Desde que o turfe mundial transformou–se definitivamente em indústria, o uso do conjunto televisão – INTERNET – agentes credenciados constitui a principal alavanca do crescimento do movimento geral de apostas (leia–se, o conhecido MGA).
Sem TV (a cabo, ou em circuito fechado), sem INTERNET, e sem agências que ajudem na captação de apostas, o máximo que se consegue é manter um determinado nível de MGA, cujo crescimento será, na melhor das hipóteses, vegetativo. E quando se considera a inflação acumulada da moeda, tal crescimento se transforma o mais das vezes em negativo (o que ocorre na maioria dos casos).
Como nada indica que esta tendência vá se alterar no futuro – ao contrário, a perspectiva é que ela se cristalize em termos mundiais – parece razoável que as sociedades promotoras de corridas de cavalo, quaisquer que sejam, não importa onde estejam, passem a dar atenção ao fato.
De tudo isso, resulta obrigatório que a melhoria do MGA de qualquer hipódromo, esteja hoje ancorada em dois grandes pilares:
(i) a ampla difusão dos eventos através da TV; e
(ii) a captação de apostas pelas agências credenciadas, e via INTERNET.
Dito assim, parece fácil. Mas não é.
E não é, pelas seguintes razões: (a) porque a difusão de eventos esportivos – e o turfe é apenas um deles – implica alta dose de competência e profissionalismo no tratamento das imagens; (b) porque leva tempo consolidar um sistema de apostas via INTERNET (como levou anos a implantação do "home broker" nas operações do mercado financeiro e de capitais); (c) porque a construção de uma rede ágil e eficiente de agentes credenciados, demanda uma estrutura apta a apoiar, incentivar, e, principalmente, controlar sua atuação.
Mas estas são as dificuldades normais de quem pretende modernizar–se, e fazer crescer vendas. Vários países estão conseguindo resolver esta questão, e, certamente, vão sobreviver no ambiente cada vez mais competitivo do turfe mundial. Quem não conseguir adaptar–se aos novos tempos, simplesmente sucumbe. Nada de novo. Desde Darwin, essa é a lei da vida. E dos negócios.
O exemplo europeu (França e Inglaterra)
O turfe da França está entre aqueles cujas apostas continuam crescendo em termos reais, graças à eficiência da rede de agências do Pari Mutuel Urbain (PMU) controlado pela France Galop, a um excelente sistema de divulgação das corridas através da TV, e ao advento dos jogos via INTERNET.
Para cada 100 euros jogados nas corridas francesas, 73 retornam aos apostadores, 13 ficam com o estado sob a forma de impostos e taxas, e 14 euros são destinados às sociedades promotoras para serem repartidos entre proprietários, criadores, treinadores, jóqueis, e, claro, financiar a gerência dos hipódromos e do próprio jogo. Graças a esse esquema, a indústria do cavalo de corrida naquele país emprega diretamente 70.000 pessoas (metade ligada às corridas). Se considerarmos o conjunto das atividades anexas, o número dobra para 140.000 empregos cuja manutenção depende da existência da atividade.
Em 2007, o volume de apostas em corridas de cavalo na França somou 8,8 bilhões de euros (hoje cerca de US$ 13 bilhões) para um universo de 6,5 milhões de apostadores, um crescimento de 9% em relação ao ano precedente. Portanto, a saúde econômico–financeira de todo o conjunto da indústria vincula–se, antes e acima de tudo, à evolução positiva do MGA praticado no país.
Não há cassinos, nem máquinas caça–níqueis nos hipódromos franceses. O que há, em essência, é a boa gerência dos negócios do turfe por parte das autoridades responsáveis pelo setor.
Na Inglaterra, é um pouco diferente, eis que a existência legal das casas de apostas (“bookmakers”) drena parte substancial dos ingressos da indústria. Ainda assim, um montante considerável retorna sob a forma de patrocínio às provas da programação clássica, publicidade nos veículos de comunicação, e aluguel de espaço nos principais hipódromos.
As peculiaridades do sistema inglês, entretanto, geraram um novo tipo de “operador” privado, cujo negócio é, basicamente, a difusão das imagens do esporte através da TV a cabo, complementado por site de notícias, e a venda de publicidade nacional e internacional.
É o caso da “At the Races”, uma “joint venture” entre a BSkyB, a Arena Leisure, o Ascot Racecourse, o Northern Race (Irlanda), a Plumpton, e a Ripon & Newton Abbot Racecourse, com direitos de mídia (leia–se, divulgação de imagem) em 31 hipódromos na Inglaterra e todos os hipódromos da Irlanda. Além disso, a “At the Races”, que funciona 24 horas, explora um site com 600.000 usuários cadastrados, e 60 milhões de “hits” mensais.
