Na administração geral do presidente Linneo de Paula Machado, o então Diretor Secretário Adhemar de Faria entendeu de promover um Grande Prêmio, no Jockey Club Brasileiro, de alta dotação e grande repercussão internacional. À época, 1932, os clubes promotores de corridas de cavalos eram entusiasmados mas de caráter regional, e as comunicações inter–estaduais eram muito precárias, difíceis, telefones péssimos, rádios de mínimo alcance, não havia televisão, fax, computadores e as atuais novidades. As comunicações eram feitas por telegrama e/ou cartas. Que demoravam demais para chegar. O pequeno trânsito de cavalos, no eixo Rio–São Paulo era feito de trem pela “Maria Fumaça”, movido a carvão, que era lerdo, inconfortável, expelindo fuligem, o que obrigava os usuários a vestirem sobre a roupa uma capa de pano, um guarda–pó. Era a alternativa para poder deixar parte das janelas abertas, pois mantê–las totalmente fechadas seria insuportável o calor (ainda não havia o ar refrigerado). Era nesse tipo de trem que viajavam os melhores corredores, os poucos que se aventuraram em viagens inadequadas, à procura das poucas provas com dotações melhores. Para os cavalos e seus acompanhantes, viajar em vagões impróprios, desconfortáveis, era uma aventura, um sacrifício.
O dinheiro e a criação dos paulistas, aliados a uma paixão competitiva, assegurava a melhoria crescente do turfe local, enquanto que no Rio o maior e melhor criador da época, Linneo de Paula Machado, criava em dois grandes haras em São Paulo mas corria preferencialmente no Rio, criando uma nova atmosfera esportiva, despertando novos interesses, e só para citar dois turfistas importantes que fizeram parte da então novidade, poder–se–ia lembrar de Antonio Joaquim Peixoto de Castro Junior com seu Haras Mondesir situado em terras paulistas e o pernambucano Coronel Frederico João Lundgren, com o seu Haras Maranguape. Se os cavalos tinham o trem como meio de transporte Rio–São Paulo, pois a teórica alternativa da estrada de rodagem era muito pior, uma estrada de terra sem bons pontos de parada para alimentação e bombas de gasolina e com extensão muito maior que a atual (sem a modernidade de viadutos, obras de engenharia que não só em muito melhoraram como também encurtaram a distância).
Foi naquela época e em 1932 que Adhemar de Faria e seu amigo, Antonio Joaquim Peixoto de Castro Junior, concessionário da Loteria Federal, idealizaram um páreo com vendas de bilhetes lotéricos. Um grande sorteio definiria os bilhetes que correspondiam a cada cavalo daquele páreo, todos antes do páreo já premiados, e cabendo ao bilhete referente ao ganhador um super prêmio. Essa promoção resultaria em um prêmio ao proprietário do cavalo vencedor para época inimaginável quantia de 300 contos de reis. O Dr. Linneo estava na Europa, e o Dr. Adhemar e o Dr. Peixoto o convenceram. Assim nasceram o Grande Prêmio Brasil e o “Sweepstake”, em 1933. Os números eram espetaculares, e atraíram a atenção do país inteiro, era a proposta de um verdadeiro sonho financeiro. O Dr. Linneo trouxe corredores da França, o Dr. Peixoto importou o craque uruguaio Bambu, vieram cavalos de todo lado, muitos da Argentina, da Irlanda e da Inglaterra, e o que havia de melhor em São Paulo. Como é fato conhecido de todos, o vencedor foi o lendário pernambucano Mossoró, filho do brasileiro Kitchner (esse filho do norte–americano Novelty). A repercussão foi estrondosa, e o GP Brasil ficou nas manchetes por muitos anos. De 1993 a 2009, foram disputadas 77 versões dessa prova, com 46 vitórias de cavalos brasileiros. Dessas 46 provas, dez delas foram vencidas por nacionais filho de pais nacional. Começou com Mossoró filho de Kitchner, depois Fenomenal por Torpedo, Daião por Sabinus, Aporé por Egoísmo, Gourmet por Negroni, Flying Finn por Clackson, Quinze Quilates por Only Once, Aiortrophe por O Maior, Lord Marcos por Clackson, e Thignon Boy por Thignon Lafré.
O intenso fulgor que iluminou o primeiro GP Brasil ainda hoje se reflete, mas a sua intensidade é muito menor. Só para que se tenha uma idéia, o próprio quadro social do Jockey Club Brasileiro, com mais de 5 mil sócios, não prestigia com um simples comparecimento ao Hipódromo da Gávea como também nem bilhetes do Sweepstake comprava. Os freqüentadores da sede social, os da garagem e os do clubinho da lagoa não tomam conhecimento do que ocorre no hipódromo, e quando raramente o fazem, em sua maioria demonstra preferir taxa mensal mais barata, estacionamento de automóveis por preços menores, a implantação de mais quadras de esporte etc. A multiplicação de bingos, raspadinhas, megasenas, quinas, e outros tipos de apostas, além da falta de dirigentes com forças para procurar manter em alta o interesse pelas corridas, em muito colaborou para o sepultamento da promoção fantástica de Adhemar de Faria, Antonio Joaquim Peixoto de Castro Junior e Linneo de Paula Machado.
Não se fazem mais dirigentes pioneiros como antigamente.
(Transcrito da Revista Turf Brasil)