Por volta de 1940, o principal garanhão na Itália era Ortello, o Teddy italiano, e o seu filho Macherio veio a ser um dos expoentes entre os garanhões. O meu pai, em viagem pela Itália em época em que estava montando o seu Haras Ipiranga, comprou dois filhos de Ortello para a reprodução: Mandello (3 vitórias e 1 colocação em 5 apresentações) era irmão próprio de Macherio, um cavalo de gênio complicado, intranqüilo, com um olho branco, e que era monorquídeo (um só testículo). Foi um completo fracasso na reprodução, e sua morte foi quase um suicídio (empinou e caiu de costas).
O outro filho de Ortello era um cavalo forte, sólido, vigoroso, ganhador de 15 corridas e 32 colocações, como um bom cavalo de handicap. O que faltava de classe sobrava em poderio físico. Apresentou um bom aproveitamento dando muitos filhos ganhadores de muitas corridas comuns, e também foi pai das boas clássicas Derah e De Tróia. Já no fim de sua vida reprodutiva eu o troquei com uma recém–saída de corridas, filha de Eboo e Garbosa Bruleur, com José Paulino Nogueira, do Haras Bela Esperança. No mesmo avião que trouxe da Itália Mandello e Minotauro, veio também Four Hills, com menos de 1 ano de idade.
Em uma outra viagem à Itália, o meu pai conheceu um “gentleman rider”, um cavaleiro amador, que tinha um lindo alazão de nome Destino, um filho de Pilade (Hurry On) e Debra, por Cranach. Ele era mais para grande, forte, manso, esperto, de ótimo temperamento, e completamente são. Muito bem feito de aprumos, e curiosamente com longas quartelas, que funcionavam como ótimos amortecedores. O meu pai comprou o cavalo, e orientado pelo antigo dono, Destino seguiu correndo na Itália, viajando com o ex–dono pelo interior da Itália, correndo sempre na primeira turma em todas as cidades, pequenas ou grandes, onde houvesse uma prova favorável e bem dotada. Terminou a campanha nas pistas rigorosamente são e saudável, em ótimas condições físicas, e com o incrível resultado de 43 vitórias em 73 apresentações. Veio para o Brasil para a reprodução, sempre com ótima fertilidade, produziu bem sem ser ótimo, era um bom coadjuvante de Flamboyant de Fresnay, Kameran Khan e Takt, e como Manguarí, Fairy King e outros, teve participação positiva na criação brasileira.
Cabe aqui um parênteses. Já dizia o Capitão Bela Wodianer para “comprar o bom, não o irmão do bom”. No Brasil muitos erros desse tipo foram cometidos. O meu pai comprou Mandello, irmão materno (próprio) de Macherio, e foi fracasso total. O prestígio de King Salmon, filho de Salmon Troot e Malva, suscitou a importação do também inglês Good Cheer, um castanho muito bonito, filho de Felicitation e Malva, que foi um zero. Os ótimos produtos de Seventh Wonder, filho de Paros e Benvenuta Cellini, encorajaram a compra pelo paulista Haras Bocaina do inglês Bleneran, um filho de Donatello e Benvenuta Cellini, que produziu baixa qualidade e nenhuma classe. Millenium foi importado da Inglaterra por um grupo de criadores paulistas e teve bons resultados. Ele era filho de Aureole e Secret Session. Dois haras paulistas importaram o irmão Golden Swan, filho de Crepello e Secret Session, de resultado igual a zero. O incrível Ghadeer, filho de Lyphard e Swanilda, acabou provocando importação de Arizelos, filho de Shirley Heights e Swanilda. Pois é. “Comprar o bom, não o irmão do bom.”
O único caso importante que eu conheço e que não se enquadrava totalmente na regra foi o de Hyperion (Gainsborough e Selene), que teve no Brasil um bom irmão, muito longe dele mas não ruim, que foi Hunter’s Moon (Hurry On e Selene). As boas regras foram feitas para serem respeitadas, principalmente se ditadas pela sabedoria do Capitão Bela.
