiras. Elas lutam diariamente contra esta desconfiança de um mundo machista. Mas, a qualidade profissional delas já ficou comprovada em várias seguimentos. Na raia, com Jeane Alves, Josiane Gulart, e a própria Lu Andrade, no treinamento com Cristina Resende, Cláudia Cury e Juliana Dias, que hoje brilha na televisão, como comentarista, na veterinária, com Bianca Cascardo, Daniela Bartoli, Cristina Vieira e tantas outras. Por causa delas e de tantas outras não citadas, decidi homenagear Lu Andrade. E fazer, por alguns segundos, todos turfistas lembrarem dela. Neste domingo, ela está sozinha na cocheira, com as duas lindas cachorrinhas, Belinha e Bebel, vendo as corridas que tanto ama na televisão. Mas, ela não vai desistir. Simplesmente por que além de ser pessoa maravilhosa é uma das mais dedicadas profissionais que conheci em mais de 40 anos de turfe.
por Paulo Gama