O conceito de atuação da “At the Races” é o mesmo da Bloomberg em relação ao mercado financeiro: 24 horas no ar, informando literalmente tudo que o espectador precisa saber sobre cavalos de corrida e corridas de cavalo na Ilha, e no mundo. Em termos de publicidade, 31% da audiência da empresa é formada pelo que se chama de “ABC 1 Males” (adultos do sexo masculino com alto poder aquisitivo), contra a média de 18% da mesma audiência, considerado o total da rede de canais a cabo da Inglaterra. No balanço de 2008, a “At the Races” apresentou lucro líquido de £ 9 milhões.
Esta parece ser a grande novidade no campo da difusão do esporte e da indústria do PSI na Europa, ou seja, o aparecimento de “operadores” privados dedicados exclusivamente à tarefa. E isso evidentemente conta, no que respeita à alavancagem do volume de apostas.
Em ambos os casos, porém, a regra na França e na Inglaterra, bem assim, na Argentina, mas por outros motivos (ligados à proteção dos empregos domésticos), é a de que a exploração, por terceiros, de “simulcastings” internacionais, só é autorizada depois de esgotadas todas as potencialidades dos mercados locais.
Em outras palavras, a abertura do mercado interno de apostas de determinado país, só ocorre quando encerradas as possibilidades de expansão do “simulcasting” nacional.
A esta altura, parece interessante examinar a situação brasileira, à luz das tendências mundiais a respeito. Conforme se segue.
MGA e o Brasil
Não se trata aqui de dissertar sobre o que é evidente e do conhecimento geral: a indigência do volume de apostas em corridas de cavalo entre nós, cujo crescimento tem sido especialmente baixo, quando não negativo, se considerada a inflação acumulada medida pelo INPC.
Ainda falta muita coisa em nosso turfe, para que o Brasil deixe de ser incluído no rol dos mercados considerados irrelevantes em termos de MGA. Inútil enumerar todas as nossas limitações, das quais a mais evidente é a ausência de uma estrutura de organização que garanta ao turfe independência técnica e programática, em relação ao contexto dos principais clubes promotores de corridas onde está situado.
Em contrapartida, o que a criação do cavalo de corrida brasileiro já conseguiu nos últimos anos – apesar da falta de incentivo, e de todo o desamparo em que hoje se encontra – é, sob todos os aspectos, admirável. Não é aí, pois, que reside nossa maior dificuldade.
A par das notórias restrições impostas pela atual estrutura do turfe entre nós, certamente um dos grandes problemas a impedir seu progresso – com conseqüências diretas no MGA –, é, de um lado, o tratamento equivocado que tem sido dado às premissas TV–INTERNET, acima mencionadas, e, de outro, a ausência de controle e supervisão sobre os agentes credenciados, embora eles comandem a parte do leão (algo em torno de 60%) do movimento geral de apostas das principais sociedades promotoras de corridas.
Diante dessas realidades, é improvável pretender–se obter ganhos de volume do MGA. E o fato dele encontrar–se estacionado (ou cadente) há vários anos não deve surpreender ninguém.
Tentar encontrar uma saída para este impasse não custa. Como igualmente não custa, enumerar alguns conceitos básicos a respeito de turfe, televisão, e agentes credenciados, da forma como eles são vistos pelos profissionais do assunto na Europa e na Ásia.
Turfe e TV
O exemplo da divulgação das corridas pelo Jockey Club Brasileiro, é altamente significativo. Quando os animais, após o toque do corneteiro, entram na raia para disputar as provas de elite da programação clássica, o locutor anuncia: “Este páreo dá início ao Betting 5...” Irrelevante se a prova se trata do Derby, do Diana, do GP Brasil, ou do que for. A ênfase é sempre no jogo, nunca nos cavalos.
Inteiramente ao contrário, do Japão (o turfe mais próspero do mundo) à África do Sul; dos EUA à Europa; da Argentina à Austrália, o único conceito que importa nas corridas de cavalo, são os cavalos. Assim, ou há algo de errado com o turfe deles, ou há algo de (muito) errado com o nosso.
Para todos os países acima mencionados, os cavalos, e não qualquer outra coisa, são os únicos heróis certos dessa atividade, desde que o thoroughbred foi inventado. Tudo que se queira imaginar a respeito, como, de saída, o volume de apostas, mais a sanidade das pistas, a racionalidade da programação clássica, o conhecimento das regras de interferência da disputa, etc. etc., tudo gira em torno de um único e só propósito: o puro sangue de corrida.
