Na corrida noturna da última segunda–feira, dia 29 de junho de 2.015, o castanho Black Action, criado no Haras Anderson e propriedade do Stud Rodrigues da Costa, fez um galope de apresentação que classifico como um dos mais belos de toda temporada. Não parecia inscrito para correr um páreo para animais de quatro anos com três vitórias. O pelo reluzente, o ritmo frenético do galope e a leveza dos movimentos eram de um puro–sangue inscrito numa prova de grupo I. No programa oficial estava com o selo de qualidade de Roberto Morgado Júnior, o lendário Bebeto. Para minha surpresa, ao entrar no “Espaço do leitor”, do site Raia Leve leio a postagem do veterinário Alexandre Dorneles sobre a falta de resposta oficial sobre o pedido de renovação da matrícula de um dos melhores treinadores do Brasil de todos os tempos.
A simples menção da lista de grandes campeões que treinou, entre eles, os fantásticos Chapelier e Pico Central, bastaria para os responsáveis deferirem, de imediato, a matrícula. Qualquer outra resposta seria erro absurdo. Membro da família Morgado, um clã responsável pela existência de vários grandes profissionais, entre eles, Paulo Morgado, Geraldo Morgado, Roberto Morgado, Eulógio Morgado, Roberto Morgado Neto, Bebeto sofre de diabetes há muitos anos, e por isso tornou–se com o tempo deficiente visual. Apesar disso, com a ajuda da sua mulher, Lúcia, uma autêntica guerreira, que lhe acompanha no dia a dia, ele apresenta sempre os seus pensionistas em forma exuberante e com média de aproveitamento bem acima da média.
Em tempos em que se fala de luta contra o preconceito, em todos os segmentos da sociedade, não me parece de bom tom para o Jockey Club Brasileiro que a mídia venha, a saber, que neste tradicional clube hípico possa vir a ser cometido um crime hediondo contra um profissional de rara competência. Sempre de óculos escuros, Bebeto, durante anos, já esteve em inúmeras entrevistas nos jornais e nas televisões para falar das chances de seus pensionistas em provas clássicas de importância nacional. Apaixonado pela profissão, Roberto Morgado Júnior passou ao filho Roberto Morgado Neto, exclusivo do Haras Santa Maria de Araras, toda a sua sabedoria e sensibilidade no treinamento de puros–sangues. Por isso, compreendo a indignação do veterinário Alexandre Dorneles com a possibilidade do indeferimento do seu pedido de matrícula.
Por onde andam os proprietários dos cavalos que Bebeto um dia treinou com sucesso mesmo com os problemas de visão? Eles devem ficar solidários neste momento. Algo deve ser feito para evitar que um regulamento injusto priorize as coisas de forma equivocada. Bebeto fez apenas 19 inscrições no ano hípico por que possui poucos animais sob a sua responsabilidade. Se ele fosse um indivíduo que não zelasse por seus pensionistas bastava ter feito, durante toda a temporada, mais cinco inscrições, ou repiques, e teria atingido as 24 exigidas. A sua matrícula seria renovada sem qualquer restrição. Preferiu proteger a integridade física dos cavalos e só apresenta–los em plena forma atlética para competir. E, quem diria, pode vir a ser punido e impedido de exercer a profissão por causa disso.
por Paulo Gama