Eram irmãs gêmeas, Abigail e Lucília. Abigail, apelidada de Birroca, e Lucília de Luluxa, eram fìsicamente muito bonitas mas diferentes, uma loura e a outra morena, sempre muito amigas. Cresceram e estudaram sempre juntas.
Luluxa apaixonara–se por um professor de matemática, teve um casamento muito feliz e duradouro. Tivera um só filho, o Joca, bom menino, estudioso e trabalhador, e quando o pai morreu manteve–se morando com a mãe até a morte dela, aos 80 anos de idade.
Birroca era mais vistosa que a irmã, casara–se três vezes, e cada marido deixou–lhe uma fortuna. Aos 80 anos de idade, com boa saúde, ainda com vestígios de sua beleza de juventude, cabeça ótima, sofreu dois fortes golpes, as mortes da irmã e do terceiro marido. Como não tinha filhos, o seu amor maternal era todo dirigido ao sobrinho e afilhado Joca, seu total e único herdeiro, um dos amores de sua vida.
Joca cresceu cercado pelo amor da mãe e da tia, e fazia tudo para corresponder. Filho de professor, aprendera a estudar, ser disciplinado, e separar os seus momentos de estudo e trabalho dos de folgas e prazeres. O seu único segredo era a paixão pelos cavalos, segredo que partia do princípio de que o equivocado entendimento da maioria das pessoas quanto às corridas poderia criar problemas pessoais em seu relacionamento familiar. Quando a mãe morreu, ele não mais dela dependia, e ele já era sócio em uma quarta parte de um potro no Jockey Club. Solteiro, competente, com um bom salário e uma boa conversa, acompanhava as corridas e ia ao prado, e para não provocar eventuais suspeitas e problemas, ia sempre jantar com a tia Birroca às quartas–feiras, dia em que não há corridas, e à noite fazia companhia para o futebol na televisão.
As quartas–feiras eram o melhor dia da semana para a Birroca. Ia à missa e às compras, descansava após o almoço, e à tardinha entregava–se ao prazer de preparar o jantar com o sobrinho, o filho que ela não tivera. As viagens, os luxos, os muitos anos dourados tinham terminado para ela aos 80 anos, e só lhe restavam muito dinheiro, o Joca, e a solidão. Birroca era inteligente, sabia que a vida ainda não acabara, a sua estrada já estava curta e que havia que vivê–la da melhor forma. Os dias começavam com um telefonema do sobrinho, depois do café da manhã a missa, e depois? Luluxa, os três bons maridos, tudo fazia parte do passado, como aproveitar bem o resto de vida que o Senhor estava lhe reservando?
Em uma segunda–feira à noite, Birroca resolveu fazer uma surpresa ao Joca. Depois do jantar, colocou um bom dinheiro dentro de um envelope, e sem avisar foi ao apartamento do sobrinho. Joca, que também já havia jantado, e bebericava um cálice de licor abraçado a uma linda moça assistia as corridas de cavalos na televisão. Para Birroca, foi um susto e uma surpresa, Joca com bebidas, mulheres e cavalos de corrida? Uma onda de raiva avermelhou o seu rosto, ela só teve tempo de gritar que ele estava deserdado antes de cair sem sentidos.
Joca rapidamente pegou a madrinha no colo, colocou–a no carro e foi às pressas para o hospital mais próximo. O imediato socorro foi providencial, mesmo com quase 90 anos a Birroca recuperou–se, mas teve que ficar uns dias em repouso no hospital para exames. O Joca não saiu do lado dela, e os dois tiveram bastante tempo para conversar. Ele explicou que após o jantar costumava fumar um charuto, tomar um licor, namorar aquela gracinha de moça que a tia vira no apartamento dele, e do próximo casamento deles a tia ia ser convidada para madrinha, e as corridas de cavalos pela televisão eram só às segundas–feiras, nos fins–de–semana ele ia ao Jockey ver as corridas ao vivo, ele tinha mesmo uma pequena parte em sociedade com amigos em um potro, era tudo bom, bonito, saudável. Quanto à herança, que Birroca não se preocupasse, ele ganhava bem, o seu futuro parecia muito bom, ela que fizesse uso da fortuna do modo que lhe desse maior prazer.
Birroca ouviu calada. Pensou muito, e só não entendeu o por que da fascinação do Joca pelas corridas. Quando ela voltou para casa, disse ao Joca que queria ir com ele ao Jockey Club para ver como é que era.
Hoje em dia, se você for às corridas, não se surpreenda se encontrar sentado nas arquibancadas um casal sorridente e de mãos dadas, e ao lado deles de pé uma velha gritando desesperadamente pelos cavalos do Stud Birroca.