A ida de Jorge Ricardo para a Argentina tirou do público carioca o seu ponto de referência. Em muitos páreos, o Ricardinho tinha várias montarias para escolher, e a sua preferência já se constituía uma indicação. Com o círculo vicioso dos cavalos melhores serem oferecidos aos melhores jóqueis, e os melhores jóqueis montarem os aparentemente melhores de cada páreo, Jorge Ricardo era detalhe importante na análise das carreiras, pelos turfistas.
Além desse primeiro aspecto, há o do comportamento do profissional. Comportamento profissional é um dos detalhes principais de Jorge Ricardo. Levando sua profissão a sério, vivendo disciplinadamente como um atleta de olhos fixos na sua carreira, era comum e normal montar em um mesmo programa em todos os páreos, normalmente 10, e terminar o seu dia de trabalho com a respiração normal, com o mesmo rendimento físico do primeiro ao último páreo. Em Buenos Aires, recentemente, em um programa de 19 páreos, montou em 15 e ganhou 4. Eu nunca conheci outro jóquei com tal preparo físico, quem sabe Oswaldo Ulloa, um chileno atleta e de extremo vigor físico, conseguido às custas de muito trabalho diário montando e também com atividade outras como: corridas a pé, ginástica, etc.
Sem Ricardo, veio um certo equilíbrio no novo primeiro plano. Nessa primeira faixa, na Gávea, estão a maioria dos melhores jóqueis do país. Os fatos mostram que a média do padrão de qualidade dos jóqueis em atividade na Gávea é, fora de dúvidas, a melhor. Jóqueis que saem da Gávea para outros centros mostram melhores resultados dos que vêm para o JCB.
Entre outros, estão em evidência: A. Mota, L. Duarte, C. Lavor, A. Gulart, T. J. Pereira, A. C. Silva, por exemplo, seriam, certamente, líderes de estatísticas em outros centros.
Em São Paulo, os que parecem merecer destaques seriam: W. Blandi, M. Gonçalves, N. Cunha e J. Moreira.
O conceito de bom ou mau jóquei depende do enfoque de cada turfista. Há aqueles que preferem os que correm perto, em princípio livrando–se de eventual mau tráfego, em ritmo algumas vezes mais acelerado do que o aconselhável, mas sem os naturais e eventuais percalços da competição. Há outros que preferem, ao contrário, jóqueis de percurso menos agressivo, aguardando o momento entendido como melhor para a possível aceleração.
Sem quaisquer comparações, vou citar três excelentes jóqueis e suas características:
RIGONI, de sensibilidade extrema, grande equilíbrio, calculista frio, gostava de correr atrás. É claro que, como grande jóquei, corria onde fosse melhor, e para saber se o ritmo da corrida estava suave, normal ou rápido, bastava procurar o Rigoni, pois naturalmente com um ritmo lento, ele estaria entre os primeiros no percurso, um ritmo regular o encontraria no meio do pelotão, e se violento certamente entre os últimos. Como extraordinário jóquei, ele fazia movimentos certos nas horas certas, corria pelo melhor rendimento do seu conduzido, mas ele não gostava de correr na frente, gostava mesmo de ficar atrás e atropelar no momento certo.
Outro extraordinário jóquei a ser lembrado é o JUVENAL. Tinha dons especiais que se traduziam em grande sensibilidade, corria em qualquer lugar, aparecia sempre no momento certo, mas seu maior prazer no percurso era correr na frente, exatamente o oposto do Rigoni. Dois extraordinários jóqueis, que corriam onde necessário para o melhor aproveitamento de suas montadas, mas de preferências opostas.
RICARDO é de temperamento ansioso, está sempre ligado, como os outros bons, coloca–se na posição que julga melhor no percurso, mas sua preferência é correr na frente. Montando habitualmente cavalos com boas chances de vitória, correr na frente do pelotão evita problemas, e aliando à sua técnica, um invejável e incomum estado atlético, fisicamente superior às condições físicas dos outros jóqueis seus competidores, nas grandes lutas nos finais da corrida, saía–se ganhador.
RICARDO foi em definitivo para a Argentina há pouco tempo, mas já é ídolo, exaltado pelos proprietários, pelos turfistas em geral e pela imprensa.
JORGE RICARDO merece.
por Milton Lodi