O grande gênio do turfe mundial, FEDERICO TESIO, dizia que "equitação é equilíbrio". Naturalmente a razão está, ou estava, com ele. Acontece que na disputa dos páreos, com os habituais percalços, troca de posições, eventuais intensos tráfegos, pois a corrida não é só um galopar de vários cavalos ao mesmo tempo, mas uma competição, o jóquei que não se colocar bem no dorso de seu pilotado perde o equilíbrio, prejudica o andamento do seu cavalo, e muitas vezes cai.
Esse é o caso de até bons jóqueis, que por estribarem muito curto, perdem o equilíbrio. Sem medo de errar, eu diria que dois dos bons jóqueis da Gávea, I. CORREA e R.D.L. SANTOS, são os que mais caem. Uma batida lateral, um tropeção, e muitas vezes não dá para se segurarem na crina ou nas rédeas, e a queda é iminente. São dois bons jóqueis, e talvez eu não errasse em dizer que quase metade, certamente pelo menos em um terço das quedas, um dos dois citados vai para o chão. E há ainda uma conseqüência natural, o "balanço" dos cavalos leva naturalmente os jóqueis de estribação exageradamente curta a usar em demasia o chicote, pois o movimento do cavalo induz um movimento de braço para ajudar no equilíbrio, e o chicote colabora para manter o jóquei na posição desejada. Eu tenho certeza de que, se os citados jóqueis, aumentassem o comprimento dos loros, teriam muito mais apoio nas pernas, não dependeriam tanto das mãos para ficar em equilíbrio, e, com certeza ganhariam bem mais, pois são bons profissionais. Na Gávea há outros com o mesmo "vício", E. FERREIRA, que não sei como mantém–se muito bem equilibrado quase que sem o apoio dos estribos, e A. GULART, muito ganhador e ao qual atribuo sua firmeza na sela pelo menos em parte à sua grande força muscular.
Um exemplo de estribação adequada é J. RICARDO, pois quantas vezes seu pilotado tropeça, por um motivo qualquer se desequilibra e por pouco não vai ao chão, e RICARDO não cai (quando cai, o cavalo cai com ele). RICARDO é um atleta, quase não usa o chicote, e quando o faz não é para castigar, mas para visivelmente incentivar o seu cavalo. RICARDO sabe que o uso indevido do chicote provoca uma reação de defesa pelo cavalo, e ele se "encolhe", deixa eventualmente de melhorar para se defender. O equilíbrio de RICARDO é um dos seus muitos pontos fortes.
Há muitos anos, uma revista argentina especializada em turfe publicou um desenho, que reproduzia uma fotografia de um cavalo correndo, montado por I. LEGUISAMO. Só para se ter uma idéia das qualidades desse fantástico jóquei, basta lembrar que era o ídolo do lendário L. RIGONI. Sabe lá o que é isso? LEGUISAMO montou e ganhou corridas com até mais de 70 anos de idade, e no tal desenho foi riscada uma linha que ia do centro da cabeça do jóquei até o centro de gravidade do cavalo, a cernelha. Metade do corpo do LEGUISAMO ficava à frente da linha, e a outra metade atrás. Ele mantinha o seu corpo em total equilíbrio no centro de gravidade do cavalo. Estribava longo, e seu movimento com o braço do chicote era rápido, só para alertar e não desequilibrar o peso no lombo do cavalo.
Há um jóquei veterano em São Paulo, R. PENACHIO, que ganhava muito. Estribava muito curto, e batia muito. Certa vez foi chamado pela Comissão de Corridas, pois um filme mostrava 36 chicotadas na reta. Ele se defendeu dizendo que o chicote batia na manta, em sua bota, e pouco na anca do cavalo, o uso do chicote daquele jeito era para manter–se em equilíbrio, e não para castigar. Ele estava com a razão, ele precisava da movimentação do braço do chicote para manter–se em equilíbrio, que era quase impossível com ele encarapitado no selim, rigorosamente no centro de gravidade do cavalo, com estribação exageradamente curta.
Cada jóquei tem que procurar sua melhor estribação, buscando a possível melhor acomodação no selim em função do equilíbrio.
Na Europa, berço das corridas de cavalos, no princípio os bons jóqueis estribavam longo, mas com o correr do tempo os loros foram sendo diminuídos. À época de ouro do turfe francês coincidiu com jóqueis de boa cabeça, de péssimas posições e gesticulação exagerada e contraproducente. YVES ST. MARTIN, um dos melhores jóqueis franceses de todos os tempos, revolucionou as corridas francesas com uma estribação adequada, nem longa nem curta, e os grandes jóqueis da época começaram a alterar o jeito de montar, com menor gesticulação, mais sobriedade, mais "equitação".
Na Gávea, há muitos anos, os irmãos do Stud Chamma conheceram um árabe, que viera ao Brasil para tentar a vida. Dizia–se jóquei. Começou a trabalhar os cavalos, tinha muita noção de equilíbrio, mas na hora de correr era um desastre, se sacudia todo. Sabia montar, mas não correr. Teve muito pouco tempo no turfe da Gávea.
Quando o meu pai trouxe da Itália um lote de animais, dentre eles MANDELLO, MINOTAURO, DESTINO, UMORÍSTICO, PIGRA etc, um jóquei de lá veio tentar a sorte na Gávea. Chamava–se CARMINE REZZA. Com seu estilo italiano, de padrão técnico médio, não deu certo, era um "destoca", virou galopador de cavalos, e acabou voltando para a Itália.
Um caso de maior evidência foi o do francês MARCEL L’OLLIEROU, trazido pelo Dr. Antônio Joaquim Peixoto de Castro Júnior, à época em que o grande criador importou o SWALLOW TAIL. Não era mau jóquei, mas o seu estilo bem europeu não deu certo, acabou tendo que ir embora. O seu movimento circular com o braço do chicote deu–lhe o apelido de "Ventarola".
Tivemos no Brasil, através os anos, jóqueis argentinos, uruguaios e outros, mas fora de dúvidas, foram os chilenos que aqui marcaram época, fazendo escola. Houve um tempo em que o lendário LUIZ RIGONI, nascido no Paraná e exercendo a sua profissão na Gávea, enfrentava chilenos como O. ULLOA, J. MARCHANT, E. CASTILLO, L. DIAZ, F. IRIGOYEN, entre outros. Eram duelos memoráveis.
Em São Paulo, dentre outros bons chilenos como R. OLGUIN, R. URBINA, R. ZAMUDIO e mais alguns, brilhou intensamente por muitos anos L. GONZALEZ, um mestre, que tinha como principal oponente o paranaense P. VAZ.
Esse assunto é interminável. Hoje fico por aqui.
por Milton Lodi