Jorge Ricardo, o jóquei em atividade com o maior número de vitórias no turfe mundial, sério candidato a bater o recorde do panamenho Laffit Pincay Jr., ganhou duas vezes o GP Brasil.
Radicado agora no turfe argentino, volta a competir na grande carreira, no dia 6 de agosto, conduzindo Oakfast. A primeira vitória do campeão custou a acontecer e, depois de muitas tentativas, escolhas erradas, finalmente o sonho virou realidade, em 1992, no dorso do alazão Falcon Jet.
O pai de Ricardinho, o excepcional freio Antônio Ricardo levantou a prova apenas uma vez e entrou para a história. A vitória chegou na quarta tentativa, em 1967, no dorso da “bomba” Duraque, um dos menos apostados, surpreendendo o super craque argentino Tagliamento. Vieram, ainda, inúmeras oportunidades, mas o magistral Ricardo ficou apenas com aquele surpreendente êxito do defensor do Stud Gabriel Homsy.
Vamos recordar a trajetória de pai e filho na maior prova do turfe brasileiro.
Com Estensoro, craque gaúcho, em 1959, a primeira montaria de Antônio Ricardo, um promissor freio iniciado no prado de Moinhos de Vento, em Porto Alegre.
A primeira participação do talentoso jóquei, nascido em Santa Catarina, no GP Brasil não foi nada boa. Montando o cavalo Estensoro, finalizou na 14ª colocação, justamente no dia da quebra do recorde mundial dos 3.000 metros. Narvik, conduzido por Virgílio Pinheiro Filho, percorreu os três quilômetros em 182s3/5.
Dois anos depois, mais um resultado fraco, que não desanimou o freio.
Em 1961, Antônio Ricardo entrou na raia no dorso de Pimpinela Escarlate e, novamente, ficou fora do marcador. O argentino Arturo A, com Irineo Leguisamo, foi o vencedor. Desta vez, Ricardo quase conseguiu se colocar, pois finalizou na sexta colocação. Ele ainda iria demorar para “fazer pedra”.
Por quatro anos consecutivos, nenhuma montaria e a decepção tomava conta de Antônio. O sonho de vencer o GP Brasil parecia estar cada vez mais longe. Mas, em 1966, surgiu uma oportunidade.
Já quase desiludido, Ricardo vislumbrou a oportunidade de levantar a maior prova do turfe brasileiro. Foi convidado para montar Falstaff, num campo de 12 competidores. E, mais uma vez, nem pedra. Seu pilotado chegou em sexto, enquanto Dendico Garcia fazia a festa no dorso de Zenabre, que conquistava o bicampeonato.
E, quando menos se esperava, veio a consagração surpreendente, com pule astronômica.
No ano seguinte, 1967, Ricardo foi convidado para montar o cavalo Duraque. Sem outra opção, aceitou o convite, mas desanimou de cara, logo ao conferir o campo do páreo. Nele estava inscrito o argentino Tagliamento, que vencera o GP São Paulo em recorde. Ele mesmo relembra que decidiu ficar junto à cerca, sempre, e tentar conseguir uma boa colocação. Na reta final, quando a “máquina” argentina parecia com o páreo ganho, surgiu a brecha por dentro e Ricardo apareceu com tudo. Dominou o páreo e fez delirar o público na Gávea, que comemorou durante horas a vitória brasileira. Pule de mais de 400 (44,70 por 1), como diziam na época.
Nas seis participações restantes, destaque para o segundo lugar de Rhone, em 1971, perdendo para Terminal.
Antônio Ricardo, um dos maiores freios que já passaram pelo Hipódromo Brasileiro, competiu em mais seis GPs Brasil antes de encerrar a carreira. Na versão de 1968 chegou em terceiro, montando Dilema. No ano seguinte, com o mesmo cavalo, finalizou na 17ª colocação. Em 1970 conduziu Scipion, terminando no oitavo lugar. Em 71 formou a dupla, numa grama encharcada e debaixo de muita chuva, perdendo para o argentino Terminal, que ganhou, com Rigoni, por vários corpos. Em 72 foi décimo com Andábata e, finalmente, encerrando sua participação na grande carreira, em 1975, fechou a raia no dorso de Hawk.
A saga de Ricardinho começa em 1979, aos 17 anos, no dorso do cavalo Cap Ferrat.
Com apenas dois anos de carreira, o promissor Jorge Ricardo, filho de Antônio, tinha a primeira experiência na maior prova do turfe brasileiro. No dorso de Cap Ferrat, o jovem piloto finalizava na 16ª e penúltima colocação na carreira vencida por Aporé. Mas, era apenas o começo de uma caminhada vitoriosa. Já no ano seguinte, pilotando Maleval, foi quinto, no Brasil vencido por Big Lark. Aliás, um dos mais conturbados da história, envolvendo Dark Bown (J.Queiroz) e Baronius (G.Meneses), que tiveram um sério entrevero no percurso, enquanto o “faixa” de Dark Brown, Big Lark (A.Bolino), vencia por dentro.
Nos dois anos seguintes, um bom quarto lugar e um grande susto.
Em 1981, mais um degrau foi galgado por Ricardinho, que chegou na quarta colocação com o cavalo Leonino. Mas, no ano seguinte aconteceu um grande susto, com a tríplice rodada envolvendo os cavalos Del Garbo (A.Oliveira), Nice Boy (J.Escobar) e Latino, que era a sua montaria.
Em 1982, o campeão ficou de fora, mas, em 1983, subiu mais um degrau.
Em 82 Ricardinho não montou, porém, em 83, conseguiu a terceira colocação no dorso de Fantaisie. Nos anos seguintes, o início da rivalidade com Juvenal e as escolhas erradas. Foi sétimo com Vetorial em 84 e segundo, com Bowling, em 85. Em 86, era primeira monta do Haras Santa Ana do Rio Grande e escolheu Bat Masterson, deixando Bowling para Juvenal, que ganhou. Ricardo foi sétimo colocado. Em 88, trocou com Juvenal, mas nenhum dos dois venceu e um terceiro corredor do Santa Ana (correu na farda de José Carlos Fragoso Pires Júnior) levou a melhor: Carteziano, com Édson Ferreira. Na troca com Juvenal, Ricardo voltou a perder, pois Bat Masterson chegou em terceiro e Bowling, em quarto.
Depois, veio a “briga” Falcon Jet e Flying Finn e, finalmente, a primeira vitória.
Já mais recente, em 1990, veio a disputa que empolgou a mídia, entre Flying Finn e Falcon Jet e mais uma vez Juvenal levou a melhor. Finalmente, em 1992, foi a vez do troco e Falcon Jet deu a Ricardo sua primeira vitória no GP Brasil e sobrepujando seu incômodo rival. Dois anos depois, em 1994, a segunda vitória de Ricardo, com o craque Much Better.
Recentemente, dois segundos lugares impressionantes.
Nos últimos anos, Ricardo vem sendo o retrospecto puro da prova. Em 2003 perdeu uma corrida incrível para Lord Marcos, dirigindo Istbestand e, em 2004, montando Evil Knievel, terminou superado por Thignon Boy. No ano passado, com o mesmo cavalo, chegou na quinta colocação. Os “Ricardo”, pai e filho, legendas do turfe brasileiro, ganharam, portanto, três vezes o GP Brasil.
por Marco Aurélio Ribeiro
fonte: Retrospectiva GP Brasil / Sérgio Tapajós Gonçalves