Portanto, uma programação de TV dedicada especificamente ao turfe, cujo foco principal não seja, no mínimo, (1) explicar aos espectadores o significado de cada prova do calendário clássico (e todas elas têm um significado, aliás, universal); (2) que não informe sobre a adequação das origens dos animais (pedigrees) às distâncias a serem percorridas; (3) que não comente seu estado físico no instante da disputa; (4) que não analise como eles se movem no galope de apresentação; (5) que ignore seu comportamento no paddock, quando são submetidos à pressão do público; (6) que não explique as vantagens e desvantagens do peso que carregam, enfim, uma programação de TV que não se detenha nos milenares aspectos técnicos do esporte, tem dois efeitos: (a) desinformar os apostadores sobre as chances reais de cada competidor, e (b) transformar o jogo em corridas de cavalo numa loteria de números, onde só a álea conta.
O jogo em corridas de cavalo não é algo que exista por si só, não é uma entidade autônoma. Ele não integra a categoria dos chamados jogos de azar, de qualquer tipo. Antes dele existir, existe um veículo, um ser vivo, com um passado, uma história, e as complexas reações dos seres vivos, através dos quais o jogo se materializa. As duas liturgias são totalmente diferentes.
É sob a ótica do cavalo, que o esporte do turfe, e conseqüentemente o jogo em corridas de cavalo, é visto em qualquer parte do mundo civilizado. Sua divulgação pela TV só tem sentido se considerar tais diferenças. Fora disso, o desafio da aposta, sempre tão caro ao espírito humano, perde sentido, torna–se entediante, estiola–se. Não entender este conceito, é quase conspirar contra a evolução do MGA de qualquer hipódromo.
Em suma, não se joga em corridas de cavalo porque existe uma tela de cotações, um totalizador, ou uma revista com retrospectos, diante dos nossos olhos. Tudo isso é importante, mas acessório. Joga–se em corridas de cavalo pelo mundo afora, porque esse tipo de jogo não é causa, e sim conseqüência da pré–existência do cavalo de corrida.
E essa é a sua suprema beleza.
Se não é assim entre nós, isso não é culpa dos homens responsáveis pelas transmissões das TV’s dedicadas ao turfe.
Mas é culpa, sim, de quem não os coordena, esclarece, e muito menos “pauta.” Tudo nelas se passa, como se fosse possível fazer funcionar qualquer veículo de comunicação sem roteiro, e sem editor. Os ritmos são atropelados por silêncios sepulcrais, o tédio é quase sempre a tônica, o improviso a regra, entrevistas, vinhetas e chamadas simplesmente não há. Diante dessa perspectiva, é um milagre de improvisação que elas ainda funcionem.
Mas esperar que funcionem no sentido de ampliar o interesse em torno do esporte, e, dessa forma, induzir ao crescimento do MGA, vai uma grande e otimista distância.
Depois dos cavalos, a ênfase é sempre nos homens que os dirigem e treinam, nessa ordem. Não é por outro motivo, que a imprensa japonesa transformou Yutaka Take, o melhor jóquei do país, num ícone da mídia, no mesmo nível dos lutadores de sumô – o esporte nacional japonês.
Enfoque idêntico existe na Europa e nos EUA, e os exemplos são fartos. Quando Lester Pigott montava, sua imagem pública se rivalizava com a dos animais por ele conduzidos (Nijinsky–Pigott, Sir Ivor–Pigott, Alleged–Pigott, Roberto–Pigott, etc. etc.). Na França, seu arqui–rival, o genial Saint–Martin, passou décadas levando multidões aos hipódromos e amplificando o interesse pelo esporte, até o paroxismo de Allez France–Saint–Martin, Sassafras–Saint–Martin, etc. etc. Hoje é Soumillon, o “enfant terrible” do turfe francês, que começa a ocupar esse lugar na mente e no coração dos turfistas europeus, desde Dalakhani–Soumillon, e Zarkava–Soumillon. Na Inglaterra, Franco Dettori e seu salto quase circense ao desmontar, são tão ou mais conhecidos que os ganhadores que pilota.
O mesmo ocorre entre os treinadores. Quando Vincent O’Brien se aposentou, Aidan O’Brien (nenhum parentesco entre os dois) se tornou o novo “Mago de Ballydoyle” no coração da mídia. François Boutin faleceu, e foi substituído por Andre Fabre, o Inacessível, filho do embaixador francês na Alemanha, bom jogador de pólo, ex–jóquei amador, com mais de 200 ganhadores de Grupo I desencilhados por ele. E assim por diante.
Em resumo, ou se substitui o enfoque do prosaico “Este páreo dá início ao Betting 5”, pela análise dos potros que entram na pista para correr o Derby – e passamos a cultivar os heróis certos dessa atividade –, ou podemos começar a arquivar qualquer pretensão de atrair o interesse do público (e de novos apostadores) pelo turfe.
Nesse caso, o MGA dos hipódromos brasileiros vai continuar a viver e a girar em torno de sua própria irrelevância.
