“Sacode a bandeira brasileira! Aporé tem dois, três, quatro, vários corpos de vantagem! Sunset na dupla. Cruzam a faixa final! Ao passarem pelo pátio de automóveis, os dois jóqueis, Juvenal Machado da Silva e Gonçalino Feijó de Almeida se cumprimentaram, num gesto tipicamente brasileiro. Vitória de Aporé, de ponta a ponta, no Grande Prêmio Brasil de 1979!”, narrava a voz inconfundível de Fernando Valente Filho, um dos melhores locutores de turfe de todos os tempos. Ainda faltavam dois anos para eu me formar em jornalismo e mais um para exercer a profissão num jornal carioca, o Jornal do Brasil. Mas a paixão turfística já corria solta nas minhas veias. E Aporé, com a farda ouro e costuras azuis com boné ouro, dos Haras São José e Expedictus, era para mim, o cavalo mais querido, montado pelo meu maior ídolo no turfe: Juvenal Machado da Silva.
Acompanhei com muito interesse a campanha do filho de Egoísmo. Estreou numa prova comum, na raia de grama, e deu um tremendo vareio. Ao meu lado, Nilson, um amigo turfista bem mais experiente do que eu, sorriu ao ouvir minha voz baixa dizer: “Esse cavalo vai ganhar o próximo Grande Prêmio Brasil”. Nilson zombou da minha profecia e lembrou que ainda faltava quase um ano para a maior prova do turfe nacional. Segundo ele, muita coisa ainda estava para acontecer, embora Aporé tenha acabado de ganhar o páreo de perdedores em grande estilo. Não dei bola para ele. Eu havia ficado enfeitiçado pela desenvoltura do craque da família Paula Machado.
Aporé fez parte de uma geração extraordinária da tradicional coudelaria. Na mesma fornada veio African Boy, que conquistou a Tríplice Coroa, e os também clássicos Amazon, Apple Honey e Aporema, entre outros. Mas Aporé, por seu estilo indomável de tomar a frente e não mais ser alcançado, teve a preferência no meu jovem coração de 20 anos. Acompanhei com interesse a sua campanha recheada de sucessos na raia leve e com surpreendentes fracassos na raia pesada. Adquiriu fama de irregular, mesmo depois de ganhar a Taça de Ouro. Mas eu sabia que era apenas uma questão de pista. Na pista seca, ele mantinha a invencibilidade absoluta.
Na semana que antecedeu ao Grande Prêmio Brasil de 1979, eu só me preocupei com os boletins meteorológicos. Não havia a tecnologia dos dias atuais, nem sites de clima e toda a sofisticação de poderosos satélites. Meus amigos achavam que eu estava ficando meio maluco porque não parava de olhar para o céu à procura de formações de nuvens ou de qualquer outro sinal de chuva. No meio da semana, eu estava fazendo um lanche no “Michel”, um restaurante de comida simples e caseira, na Praça Kubitschek, em Copacabana. De repente, entrou o Washington, um amigo gozador, que falou em voz alta. “Que droga essa chuva!”. Eu larguei o prato e os talheres na mesa e corri para a calçada com as mãos abertas para sentir os pingos caírem. Mas nada de chuva. Washington deu sonoras risadas da minha loucura.
No domingo, o Hipódromo da Gávea estava lotado de gente. Meus amigos de Copacabana apostaram na parelha Aporé e Amazon. Eu peguei as minhas pules e dei nas mãos do Carlinhos, mais conhecido como “Armação de Pipa”, porque era muito magro. “Se ganhar Amazon, pode receber o dinheiro para você. Se ganhar Aporé, você recebe para mim junto com as suas pules”, disparei. Carlinhos ainda ponderou que o Gabriel Meneses, jóquei titular do stud havia escolhido Amazon. Mas eu tinha tanta certeza no triunfo de Aporé na raia leve, em tarde de sol e céu azul de brigadeiro, que nem lhe dei muito assunto. Aporé largou e acabou, numa das vitórias mais fáceis da história da prova. Era o primeiro Grande Prêmio Brasil da série de cinco do fenômeno Juvenal Machado da Silva. Depois ainda viriam Gourmet, Grimaldi, Bowling e Flying Finn. Mas essas são outras histórias...
por Paulo Gama