Antigamente, qualquer cidade pequena do interior tinha pelo menos um bom ferrador de cavalos e burros, profissão que passava normalmente de pai para filho. Com o progresso dos haras paulistas, a mão de obra especializada foi sendo absorvida pelos criadores do P.S.I., e ferradores faziam competentemente o trabalho de corte dos cascos.
A cada três semanas, os antigos ferradores, como casqueiros acertavam a cascaria do plantel, e até colaborando na correção de aprumos.
No Jockey Club de São Paulo, imperava no setor um grandão forte e simpático de nome FIORI, que além de atender no hipódromo e em alguns haras, ainda ficava no prado à disposição nos dias de corrida, para eventuais necessidades. FIORI era imitado por alguns, e deixou saudades.
Tradicionalmente, as ferraduras utilizadas no Jockey Club de São Paulo eram de material inferior ao usado no Jockey Club Brasileiro. Era comum ferraduras de alumínio prejudicarem performances, pois entortavam e até quebravam. Daí nasceu uma prática, ainda vingente em São Paulo, de ferrar as mãos de alumínio e os pés com filetes de ferro. FARWELL, cavalo grande, forte e pesado, usava filetes de ferro nos posteriores.
No Jockey Club Brasileiro, não é usual a utilização dos tais filetes, pois o material sempre foi de melhor qualidade, a liga mais resistente. O ferrador francês conhecido como Sr. LOUIS, montou na Gávea uma verdadeira escola, dela tendo saído muitos profissionais gabaritados, com destaque para um filho adotivo do Sr. LOUIS, conhecido como Sr. LULÚ. Ferrador de primeira qualidade, também fazia, e ainda faz, ferraduras para utilização dos outros profissionais. Com a idade, o Sr. LULÚ não ferra mais, trabalho duro, mas acompanha o ferrageamento com observações e instruções.
Houve uma época que o Jockey Club de São Paulo trouxe um mestre–ferrador de Newmarket (Inglaterra), que por duas semanas ministrou um curso muito proveitoso no Posto de Monta de Campinas. Foi de grande utilidade.
Eu me utilizava dos serviços de um casqueiro que morava em São Paulo, e que a cada três semanas chegava no haras para tratar da cascaria de todos os animais. Era um crente, trabalhava de forma competente por dois ou três dias, havia uma pequena casa da qual ele se utilizava para descansar e dormir, e de lá ele ia prestar serviço em outras fazendas de P.S.I. ou de outras raças, e depois voltava para a sua residência na cidade de São Paulo. E três semanas depois ele voltava.
Tudo corria muito bem, até que um dia o serviço, de muito bom, passou a muito ruim. Cascos mal aparados, sem o necessário cuidado, uma alteração radical no comportamento. Pedi ao meu capataz que conversasse com ele, e foi mal recebido apesar da convivência pacífica por muitos anos. Eu pessoalmente fui conversar com ele, e fui mal recebido. Se eu não estava satisfeito, que colocasse outro enquanto ele ia buscar os direitos dele.
À época o sindicato dos empregados e também o dos empregadores funcionavam na cidade de Mogi Mirim. Foi iniciado um processo contra mim, o advogado do meu sindicato se mexeu, e eu tive a certeza de que ia ganhar a causa. Quando numa tarde, no haras, chegou em um fusca aos pedaços, não sei como ele andava, um homem pequeno, cabelos desalinhados, barba por fazer, poucos dentes na boca, e mal vestido. Ele se apresentou como o advogado do tal casqueiro, disse que ele não tinha como ganhar a causa, e se ofereceu para, a troco de um dinheiro qualquer, perder de propósito um prazo, e assim interromper em definitivo o processo. Ele não só iria perder se o caso fosse até o fim, como o empregado não teria como pagar alguma coisa a ele pelo serviço. O jeito era perder logo um prazo de propósito, tendo no bolso uma gratificação que eu daria a ele. Eu não aceitei a proposta, no dia do julgamento não compareceu o meu advogado, e à revelia perdi a questão. Se o tal advogado matungo ofereceu vantagens a quem quer que seja, não sei, a verdade é que tive que pagar uma absurda e injusta indenização.
Sem casqueiro, consultei o meu amigo e bom veterinário José Luiz Pinto Moreira, o "Maquininha", e ele me sugeriu Antônio Carlos Secco, conhecido como DEDÉ que, no meu entender, ainda hoje é destaque absoluto no setor. Ele mora em Jaguariúna, SP, perto de Campinas. Presta ótimos serviços a muitos haras paulistas.
por Milton Lodi