Além de complexo, o turfe é também curioso. Veja–se o caso de Spend A Buck, grande ganhador clássico nos Estados Unidos e que por lá ficou na reprodução por quase quinze anos. Veio para o Brasil derrotado por uma vida reprodutiva abaixo da crítica para um cavalo de sua alta categoria de corredor, desperdiçando as muito e ótimas oportunidades que lhe foram oferecidas. Veio para o Brasil como um reprodutor fracassado, e surpreendentemente, desde a sua primeira geração brasileira, deu bons ganhadores clássicos e até líderes de turma. Alguns desses brasileiros filhos de Spend A Buck foram levados a correr nos Estados Unidos e lá também foram sucesso. Ele representa uma das glórias do Haras Old Friends Ltda, de Bagé.
Blackamoor era um tordilho argentino de muita qualidade, ótimo pai clássico no Uruguai, e veio para o Brasil trazido pelos Haras São José & Expedictus. Após anos de sucesso, Aureliano Rodrigues Larreta, titular do Haras Uruguai S.A., ganhador das estatísticas por muitos e muitos anos, e que havia vendido o cavalo para o Brasil, veio ver o então velho cavalo, nascido em 1939 e já no fim de sua vida reprodutiva, e disse que pretendia levar um cavalo do Brasil para o seu haras. Foram colocados preços diferentes nos vários cavalos disponíveis, dentre eles Blackamoor. A surpreendente escolha foi a de um dos cavalos menos caros e mais pretensiosos do lote, um bom corredor sem ser excepcional, filho de Fort Napoleon e My Ladyship, por Blue Peter, de nome Tapuia. Esse Tapuia foi para o Haras Uruguai S.A., e foi por muitos anos o líder da estatística de garanhões.
Depois da fase de King Salmon e a seguir de Swallow Tail, o criador Antonio Joaquim Peixoto de Castro Junior importou o maior nome da estatística francesa de reprodutores, o orelhudo Sayani, que manteve em altíssimo nível o padrão clássico do Haras Mondesir. Na letra “X”, Sayani deu entre outros muitos bons ganhadores clássicos como Xaveco e Xadrez, daquela estupenda geração paulista de Escorial, Lohengrin, Emocion, Gaudeamus etc. Encerradas as campanhas, Xaveco foi vendido para o Haras Patente, onde foi um excelente reprodutor, e Xadrez para um uruguaio. Para surpresa geral inclusive e principalmente para o Dr. Peixoto, os exames de fertilidade de Xadrez mostraram–se muito ruins, fracos. O Dr. Peixoto evidentemente não gostou da péssima surpresa, e disse que Xadrez continuava à venda, mas pelo primeiro preço que lhe fosse oferecido e mediante uma carta do eventual comprador no sentido de que sabia do problema de fertilidade. Um criador paulista, do Haras Anhanguera, logo se apresentou com uma irrisória proposta. O Dr. Peixoto como sempre cumpriu a sua palavra, aceitou a proposta e exigiu a assinatura na tal carta. Xadrez ficou no tal haras por mais de 10 anos, nunca deu sequer um filho que pudesse ser considerado regular. Um dia, um garanhão meu morreu em meio à estação de monta, e eu, que “namorava” o Xadrez de longe, fui vê–lo no Haras Anhanguera, em Valinhos (SP). Estava lindo, não parecia já ter passado dos 16 ou 17 anos de idade. O fato de o Xadrez ter um pedigree privilegiado, Sayani em filha de King Salmon, as suas demonstrações de alta classe que eu vi nas pistas e o excelente estado em que ele se encontrava me fizeram sobrepor os muitos pontos positivos ao negativo da pouca fertilidade. Eu o comprei e ainda dei para substituí–lo um lindo cavalo já ganhador com 3 anos de idade filho de Takt em uma filha da Garbosa Bruleur. Para terminar o assunto Xadrez, que me deu bons filhos ganhadores e também Tutsi Bonbon, ganhadora do Criterium de Potrancas, na Gávea, houve um momento em que os meus então dois ganhadores de Grupo 1 ainda nas pistas, Gourmet e Goethe, tinham Xadrez como avô materno em éguas diferentes.
Rasputin era um bom cavalo chileno, que veio correr e ganhar o GP São Paulo. Voltou para o Chile, e lá foi comprado pelo Haras Santa Ana do Rio Grande, que o manteve lá em treinamento e veio em importação definitiva para correr o GP Brasil, quando foi 3°. Fez ainda uma boa campanha clássica no Brasil, tendo corrido outra vez o GP São Paulo para chegar em 3°. Após mais de um ano em campanha nas pistas brasileiras, foi para reprodução no próprio Santa Ana. Era um cavalo para distâncias maiores, e representava consistência nos pedigrees de seus descendentes.