O dia que Escorial bateu Farwell (*)
O melhor animal criado pelo Haras Guanabara e que vai ficar marcado na história do turfe brasileiro foi Escorial. Embora muitos jurem que Emerson foi bem melhor do que Escorial.
Acontece que Escorial ganhou o GP Carlos Pellegrini e o Grande Prêmio do Sesquicentenário da República Argentina, na época, o maior prêmio já pago a um ganhador, no turfe sul–americano. Escorial ganhou os dois e nunca perdeu por lá.
Numa das vezes em que estávamos na Argentina – já não tenho certeza se foi na primeira ou na segunda vitória –, na véspera da corrida, chovia muito forte e a raia estava encharcada. No dia, a mesma coisa. A pista não podia estar pior. Houve um boato de que o cavalo estava com diarreia, estranhando a água. Na manhã da corrida, indagamos ao Irigoyen, que nos confirmou o fato. Acreditava até que ele pudesse ser retirado.
Por volta das 11 horas, houve uma visita do veterinário e dos proprietários e o cavalo estava bem, sem febre e até, surpreendentemente, bem disposto. Então, ia correr.
O grande favorito era outro brasileiro, Farwell. Invicto em muitas corridas no Brasil, Farwell era portador de um problema crônico nos intestinos. Muito brigador, apresentava–se para brigar com quem aparecesse. Corriam 28 animais e essa foi sua única derrota.
Do lado de cá, Irigoyen seguia, em último desde a partida, colado à cerca interna e cada vez mais longe. Nos 800 metros, temíamos que não completasse o percurso. Entrou na reta em penúltimo, mais de 50 metros atrás dos ponteiros. Na longa reta de San Isidro, Escorial veio progredindo, sempre coladinho aos paus, e nos 150 metros finais, já estava na sexta posição. Ainda assim, não daria para se colocar.
Mesmo sem grande ação, tocado e exigido por Irigoyen, Escorial veio, veio, veio e, metros no disco havia livrado vantagem de meio corpo sobre Farwell. Uma carreira inacreditável. Depois do páreo, fomos ao paddock. Nunca vi cavalo tão cansado quanto o filho de Escoa. Seu peito abria e fechava, em longas respirações. Pelo que pudemos observar, havia sido uma vitória somente do grande coração de Escorial e da calma do “Pancho”, que correu uma carreira perdida.
Quando conseguiu falar, notou–se que Irigoyen também não conseguia dizer nada. Repetia somente ter sido aquela a maior surpresa de sua vida. E enaltecia Escorial, com razão, com adjetivos castelhanos de alto exagero. Um dos maiores animais – para nós, o maior – criado no Haras Guanabara, que fechou suas portas na semana passada.
(*) Texto publicado originalmente na Revista JCB, na década de 1980, por Heitor de Lima e Silva, o Bolonha
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