Turfe e apostas pela INTERNET
Este é o mais novo, mais sofisticado, e mais poderoso instrumento de alavancagem das apostas em corridas de cavalo em todo o mundo. Já o temos entre nós. Mas ainda estamos longe de conseguir explorar todas as suas potencialidades.
Novamente, para usar a INTERNET como o mercado financeiro e de capitais a usa, duas condições são necessárias: investimento em sistemas de informação, e estrito controle de seus resultados. Isso implica uma estrutura exclusivamente voltada para a atividade, regras severas de “compliance”, ademais da supervisão de um diretor de apostas a ela dedicado em tempo integral.
Entretanto, com a atual estrutura de clube das sociedades promotoras de corridas de cavalo do Brasil, fica difícil imaginar de que forma poderemos avançar na direção de expandir o MGA, via INTERNET.
Mas deve ser louvado o esforço de já termos implantado o serviço entre nós. O que daí vier a resultar, vai depender, em grande parte, da escolha das prioridades certas, do empenho, e da visão empresarial dos responsáveis pela administração dos Jockeys Clubes do país.
De tudo, fica uma certeza: a ter que investir na chamada “profissionalização” da gerência dessas instituições, é mais racional, mais inteligente, e certamente muito mais efetivo, em termos de retorno, investir em mão–de–obra e sistemas de apostas via INTERNET, do que aplicar ponderáveis somas na contratação de pessoal para cuidar das tarefas do comezinho, e por demais conhecido, dia a dia do turfe.
Turfe e agentes credenciados
Este é um dos grandes mistérios do turfe brasileiro: ter optado por terceirizar a captação de apostas em corridas de cavalo através de uma rede de agentes credenciados espalhados pelo país, e não criar, internamente, mecanismos de controle que interagissem, todo o tempo, com os referidos agentes.
Mas não é só isso. Diante do fato de que a citada rede hoje movimenta mais de 2/3 do faturamento de vendas dos Jockeys Clubes, parece suicídio (na verdade, é), não só deixá–la ao sol e ao sereno, como admitir que os agentes decidam, em nome das sociedades promotoras de corridas, o que é melhor para si, não para elas.
Toca o inacreditável imaginar que isso ocorra. Mas o fato é que ocorre.
Qualquer empresa do mundo, qualquer acionista, sua diretoria, seus executivos, seu conselho de administração, ficariam pasmos diante da hipótese. Contudo, isso não parece tocar a sensibilidade dos responsáveis pelos destinos dos Jockey Clubes. Ao ponto de reconhecerem que, talvez, o volume de apostas pudesse ser maior – ou bem maior –, caso houvesse o cuidado de cuidar, em todos os sentidos, dos agentes credenciados.
Ter uma conversa como esta, por exemplo, com os responsáveis pelo PMU francês, de duas, uma: ou vão pensar que se trata de brincadeira, ou, ao constatar que não, ressuscitam Monsieur Pinel, e sugerem–lhe cuidar de nós.
Daí resulta, que, obviamente, o verdadeiro MGA do turfe brasileiro não é esse aí. Esse aí, é apenas uma fração do que poderia ser, caso os responsáveis pelos Jockeys Clubes do país tomassem providências com respeito à notória evasão de receita, originária do descontrole de sua rede de credenciados.
E não é preciso muito para gerenciar credenciados de venda de apostas: um responsável específico por esse segmento de atividades; um plano de negócios com metas de faturamento mensal; o acompanhamento e a análise da performance de cada um desses agentes; o pronto atendimento às suas necessidades operacionais; a eventual discussão de novos percentuais de retirada, em função de melhorias no faturamento; e o corte sumário daqueles que não se adaptarem ao sistema de supervisão, parece suficiente para começar.
Como está, a situação só tende a agravar–se. Nesse caso, ninguém se queixe da forma como hoje é tratada uma questão vital à sobrevivência do turfe (vale dizer, das próprias sociedades promotoras de corridas).
O futuro
Certamente, há importantes ganhos de performance a serem incorporados ao MGA de nossos principais hipódromos. Para isso, basta que as sociedades promotoras de corridas mudem de atitude e passem a gerenciar melhor o tripé TV–INTERNET–credenciados.
O que parece estar faltando nesse momento, é conhecimento e capacidade para lidar com o impasse, em grande parte fruto da perda de conceitos sobre o que seja uma próspera e organizada indústria do cavalo de corrida.
Talvez tenha chegado a hora de meditar seriamente sobre o assunto. Antes que seja tarde demais, talvez a melhor coisa a fazer seja libertar o turfe da camisa de força em que o meteram, e mudar radicalmente a forma como ele é hoje conduzido pelos clubes de corrida.
Pois sob qualquer aspecto que se examine a questão, não se justifica o verdadeiro abismo de eficiência que hoje separa os excepcionais resultados da criação, do pálido desempenho dos Jockey Clubes do país.